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A INFALIBILIDADE DA BÍBLIA - I

A Bíblia para os protestantes é a única regra de fé e prática, ela é a “palavra de Deus”, cada um dos seus textos foi divinamente inspirado e dela nada pode ser retirado, nem a ela acrescido. Vale transcrever aqui o judicioso comentário do escritor RUBEM ALVES:

“Parte-se de um “a priori” dogmático: A Bíblia foi escrita por inspiração de Deus. Mas, mais do que isto. Não basta dizer “foi”, porque então entraríamos no campo das mediações históricas. Como garantir que o texto não foi corrompido? E com isto a autoridade se dissolve pela dúvida.

O texto foi preservado puro em todos os séculos, de sorte que o texto que temos hoje diante de nós contém, na sua totalidade, as próprias palavras de Deus. A Bíblia é, assim, a voz de Deus”. (“Protestantismo e Repressão”, ed. Ática, pg. 98).

Nós não temos da Bíblia a mesma noção que os nossos irmãos evangélicos. Respeitamo-la como um repositório de ensinamentos divinamente inspirados e, sobretudo, como acervo documentário da história do povo hebreu. Duas mensagens importantes nela se inserem, visando a impulsionar os homens pela senda do progresso: Uma no Antigo Testamento, consistente no código de moral ministrado por Moisés com as “Tábuas da Lei”. Outra no Novo Testamento, dada por Jesus, com a noção da imortalidade da alma e das recompensas e punições após a morte, segundo as obras, boas ou más, do ser humano em sua existência terrena.

Essas mensagens são consideradas “revelações” e o são, com efeito, no sentido de constituírem ensinamentos novos para o povo a que eram dirigidas; mas, se compulsarmos a História, veremos que não foram ensinos dados em primeira mão, pois outros povos mais antigos, já os haviam recebido. Assim é que os “Dez Mandamentos” foram adaptados dos Livros Védicos, muito anteriores à Bíblia, nos quais se achavam classificados como “pecados do corpo” (bater, matar, roubar, violar mulheres), “pecados da palavra” (ser falso, mentir, injuriar) e “pecados da vontade” (desejar o mal, cobiçar o bem alheio, não ter dó dos outros). (THEODORE ROBINSON, em “Introduction de I”Histoire des Religions”, cit. por MÁRIO CAVALCANTI DE MELO em “Da Bíblia aos Nossos Dias”, ed. 1972, pg. 207). A noção da imortalidade da alma já existia em diversas civilizações anteriores à israelita.

Moisés certamente foi um homem de grande cultura para a sua época, versado nos segredos da ciência egípcia, por ter sido criado e educado pela família real (Atos 7:22). Isto não invalida o ensino dado ao povo hebreu, nem lhe tira o caráter de “revelação”, apenas sugere moderação aos que pretendem ser a Bíblia a única revelação ministrada por Deus aos homens.

Da mesma forma, a lei de amor pregada por Jesus já havia sido objeto de pregação pelo filósofo hindu Kristna e era crença comun entre os povos da antiguidade oriental. Mas as revelações daquele egrégio filósofo foram abafadas pelo Brahmanismo, exatamente como as de Jesus vieram a ser abafadas pelos que se proclamam seus seguidores.

O ponto que desejamos salientar é que, se a Bíblia trouxe revelações divinas ao homem, outras revelações têm sido ministradas por Deus a outros povos. Vários livros religiosos da antiguidade, cada um a seu tempo e atendendo às circunstâncias da sua época, contribuíram para a elevação moral dos povos. A própria Ciência pode ser considerada um instrumento de revelações, sendo os grandes inventores missionários inspirados no sentido de incentivarem o progresso intelectual. E o que são os grandes artistas, senão mensageiros incumbidos do aprimoramento da sensibilidade do espírito humano?

Deus é o Criador de todos os homens, e sendo um Pai Amoroso qual o retrata Jesus, não iria privilegiar um pequeno grupo de bárbaro, relegado oa abandono todo o resto da humanidade por Ele criada. Os hebreus se consideraram “o povo eleito de Deus”, e os irmaos evangelicos acreditam piamente nessa história, por haver inúmeras referêcias a isso na Escritura... E como não haveria, se os escritores da Bíblia foram todos judeus?

É interessante observar que todo o Velho Testamento retrata uma evidente preparação para o advento do Messias. Mas quando enfim desce à Terra  aquele que, segundo os nossos irmãos, é a encarnação do próprio Deus, os  israelitas o rejeitam e o crucificam... E dois mil anos depois, quando a figura do Cristo se projeta na História como o maior de todos os profetas enviados por Deus à humanidade, aquele que veio traçar novos rumos à grande civilização ocidental que se intitula “cristã”, nem assim o “povo eleito” reconhece ou se penitencia do mais clamoroso dos seus erros, continuando apegado à velha concepção farisaica, alheio à pessoa do Nazareno e não mais esperando um Messias personalizado, mas atribuindo à própria comunidade a tarefa messiânica, de conduzir a humanidade aos pés de Jeová, na plenitude dos tempos.

Sendo um povo de grande inteligência e sagacidade, é natural que os israelitas dos tempos hodiernos usassem seu inegável prestígio bíblico junto às opulentas comunidades cristãs, principalmente as protestantes, para desencadear o movimento sionista, que teve por desfecho a “doação” que lhes fizeram as Nações Unidas, em 1948, de vastos territórios mantidos sob protetorado, mas cujos possuidores, legítimos ou não, eram os povos palestinos.

Parece-nos questionável a pretensão a territórios cuja posse fora perdida há mais de três mil anos, além de terem sido adquiridos por direito de conquista, mediante o arrasamento das cidades e a eliminação de praticamente todos os habitantes. Mas o que a Bíblia deixa bem claro é que todas aquelas impiedosas conquistas foram efetuadas por ordem direta e sob imediata proteção do próprio “Deus de Israel”. Leiam-se as seguintes eloquentes passágens:

Lev. 20:26 - “E ser-me-eis santos, porque eu, o Senhor, sou santo, e vos separei dos povos para serdes meus.”

Deut. 7: 2 - “Quando o teu Deus te tiver dado gentes mais poderosas do que tu totalmente as destruirás, não farás acordo com elas e nem terás piedade delas.”

7:6 - “Porque povo santo és ao Senhor teu Deus, que te escolheu para que fosses o seu povo próprio, de todos os povos que existem sobre a terra.”

Não se veja em nossas palavras nenhum laivo de anti-semitismo; o que apenas fazemos é expor fatos, para ilustrar duas importantes conclusões: A primeira é que, para insuflar um povo bárbaro, de índole indomável, os seus próceres tinham de incutir-lhe na mente precisamente isto: — que eram “o povo santo de Deus”, portanto bem superiores aos povos idólatras cujas terras deviam conquistar, e que era o próprio Jeová quem ordenava o arrasamento das cidades e o extermínio total dos seus habitantes.

A segunda conclusão é que o grande apóstolo São Paulo, que recebeu de Jesus a missão de levar a mensagem do Evangelho aos gentios, trouxe, como resquício da sua condição de judeu e fariseu, o mesmo sentimento de privilégio, através da insólita doutrina da “predestinação”: os “salvos” foram eleitos desde a eternidade para a salvação (Efésios 1:4), todos os demais são “ímpios”, estão condenados à perdição eterna.

Os astrônomos calculam que, só em nossa galáxia, existem mais de um bilhão de mundos, inúmeros deles provavelmente em condições semelhantes às do nosso e consequientemente com boas probabilidades de serem habitados. O nosso Sistema Solar inteiro não passa de um ponto insignificante perdido na vastidão do imenso cosmo. E o habitante deste minúsculo planeta, moralmente tão atrasado que quase tudo o que faz é para prejudicar o próximo, impa de arrogância para dizer-se o centro do Universo e de vaidade para se proclamar o expoente máximo da Criação! Ora, com o extraordinário avanço da Ciência nestes últimos tempos, já é tempo de pormos um paradeiro em tão pretensiosas divagações pois é evidente que o Supremo Criador  não teria porque escolher tão desprezível “grão de poeira” para nele instalar uma humanidade eleita; e nem dela selecionar uma horda de bárbaros como seu “povo santo” ... Nem tampouco predestinar uns tantos privilegiados para a salvação eterna, condenando todos os demais a sofrimentos intermináveis...

Jesus pregou a humildade (Marcos 9:35) e ensinou que todos os homens são irmãos (Mat. 5:45 e 23:8). Ora, a convicção cristalizada no inconsciente coletivo em milênios de auto-doutrinação, de ser uma nação privilegiada pelo Todo Poderoso como “povo eleito” não pode gerar sentimentos de humildade, só de arrogância e orgulho, justificando todos os excessos. De igual modo a idéia de uma predestinação oriunda da concepção judaica-cristã perfilhada pelo apóstolo S. Paulo, não pode induzir na mente de ninguém o ideal de solidariedade humana que o nosso Mestre pregou, e sim sentimentos de egoísmo e orgulho, talvez até um certo desprezo pelos considerados “ímpios”. E o que admira é que — estando já escolhidos de antemão aqueles que deverão ser salvos — ainda se dêem ao trabalho de pregar o Evangelho aos incrédulos.

Mas falávamos da Bíblia e da sua infalibilidade. Voltemos a este assunto. Quem examinar com isenção o texto bíblico, observará que aquele Jeová do Antigo Testamento nada tem de comum com o Deus apresentado por Jesus no Novo. E não estamos incorrendo em nenhuma impiedade, sabemos que o nosso Pai Celestial é o mesmo de todos os tempos — sempre misericordioso para com todos os homens. Sabemos que por inspiração Sua foram outorgados os Dez Mandamentos, e que de vez em quando ministrava mensagens de alto conteúdo moral, como vemos em Lev. 19:1,15,18 e 34; Deut. 6:8, 8:6, 15:11, 16:19, etc. Mas essas e várias outras passagens eram como fugazes lampejos que a Divina Misericórdia lançava à consciência do povo como sementes de verdades que deveriam germinar em tempo próprio.

Tudo faz crer que o protetor imediato da nação judaica era uma Entidade mais ou menos identificada com a índole guerreira de raça. Cada homem, cada povo, tem o Guia Espiritual que merece, é dizer, compatível com o seu grau de evolução moral. Podia ser, talvez, um dos antepassados, com autoridade para impor seu domínio sobre os homens. Tais entidades por atrasadas que sejam, nâo ficam ao desamparo da Espiritualidade Superior, mas é claro que esta não pode impor ensinamentos que os assistidos não estejam ainda em condições de assimilar. A evolução tem que vir naturalmente, sempre respeitando o livre-arbítrio de cada ser.

O mesmo ocorre ainda hoje, com os “pretos-velhos” e “orixás” que orientam os cultos africanos. Quando se dedicam ao bem, trabalhando em favor dos que sofrem, recebem assistência e orientação de Espíritos elevados. Se preferem a prática do mal, tornam-se vítimas de entidades malévolas e ficam entregues à própria sorte até que, caindo em si, percebam a voz da consciência e, arrependidos, se voltem para Deus.

O exame do Velho Testamento nos leva a duas alternativas: Ou era o próprio legislador quem, com o propósito de infundir respeito, atribuía à Divindade todos aqueles rompantes de ferocidade de que o Antigo Testamento está repleto, ou Deus se fazia representar ante o povo por uma deidade tribal, talvez até mais de uma, como se infere de Gên. 3:22: “Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal.” E a prova de se tratar de Espírito ainda um tanto materializado é que habitava no tabernáculo (2.8 Sam. 7:6), ou “de tenda em tenda” (1.8 Crôn. 17:5) e “se comprazia com o cheiro dos animais imolados em holocausto” (Números 29:36). Para os gnósticos do II Século, segundo o teólogo WALKER,

“O Deus do Antigo Testamento, criador do mundo visível, não pode ser o Deus Supremo revelado por Cristo, mas sim um demiurgo inferior.” (“História da Igreja Cristã”, 2ª edição, pg. 80).

Do que não resta dúvida é que o Jeová do Pentateuco foi forjado pelos homens à imagem e semelhança destes, com todos os seus defeitos e idiossincrasias. Senão, vejamos: concluida a criação, foi examinar se estava tudo perfeito (Gen. 1:31), como se o supremo criador podesse fazer alguma coisa imperfeita. No entanto, logo se arrependeu, quando viu que a maldade se multiplicara na Terra (Gên. 6:6), como se a presciência e a onisciência não fossem qualidades inerentes a Deus. Aliás, em matéria de arrependimento, Ele nada ficava a dever a qualquer mortal: Arrependeu-se da Criação (Gên. 6:6), bem como do mal que prometera fazer ao povo (Exodo 32:14), arrependeu-se de haver feito rei a Saul (1. Sam. 15: 11 e 35), arrependeu-se por haver dizimado com peste 70 mil do seu povo (2ª Sam. 24:16). Também se arrependeu em Amós 7:3, bem como do mal que prometera fazer a Ninive (Jonas 3:10). Na verdade, apesar de “não ser homem para que minta, nem filho do homem para que se arrependa” (Num. 23:19 e 1.8 Sam. 15:29), Jeova se arrependeu tantas vezes que chegou a se  declarar “cansado de se arrepender” como se lê em Jer. 15:6. Ora sendo Deus a infinita perféição,  é claro que não poderia jamais se arrepender de nada que houvesse feito. Então, como é que querem que tudo quanto se encontra na bíblia tenha sido escrito diretamente por Deus?

Mas ainda há mais. O Deus que amamos e adoramos não pode estar sujeito às paixões humanas. Não se concebe um Deus de infinita perfeição tomado de rancor, pronto a descarregar sobre suas criaturas a sua tremenda ira. E no entanto, embora Ele se diga “misericordioso e piedoso, tardio em se irar e grande em beneficência e verdade” (Ex. 34:6), contam-se para mais de 60 acessos de cólera entre os livros Exodo e 2ª Reis. O Jeová do Velho Testamento, que deu ao seu povo eleito o mandamento “Não matarás”, mandava exterminar os inimigos (e até os amigos...) com incrível ferocidade. Assim, a despeito de que “Deus é a verdade e nele não há injustiça, justo e reto é” (Deut. 32:4), apesar de ser um Deus que “faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro” (Deuter. 10:18), vejamos como se exercitava na prática esse amor:

“Quando chegares a uma cidade a combatê-la, apregoar-lhe-ás a paz; se não fizer paz, a todo varão que nela houver passarás ao fio da espada, salvo as mulheres, as crianças e os animais.” (Deut. 20: 10, 13 e 14). Mas isso valia para as cidades distantes. Para as próximas, “nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida.” (Deut. 20:16).

e com relação ao seu próprio povo:

“Cada um tome a sua espada e mate cada um a seu irmão, cada um a seu amigo, cada um a seu vizinho.” (Ex. 32:27) “E mataram uns 3 mil dos israelitas que haviam adorado o bezerro de ouro.” Mas Moisés não matou o seu irmão Arão, que fora o fabricante do ídolo, (Ex. 32:28 e 35).

“Se teu irmão, teu filho, tua mulher ou teu amigo te convidar para servir outros deuses, certamente o matarás.” (Deut. 13:6/9).

“Se o povo de uma cidade incitar os moradores a servir outros deuses, destruirás ao fio da espada tudo quanto nela houver, até os animais.” (Deut.13:12/15).

Jeová disse ao povo: “Perfeito serás como o Senhor teu Deus” (Deuter. 18:13). Eis como o povo eleito procurava imitar essa “perfeição”: Moisés, que “era o mais manso de todos os homens que havia sobre a terra” (Num. 12:3), desce do Sinal com as “Tábuas da Lei”, onde constava o mandamento “não matarás” e logo, para passar da teoria à prática, manda matar 3 mil dos seus compatriotas e ainda por cima pede a bênção de Deus para os assassinos (Ex. 32:28/9). Josué conquistou todas as cidades da prometida “Canaã” “destruindo totalmente a toda alma que nelas havia”, (Jos. 10:35), “destruindo tudo o que tinha fôlego, como ordenara o Senhor Deus” (Jos. 10:40), porque “O Senhor pelejava por Israel” (Jos. 10:42), o que afinal não é de admirar, uma vez que “Jeová é homem de guerra” (Ex. 15:3). Das muitas cidades conquistadas, “nada restou que tivesse fôlego” (Jos. 11:14) “porque do Senhor vinha que os seus corações se endurecessem para saírem ao encontro de Israel na guerra, para destruí-los totalmente, para se não ter piedade deles, mas para os destruir a todos, como o Senhor tinha ordenado a Moisés” (Jos. 11:20). “Como ordenara Jeová a Moisés, assim Moisés ordenou a Josué e assim Josué o fez” (Jos. 11:15). “Josué os destruiu totalmente, tomou toda a terra e a deu em herança aos filhos de Israel.” (Jos. 11:21 e 23). E de estranhar que os israelitas estejam agora tentando recuperar essa “herança”?

Jefté, juiz em Israel, oferece ao Senhor em holocausto a sua própria filha (Juízes 11:31) e em seguida mata 42 mil efraimitas (também judeus) (Juízes 12:6). Os israelitas matam 25 mil da tribo de Benjamim (Juízes 20:35), passando ao fio da espada até os animais (Juízes 20:48) e depois dizimam a tribo “Gilead”, poupando apenas 400 virgens para os que haviam sobrado dos benjamitas (Juízes 21:12 e 14). Samuel era vidente de Deus (1.8 Sam. 9:19), mas mandou que o rei destruísse totalmente os amalequitas, “matando desde o homem até a mulher, desde os meninos até os de mama, desde os bois até as ovelhas e desde os camelos até os jumentos” (1 Sam. 15:3). Mas Saul poupou os animais e por isso foi castigado (1 Sam. 15:26), enquanto Samuel “despedaçou o rei amalequita diante do Senhor” (1 Sam. 15:33). Os amalequitas, pagãos, eram mais humanos, porquanto tomaram a cidade de Davi “e a ninguém mataram, só levaram cativos” (1 Sam. .30:2), mas Davi “os perseguiu e matou a todos os amalequitas, porque essa fora a ordem do Senhor” (1 Sam. 15:3), “só tendo escapado 400 mancebos que fugiram” (1 Sam. 30:17).

A INFALIBILIDADE DA BÍBLIA - II

 Mas há outras tropelias a relatar: Porque o irmão de Moisés, Arão, fabricara um bezerro de ouro para ser adorado pelos judeus, Jeová pede permissão a Moisés para destruir o povo (Ex. 32:10), porém este o repreende (Ex. 32:12) e Ele se arrepende (Ex. 32:14). Deus manda Davi recensear o povo (2.Sam. 24:1) e como este obedece e logo em seguida se mostra arrependido (por quê?), Jeová manda uma peste que dizima 70 mil jsraelitas (2.Sam. 24:15), mas depois se arrepende e o próprio Davi lhe verbera a injustiça: “Se fui eu que pequei, por que castigas estes inocentes?” (2.Sam. 24:17).

Esse mesmo Jeová deu ainda instruções inusitadas como as contidas em Deut. 23:13 e 25:11 e 12 e mandou que o profeta Ezequiel comesse pão cozido sobre fezes humanas (Ezeq. 4:12). Voltamos a perguntar: Foi mesmo Deus quem praticou todas essas sandices? Terá sido Ele mesmo quem inspirou tudo quanto se acha escrito na Bíblia?

Não nos alongaremos mais nesta análise do Antigo Testamento, porque o que aí se encontra permite formar uma idéia sobre o problema da “inerrância” da Bíblia, ou seja, do princípio dogmático de que tudo quanto nela se contém foi escrito sob a direta inspiração do próprio Deus, e, portanto, tem que estar tudo certo, não pode haver nada errado. O leitor que desejar fazer um estudo mais aprofundado sobre as incongruências e incorreções contidas nesse livro, poderá encontrar valiosos subsídios na importante obra do escritor MÁRIO CAVALCANTI DE MELLO, intitulada “Da Bíblia aos Nossos Dias”, ed. FEP, Curitiba, onde ele disseca magistralmente o Velho Testamento. Eis algumas das interessantes indagações do referido autor (Pgs. 363/371), aliás em alguns casos transcrevendo perguntas formuladas por DOMÊNCO ZAPATA, professor de Teologia na Universidade de Salamanca, no século XVII:

1 — Como pôde Deus criar a luz antes do Sol? — (Gên. 1:3 e 14). Como separou Ele a luz das trevas (Gên. 1:4), se estas nada mais são do que a privação da luz? Como fez o dia antes que o Sol fosse criado?

2 — Como afirmar que do Éden saía um rio que se dividia em outros quatro, um dos quais, o CIOM, que corria no país de Cuse (Etiópia) (Gênesis 2:13) só podia ser o Nilo, cuja nascente distava mais de mil léguas da nascente do Eufrates?

3 — Por que a proibição de comer do fruto da “árvore da ciência do bem o do mal” (Gên. 2:17), se é fato que, dando a razão ao homem, Deus só poderia encorajá-lo a instruir-se? Acaso preferiria Ele ser servido por um tolo?

4 — Por que se atribuiu à serpente o papel de Satã (Apoc. 12:9), se a Bíblia apenas diz que “a serpente era o mais astuto dos animais” (Gen. 3:1)? Que língua falava essa serpente, e como andava ela antes da maldição de que passaria a arrastar-se sobre o ventre e comer pó? (Gen. 3:14). E como explicar a desobediência da serpente, se nunca se ouviu falar de cobra que comesse pó? E como explicar que tantas mulheres possam hoje dar à luz sem dor e tantos homens comam o seu pão sem precisarem de suar o rosto? (Gen. 3:16/19).

5 — Como pôde ser punido com tanto rigor um ente primitivo como Adão, que não sabia discernir entre o bem e o mal? (e a prova disso se encontra no verso 22: “Eis que, o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal”. Caim cometeu um fratricídio e não mereceu uma pena tão severa; a despeito da maldição: “Fugitivo e vagabundo serás na terra” (Gen. 4:12), foi para Node, onde constituiu família e até construiu uma cidade (Gen. 4:17) e “seus descendentes foram mestres em várias artes:” (Gênesis 4:20-22).

6 — Os teólogos pretendem que a morte entrou no mundo em conseqüência do pecado de Adão (pelo menos é este o ensino de Santo Irineu no no Século I, confirmado por Santo Agostinho). Pergunta-se: Como estaria hoje a população da Terra se a humanidade só fizesse nascer? E por que a punição teve de se estender aos animais que nada tiveram a ver com o pecado de Adão?

7 — Como puderam encerrar “casais de todos os animais da terra” (Gen. 6:19) numa arca de 300 côvados (198m) de comprimento por 50 de largura e 30 de altura (Gen 6:15)? Como conseguiram apanhar todos esses animais e reunir tantos e tão variados alimentos e de que modo se houveram as 8 pessoas a bordo (Gen. 7:13) para alimentar todos eles (e limpar todos os dejetos) durante mais de um ano? Note-se que o dilúvio começou a 17 do 2º mês (Gen. 7:11) e os que nela haviam entrado sete dias antes (Gen. 7:10) só saíram da Arca a 27 do 2º mês (do ano seguinte, é óbvio) (Gen. 8:14).

8 — Se Deus é justo e se foi Ele próprio que endureceu o coração do Faraó para que não permitisse a saída dos israelitas (Ex. 11:10), por que teria de matar todos os primogênitos do Egito, inclusive muitos milhares de inocentes crianças e até os primogênitos de todos os animais? (Ex. 12:29).

9 — Como teriam os magos egípcios transformado a água do Nilo em sangue (Ex. 7:22), se Moisés já o fizera antes? (Ex. 7:20) E como puderam perseguir os israelitas com o seu exército desfalcado de todos os primogênitos (Ex. 12:29) e empregando a sua cavalaria (Ex. 14:23), se na 5ª praga haviam sido mortos todos os cavalos? (Ex, 9:6).

10 — Se o mar tragou todo o exército do Faraó, este inclusive (Ex. 14:28), não é de estranhar que com a decifração dos hieróglifos que permite hoje conhecer toda a história do antigo Egito, não se tenha encontrado uma só referência a tão espantosa calamidade?

11 — Como entender que os autores do Antigo Testamento, tão precisos ao citar pelos nomes dezenas de pequenos reis das cidades vencidas, como Adonizedeque (Jos. 10-1), Hoão, Pirã, Zafia, Debir (Jos. 10:3), Horão (Jos. 10:33), Jabim, Jobab (Jos. 11:1), Seom (Jos. 12:2), Igue (Jos. 12:4), Jeeb (Juízes 7:25), Salmuna e Zeba (Juizes 8:5), Agag (1. Samuel 15:8), Aquís (1. Samuel 21:10), etc., não tenham mencionado o nome do Faraó que reinava ao tempo da fuga dos israelitas, o qual é citado tantas vezes nos primeiros 14 capítulos do livro de êxodo?

12 — Como puderam o Sol e a Lua ficar parados no meio do céu por ordem de Josué? (Jos. 10:13) e por que necessitou ele desse milagre para vencer os amorreus, se estes já estavam destroçados pelas pedras que “caíram do céu”?

13 — Por que a lei judaica não menciona em lugar algum as penas e recompensas após a morte? E por que nem Moisés nem os outros profetas falaram na imortalidade da alma, se isso já era conhecido dos antigos  caldeus, dos persas, dos egípcios e dos gregos?

14 — Como entender que fossem eleitos e protegido por Deus assassinos como EUDE, que apunhalou à traição o rei EGLOM (Juízes 3:21), DAVI, que fez morrer URIAS para tomar-lhe a mulher (2. Sam. 11:15) e SALOMÃO, que tendo 700 mulheres e 300 concubinas (1 Reis 11:3), mandou matar seu irmão ADONIAS só por que este lhe pedira uma (1 Reis 2:21 e 25).

15 — Como se explica que os israelitas, que “eram como dois pequenos rebanhos de cabras”, (1. Reis 20:27), tenham podido ferir num só dia 100 mil sírios (1. Reis 20:29), e ainda por cima tenha o muro da cidade caído sobre os 27 mil restantes? (1. Reis 20:30).

16 — Como admitir que o Deus que afirmou: — “Os pais não morrerão pelos filhos e nem os filhos pelos pais, mas cada qual morrerá pelo seu pecado” (Deut. 24:16), se tenha enfurecido tanto contra o ex-rei SAUL, ao ponto de assolar o povo com uma fome de três anos (2. Sam. 21:1), só se aplacando quando DAVI mandou matar sete netos daquele seu antecessor? (2. Sam. 21:8/9).

A história de todos os povos está repleta de lendas, crendices, mitos, alegorias e superstições. Por que a dos judeus teria que ser diferente? Quando o historiador pertence a outra comunidade, ou se encontra afastado dos acontecimentos no tempo e no espaço, ainda se pode esperar alguma imparcialidade. Mas se quem narra a história é um dos próprios interessados, é natural que procure exagerar os feitos dos compatriotas, sejam contemporâneos ou antepassados, e subestimar os dos seus adversários. Isso ocorre até nos tempos atuais, em que os eventos ficam registrados na imprensa, em livros, nos filmes, nas fitas de “vídeo”, etc. Mesmo fatos contemporâneos, amplamente divulgados e documentados por todos os meios de registro disponíveis, se prestam a interpretações diferentes, ao sabor das conveniências de cada grupo. A paternidade do avião, inventado já no início deste século, não é atribuída pelos norte-americanos aos irmãos Wright, com evidente indiferença aos méritos do nosso patrício Santos Dumont? Imagine-se o que não ocorria nos tempos primevos, quando os acontecimentos eram transmitidos por tradição oral, e só muito depois vinham a ser registrados por escrito.

A saga dos israelitas está referta de fábulas e exageros, e não é atribuindo a paternidade do registro a Deus que se pode dar cunho de veracidade a uma série de fantasias. A história da criação do mundo há 6 mil anos, tal como descrita no Gênesis, a Ciência já provou que não passa de lenda, ou, no máximo de uma alegoria. A formação do homem do pó da terra e a da mulher de uma costela de Adão eram concepções aceitáveis, talvez, até a Idade Média, mas hoje a Antropologia e a Paleontologia já demonstraram que a espécie humana tem pelo menos 40 mil anos de existência na Terra. Certo que essa lenda, — aliás oriunda da vetusta India — tem o seu valor simbólico, por explicar de forma velada o surgimento da raça adâmica em nosso mundo, como tem o seu valor a fábula da Arca de Noé, refletindo a reminiscência de inundações que assolaram várias regiões do globo em tempos primitivos, e transmitidas de geração a geração através de tradição oral.

A história da mula de Balaão que Falou (Num. 22: 23/ 25), é evidente que nos tempos atuais só pode ser aceita como lenda, a menos tenha ocorrido um fenômeno de “voz direta” do anjo que fizera empacar o animal. Assim também a passagem dos israelitas a seco pelo Mar Vermelho (Ex. 14:22), bem como a “parada” do Sol e da Lua no meio do céu por ordem de Josué (Jos. 10:13), o retrocesso de 10 graus na sombra do Sol por ordem de Isaías (2. Reis 20:11), a transformação da mulher de Ló em estátua de sal (Gen. 19:26) e a matança dos amorreus por pedras atiradas do céu por Deus (Jos. 10:11). De igual modo, as proezas do fabuloso Sansão dão o que pensar: como poderia ele, por mais forte que fosse, fender um leão de alto a baixo (Juízes 14:6) e como teria conseguido apanhar 300 raposas vivas e atar-lhes as caudas para incendiar a seara dos filisteus? (Juízes 15:4). E como poderia Eliseu depois de morto ter ressuscitado um homem? (2. Reis 13:21).

Não haverá evidente exagero em afirmar que os israelitas num só dia mataram 100 mil sírios? (1. Reis 20:29). A nosso ver, cem mil homens não morrem num só dia, nem com as mais devastadoras armas modernas. Com as bombas nucleares existe a possibilidade, mas até o momento não nos consta tenha de fato ocorrido. As lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki em 6 e 9-8-45 não chegaram a exterminar tanta gente, pelo menos não no primeiro dia. E note-se que não foram arremessadas contra exércitos aguerridos, mas contra populações civis. Se com os recursos altamente sofisticados da tecnologia atual a empresa não é fácil, imagine-se o que não seja nos tempos em que as armas mais letais eram espadas e lanças, e os veículos mais velozes eram carros puxados por cavalos e camelos.

Pela mesma razão não nos parece muito verossímil que o “Anjo do Senhor” tenha numa só noite exterminado 185 mil assírios (2. Reis 19:35), nem que 120 mil “midianitas” tenham sido mortos pelos 300 de Gedeão (Juizes 8:10), nem que os judeus tenham eliminado em um só dia 120 mil da tribo de Judá, “todos homens poderosos, por terem abandonado o Senhor Deus de seus pais” (2. Crôn. 28:6), e ainda levado cativas 200 mil mulheres e crianças do seu povo irmão” (2ª Crôn. 28:8).

E o que dizer dos “500 mil homens escolhidos que caíram feridos de Israel”? (2. Crôn. 13:17). E o que dizer do 1 milhão (1 milhão!) de etíopes, que “foram destroçados sem restar nem um sequer”? (2. Crôn. 14:9 e 13). Será que a Etiópia já dispunha naquele tempo de 1 milhão de habitantes? ( )

O ESPIRITISMO E AS IGREJAS REFORMADAS

 Sentenciava, com muita argúcia, o filósofo inglês Francis Bacon: "Há livros que devem ser saboreados, outros devorados, e poucos mastigados e digeridos."
O livro que vais ler, estimado leitor, classifica-se entre esses últimos, que são raros. É uma iguaria saborosa e nutriente que, embora bem digerível, deve ser deglutida após demorada mastigação, para maior regalo do paladar.
O mestre-cuca muniu-se duma farta provisão de ingredientes da melhor qualidade e procedência, misturou-os quantum satis, temperou-os com os condimentos adequados, fê-los passar pela cocção em fogo brando e pronto:
surgiu o prato opíparo e aromático, bem no ponto de ser servido a glutões e temperantes.
Deixando de lado a metáfora, podemos assegurar que O ESPIRITISMO E AS IGREJAS REFORMADAS é uma
obra que, no gênero, nada deixa a desejar. Após sua leitura, a gente tem
vontade de declamar o célebre verso de Camões: “Cessa tudo quanto a antiga musa
canta”.
Efetivamente, “Outro valor mais alto se alevanta”, ante as obras
conhecidas que cuidam da mesma problemática. Entre elas, salienta-se UMA
ANALISE CRITICA DA BIBLIA, de C. G. S. Shalders - estudo
minucioso dos livros escrituristicos, através de seus principais capítulos e versiculos.
Da lavra do mesmo autor, termos A RELIGIÃO
E O BOM SENSO (Shalders foi praticante do Protestantismo
durante mais de meio século). Outro protestante ex-professo, Romeu do Amaral
Camargo, com 22 anos de
experiência religiosa, que exerceu o diaconato na 1." Igreja
Presbiteriana Independente da Capital de São Paulo, publicou DE CA E DE LA (Vozes da Terra e do Alem). De eminentes escritores estrangeiros, que também perlustraram os caminhos
do Protestantismo, possuímos em nossa mini-biblioteca: RELIGIÃO EM LITIGIO
ENTRE ESTE MUNDO E O OUTRO
(Rev. Robert Dale Owen); ENSINOS ESPIRITUALISTA (Rev. William . Stainton Moses); O ESPIRITISMO E A IGREJA. (Rev. Haraldur
Nielson). E Cairbar Schutel, abalizado escritor espírita, publicou ESPIRITISMO E
PROTESTANTISMO. Com o mesmo título,
Benedito A. da Fonseca, cuja filiação religiosa ignoramos, deu a lume uma "obra de muito
valor", na opinião de Schutel.
O ESPIRITISMO E AS IGREJAS REFORMADAS é, na verdade, uma obra extraordinária,
porque bem estruturada e produzida com pleno conhecimento de causa. Seu autor,
Jayme Andrade, foi criado no seio da Igreja Evangélica, estudou em escolas
protestantes, freqüentou assiduamente, os cultos da religião que professava.
Pesquisou, comparou, analisou e dá-nos conta das judiciosas conclusões a que
pôde chegar.
Todo o livro gravita em torno do leitmotiv das
dissidências entre católicos e protestantes: a Bíblia. Razão por que o Autor
trata dessa circunstância com especial interesse, no mais extenso dos
capítulos: “A infalibilidade da Bíblia”.
A esse respeito, ocorre-nos trazer à baila
alguns subsídios para o devido enfoque da questão.
No seu livro BIBLE BLUNDERS (Erros Palpáveis da Bíblia), afirma o Rev. G. Maurice
Elliot: A Bíblia erroneamente compreendida é o pior inimigo da humanidade (...)
Nenhum livro é infalivel. Nenhuma
Igreja é infalível. Nós temos sido erroneamente ensinados. Deus é Verdade. Amar
a Deus é amar a Verdade, amar a busca da Verdade é amar a luta pela Verdade.
Não há outro meio."
Carlos Imbassahy, dilucidando dúvidas de um dos seus leitores,
escreveu: "Assentar qualquer prova no Velho Testamento ou assentar no
vazio é a mesma coisa. Até hoje não conseguimos saber onde se acham as fontes
exatas em que se foi ele inspirar. Ainda se o conteúdo fosse de granito!... Mas...
Há ali umas coisas incríveis, outras fantásticas, outras escabrosas, outras
terríveis... Há umas matanças, umas iniqüidades, uma parcialidade que não se
explica. E Deus metido no meio daquilo. Os textos estão sujeitos ainda, a interpretações variadas. Cada qual opina
de um jeito. O mais
interessante é que um dos interpretadores dá o seu modo de ver Domo absoluto,
irrefragavelmente certo, sem perceber, na maioria das vezes, que aquilo que ele
supõe a expressão da verdade, está em flagrante oposição ao que a Bíblia diz.
Não ve que é ele quem diz, e não a Bíblia; não cuida que o versículo passa a
ser dele, e não bíblico. E não percebe que nos falham os elementos para  reconhecermos como “porta-voz," do
Divino Espírito Santo; e se já a Bíblia
nos é duvidosa, por não sabermos os esteios em que se estabiliza, muito mais
duvidosa nos é a palavra dele, cuja
iluminação não sabemos de onde veio. (Coluna "Na Hora da Consulta". in MUNDO
ESPÍRITA, de Curitiba - 28-9-46).
Por seu turno, assim se expressa o teólogo K. Tonning,
em LE PROTESTANTISME CONTEMPORAIN: "A Bíblia não pode ser o princípio
único do conhecimento religioso; impede-o sua própria natureza: nenhum dos seus
textos o prova; muitos se
contradizem."
Em UMA ANALISE CRITICA DA BIBLIA, pág, 213, C.C.S. Shalders observa:
"Desde o berço é incutida a idéia
de que a bíblia é a palavra de Deus, e a palavra de Deus não erra; é pecado se quer entreter dúvida a esse
respeito. Entretanto é essa aceitação errônea que tem trazido a confusão, é o que explica a multiplicidade de seitas entre os Protestantes, cada
seita interpretando a Bíblia segundo o seu ponto de vista e julgando-se a única
depositária da verdade."
Apesar de tudo isso, confessa Tomaz de Aquino: "Sou. homem de um
só livro (a Bíblia)."
Como o livro fala freqüentemente
em Protestantismo, vale recordar:
O termo "protestante" apareceu no século XVI, precisamente em
1529 quando, na dieta de Spira,
Alemanha, seis príncipes e os representantes de catorze cidades convencionaram:
"Nós protestamos, por meio das presentes (sic), diante de Deus, nosso
único Criador, Conservador, Redentor e Salvador, e que será um dia nosso juiz,
assim como diante de todos os homens e de todas as criaturas, que não consentimos nem aderimos de nenhuma
maneira, nem quanto a nós nem quanto aos nossos, ao decreto proposto em todas
as coisas que são contrárias a Deus, à sua santa Palavra, à nossa boa
consciência, à salvação de nossas almas e ao nosso último decreto de Spira."
A dieta de 1529, como
se vê, opunha-se a determinadas decisões assentadas na assembléia anterior,
reunida na mesma localidade alemã, em 1526. (Cf. HISTORIA DO PROTEST ANTISMO, de Jean Boisset, pág. 15)
Mas o Protestantismo,
como doutrina religiosa cismática ou divergente do Catolicismo, surgiu oficialmente em 31 de outubro de 1517, por
ocasião da propalada por ocasião da propalada afixação das 95 teses
contra as indulgências, de Martinho Lutero, na porta da igreja do castelo de
Wittenberg (Gottfried Fitzer,
em seu livro o que Lutero realmente disse, contesta essa versão. Afirma que se
trata de uma lenda histórica, inventada pelas igrejas protestantes. A aludidas
teses, segundo Fitzer, foram enviadas ao arcebispo Albrecht Von Hohenzollern,
de Madgeburgo. Uma respeitosa carta teria acompanhado o manuscrito).
Muito curiosas a tese nº
27, assim redigida: "É pura doutrina de homens a pregação que diz: tão
logo na caixa o dinheiro ressoa, a alma do purgatório para o céu já voa".
Uma blasfêmia, em boa conceituação teológica.
A definição da fé
luterana foi sendo feita paulatinamente, culminando na Confissão de Augsburgo.
Que é um dos primeiros textos fundamentais da reforma (1530). (Cf. - Lutero -
Biblioteca de História - Editora Três).
Martinho Lutero figura
na história como um dos seus vultos mais controvertidos e excêntricos. Era um
psicopata, no entender de Hartmann Grisar. - Uma alma atormentada - dizia
Lucien Febvre. Para Vicente Themudo Lessa, foi um paladino da liberdade de
consciência. Para Luiz Antônio do Rosário, "Uma personagem marcante, a
cujo poder de sedução e não escaparam se quer alguns de seus adversários".
Para Ricardo Feliu, uma das personagens mais enigmáticas e incompreensíveis da
história universal.
Preferimos descrever as
sensatas palavras de Hermínio C. Miranda: "Espíritos como Lutero renasce
em investida de uma autoridade e de um apoio que os tornam praticamente
intoleráveis, enquanto se mantiverem fiéis aos seus princípios e, nisto, Lutero
foi inflexível. Sua missão: devolver a sua pureza original os ensinamentos do
mestre de Nazaré, abrindo caminho para a liberdade religiosa, base de todas as
demais, porque, sendo o homem criatura de Deus, tem que, antes de tudo,
harmonizar-se com o pai." (As marcas do Cristo - Vol. II, pág. 205).
Concordamos ainda com
Hermínio, quando certifica: "João Huss é o percurso de Lutero, assim como
Lutero abriu caminho para Kardec. Sem Lutero no século XVI, certamente não
teríamos Kardec no século XIX, pronto para receber a mensagem que os espíritos
vieram confiar em as suas mãos seguras e competentes." (Ibd. Pág. 283).
Pena é que a doutrina
luterana, ao invés de pugnar pela sua unidade estrutural e pela depuração de
seus enganos ou desacertos, ramificou-se
desordenadamente num tempo e no espaço. Só nos EUA, proliferam nada
menos de 46 seitas protestantes diferenciadas entre si, ao que informa o Dr.
César Ruiz Izquierdo, em ecumenismo (Burgos, 1948).
O que vimos de dizer
apenas contém em essência um pouquinho do que, com proficiência e minúcias,
Jaime Andrade expõem em seu admirável livro. Tão somente ligeiras
considerações, não propriamente acerca, mas a margem de O Espiritismo E As
Igrejas Reformadas.
Deixamos de referir-nos
especificamente a temas importantes focalizados no livro, todos convergentes
para o tema central, tais como "A divindade de Jesus", "As penas
eternas", "A reencarnação" e "Metapsíquica e
parapsicologia", porque, para tal, teríamos de fazer o tour de force,
incompatível com o nosso entibiamento mental. Ademais, não queremos roubar o
leitor o delicioso sabor da novidade, do inesperado.
Afinal,
mais não é preciso dizer: - o livro é muito bom. E estamos conversados.
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domingo, 13 de junho de 2010

A INFALIBILIDADE DA BÍBLIA - I

A Bíblia para os protestantes é a única regra de fé e prática, ela é a “palavra de Deus”, cada um dos seus textos foi divinamente inspirado e dela nada pode ser retirado, nem a ela acrescido. Vale transcrever aqui o judicioso comentário do escritor RUBEM ALVES:

“Parte-se de um “a priori” dogmático: A Bíblia foi escrita por inspiração de Deus. Mas, mais do que isto. Não basta dizer “foi”, porque então entraríamos no campo das mediações históricas. Como garantir que o texto não foi corrompido? E com isto a autoridade se dissolve pela dúvida.

O texto foi preservado puro em todos os séculos, de sorte que o texto que temos hoje diante de nós contém, na sua totalidade, as próprias palavras de Deus. A Bíblia é, assim, a voz de Deus”. (“Protestantismo e Repressão”, ed. Ática, pg. 98).

Nós não temos da Bíblia a mesma noção que os nossos irmãos evangélicos. Respeitamo-la como um repositório de ensinamentos divinamente inspirados e, sobretudo, como acervo documentário da história do povo hebreu. Duas mensagens importantes nela se inserem, visando a impulsionar os homens pela senda do progresso: Uma no Antigo Testamento, consistente no código de moral ministrado por Moisés com as “Tábuas da Lei”. Outra no Novo Testamento, dada por Jesus, com a noção da imortalidade da alma e das recompensas e punições após a morte, segundo as obras, boas ou más, do ser humano em sua existência terrena.

Essas mensagens são consideradas “revelações” e o são, com efeito, no sentido de constituírem ensinamentos novos para o povo a que eram dirigidas; mas, se compulsarmos a História, veremos que não foram ensinos dados em primeira mão, pois outros povos mais antigos, já os haviam recebido. Assim é que os “Dez Mandamentos” foram adaptados dos Livros Védicos, muito anteriores à Bíblia, nos quais se achavam classificados como “pecados do corpo” (bater, matar, roubar, violar mulheres), “pecados da palavra” (ser falso, mentir, injuriar) e “pecados da vontade” (desejar o mal, cobiçar o bem alheio, não ter dó dos outros). (THEODORE ROBINSON, em “Introduction de I”Histoire des Religions”, cit. por MÁRIO CAVALCANTI DE MELO em “Da Bíblia aos Nossos Dias”, ed. 1972, pg. 207). A noção da imortalidade da alma já existia em diversas civilizações anteriores à israelita.

Moisés certamente foi um homem de grande cultura para a sua época, versado nos segredos da ciência egípcia, por ter sido criado e educado pela família real (Atos 7:22). Isto não invalida o ensino dado ao povo hebreu, nem lhe tira o caráter de “revelação”, apenas sugere moderação aos que pretendem ser a Bíblia a única revelação ministrada por Deus aos homens.

Da mesma forma, a lei de amor pregada por Jesus já havia sido objeto de pregação pelo filósofo hindu Kristna e era crença comun entre os povos da antiguidade oriental. Mas as revelações daquele egrégio filósofo foram abafadas pelo Brahmanismo, exatamente como as de Jesus vieram a ser abafadas pelos que se proclamam seus seguidores.

O ponto que desejamos salientar é que, se a Bíblia trouxe revelações divinas ao homem, outras revelações têm sido ministradas por Deus a outros povos. Vários livros religiosos da antiguidade, cada um a seu tempo e atendendo às circunstâncias da sua época, contribuíram para a elevação moral dos povos. A própria Ciência pode ser considerada um instrumento de revelações, sendo os grandes inventores missionários inspirados no sentido de incentivarem o progresso intelectual. E o que são os grandes artistas, senão mensageiros incumbidos do aprimoramento da sensibilidade do espírito humano?

Deus é o Criador de todos os homens, e sendo um Pai Amoroso qual o retrata Jesus, não iria privilegiar um pequeno grupo de bárbaro, relegado oa abandono todo o resto da humanidade por Ele criada. Os hebreus se consideraram “o povo eleito de Deus”, e os irmaos evangelicos acreditam piamente nessa história, por haver inúmeras referêcias a isso na Escritura... E como não haveria, se os escritores da Bíblia foram todos judeus?

É interessante observar que todo o Velho Testamento retrata uma evidente preparação para o advento do Messias. Mas quando enfim desce à Terra  aquele que, segundo os nossos irmãos, é a encarnação do próprio Deus, os  israelitas o rejeitam e o crucificam... E dois mil anos depois, quando a figura do Cristo se projeta na História como o maior de todos os profetas enviados por Deus à humanidade, aquele que veio traçar novos rumos à grande civilização ocidental que se intitula “cristã”, nem assim o “povo eleito” reconhece ou se penitencia do mais clamoroso dos seus erros, continuando apegado à velha concepção farisaica, alheio à pessoa do Nazareno e não mais esperando um Messias personalizado, mas atribuindo à própria comunidade a tarefa messiânica, de conduzir a humanidade aos pés de Jeová, na plenitude dos tempos.

Sendo um povo de grande inteligência e sagacidade, é natural que os israelitas dos tempos hodiernos usassem seu inegável prestígio bíblico junto às opulentas comunidades cristãs, principalmente as protestantes, para desencadear o movimento sionista, que teve por desfecho a “doação” que lhes fizeram as Nações Unidas, em 1948, de vastos territórios mantidos sob protetorado, mas cujos possuidores, legítimos ou não, eram os povos palestinos.

Parece-nos questionável a pretensão a territórios cuja posse fora perdida há mais de três mil anos, além de terem sido adquiridos por direito de conquista, mediante o arrasamento das cidades e a eliminação de praticamente todos os habitantes. Mas o que a Bíblia deixa bem claro é que todas aquelas impiedosas conquistas foram efetuadas por ordem direta e sob imediata proteção do próprio “Deus de Israel”. Leiam-se as seguintes eloquentes passágens:

Lev. 20:26 - “E ser-me-eis santos, porque eu, o Senhor, sou santo, e vos separei dos povos para serdes meus.”

Deut. 7: 2 - “Quando o teu Deus te tiver dado gentes mais poderosas do que tu totalmente as destruirás, não farás acordo com elas e nem terás piedade delas.”

7:6 - “Porque povo santo és ao Senhor teu Deus, que te escolheu para que fosses o seu povo próprio, de todos os povos que existem sobre a terra.”

Não se veja em nossas palavras nenhum laivo de anti-semitismo; o que apenas fazemos é expor fatos, para ilustrar duas importantes conclusões: A primeira é que, para insuflar um povo bárbaro, de índole indomável, os seus próceres tinham de incutir-lhe na mente precisamente isto: — que eram “o povo santo de Deus”, portanto bem superiores aos povos idólatras cujas terras deviam conquistar, e que era o próprio Jeová quem ordenava o arrasamento das cidades e o extermínio total dos seus habitantes.

A segunda conclusão é que o grande apóstolo São Paulo, que recebeu de Jesus a missão de levar a mensagem do Evangelho aos gentios, trouxe, como resquício da sua condição de judeu e fariseu, o mesmo sentimento de privilégio, através da insólita doutrina da “predestinação”: os “salvos” foram eleitos desde a eternidade para a salvação (Efésios 1:4), todos os demais são “ímpios”, estão condenados à perdição eterna.

Os astrônomos calculam que, só em nossa galáxia, existem mais de um bilhão de mundos, inúmeros deles provavelmente em condições semelhantes às do nosso e consequientemente com boas probabilidades de serem habitados. O nosso Sistema Solar inteiro não passa de um ponto insignificante perdido na vastidão do imenso cosmo. E o habitante deste minúsculo planeta, moralmente tão atrasado que quase tudo o que faz é para prejudicar o próximo, impa de arrogância para dizer-se o centro do Universo e de vaidade para se proclamar o expoente máximo da Criação! Ora, com o extraordinário avanço da Ciência nestes últimos tempos, já é tempo de pormos um paradeiro em tão pretensiosas divagações pois é evidente que o Supremo Criador  não teria porque escolher tão desprezível “grão de poeira” para nele instalar uma humanidade eleita; e nem dela selecionar uma horda de bárbaros como seu “povo santo” ... Nem tampouco predestinar uns tantos privilegiados para a salvação eterna, condenando todos os demais a sofrimentos intermináveis...

Jesus pregou a humildade (Marcos 9:35) e ensinou que todos os homens são irmãos (Mat. 5:45 e 23:8). Ora, a convicção cristalizada no inconsciente coletivo em milênios de auto-doutrinação, de ser uma nação privilegiada pelo Todo Poderoso como “povo eleito” não pode gerar sentimentos de humildade, só de arrogância e orgulho, justificando todos os excessos. De igual modo a idéia de uma predestinação oriunda da concepção judaica-cristã perfilhada pelo apóstolo S. Paulo, não pode induzir na mente de ninguém o ideal de solidariedade humana que o nosso Mestre pregou, e sim sentimentos de egoísmo e orgulho, talvez até um certo desprezo pelos considerados “ímpios”. E o que admira é que — estando já escolhidos de antemão aqueles que deverão ser salvos — ainda se dêem ao trabalho de pregar o Evangelho aos incrédulos.

Mas falávamos da Bíblia e da sua infalibilidade. Voltemos a este assunto. Quem examinar com isenção o texto bíblico, observará que aquele Jeová do Antigo Testamento nada tem de comum com o Deus apresentado por Jesus no Novo. E não estamos incorrendo em nenhuma impiedade, sabemos que o nosso Pai Celestial é o mesmo de todos os tempos — sempre misericordioso para com todos os homens. Sabemos que por inspiração Sua foram outorgados os Dez Mandamentos, e que de vez em quando ministrava mensagens de alto conteúdo moral, como vemos em Lev. 19:1,15,18 e 34; Deut. 6:8, 8:6, 15:11, 16:19, etc. Mas essas e várias outras passagens eram como fugazes lampejos que a Divina Misericórdia lançava à consciência do povo como sementes de verdades que deveriam germinar em tempo próprio.

Tudo faz crer que o protetor imediato da nação judaica era uma Entidade mais ou menos identificada com a índole guerreira de raça. Cada homem, cada povo, tem o Guia Espiritual que merece, é dizer, compatível com o seu grau de evolução moral. Podia ser, talvez, um dos antepassados, com autoridade para impor seu domínio sobre os homens. Tais entidades por atrasadas que sejam, nâo ficam ao desamparo da Espiritualidade Superior, mas é claro que esta não pode impor ensinamentos que os assistidos não estejam ainda em condições de assimilar. A evolução tem que vir naturalmente, sempre respeitando o livre-arbítrio de cada ser.

O mesmo ocorre ainda hoje, com os “pretos-velhos” e “orixás” que orientam os cultos africanos. Quando se dedicam ao bem, trabalhando em favor dos que sofrem, recebem assistência e orientação de Espíritos elevados. Se preferem a prática do mal, tornam-se vítimas de entidades malévolas e ficam entregues à própria sorte até que, caindo em si, percebam a voz da consciência e, arrependidos, se voltem para Deus.

O exame do Velho Testamento nos leva a duas alternativas: Ou era o próprio legislador quem, com o propósito de infundir respeito, atribuía à Divindade todos aqueles rompantes de ferocidade de que o Antigo Testamento está repleto, ou Deus se fazia representar ante o povo por uma deidade tribal, talvez até mais de uma, como se infere de Gên. 3:22: “Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal.” E a prova de se tratar de Espírito ainda um tanto materializado é que habitava no tabernáculo (2.8 Sam. 7:6), ou “de tenda em tenda” (1.8 Crôn. 17:5) e “se comprazia com o cheiro dos animais imolados em holocausto” (Números 29:36). Para os gnósticos do II Século, segundo o teólogo WALKER,

“O Deus do Antigo Testamento, criador do mundo visível, não pode ser o Deus Supremo revelado por Cristo, mas sim um demiurgo inferior.” (“História da Igreja Cristã”, 2ª edição, pg. 80).

Do que não resta dúvida é que o Jeová do Pentateuco foi forjado pelos homens à imagem e semelhança destes, com todos os seus defeitos e idiossincrasias. Senão, vejamos: concluida a criação, foi examinar se estava tudo perfeito (Gen. 1:31), como se o supremo criador podesse fazer alguma coisa imperfeita. No entanto, logo se arrependeu, quando viu que a maldade se multiplicara na Terra (Gên. 6:6), como se a presciência e a onisciência não fossem qualidades inerentes a Deus. Aliás, em matéria de arrependimento, Ele nada ficava a dever a qualquer mortal: Arrependeu-se da Criação (Gên. 6:6), bem como do mal que prometera fazer ao povo (Exodo 32:14), arrependeu-se de haver feito rei a Saul (1. Sam. 15: 11 e 35), arrependeu-se por haver dizimado com peste 70 mil do seu povo (2ª Sam. 24:16). Também se arrependeu em Amós 7:3, bem como do mal que prometera fazer a Ninive (Jonas 3:10). Na verdade, apesar de “não ser homem para que minta, nem filho do homem para que se arrependa” (Num. 23:19 e 1.8 Sam. 15:29), Jeova se arrependeu tantas vezes que chegou a se  declarar “cansado de se arrepender” como se lê em Jer. 15:6. Ora sendo Deus a infinita perféição,  é claro que não poderia jamais se arrepender de nada que houvesse feito. Então, como é que querem que tudo quanto se encontra na bíblia tenha sido escrito diretamente por Deus?

Mas ainda há mais. O Deus que amamos e adoramos não pode estar sujeito às paixões humanas. Não se concebe um Deus de infinita perfeição tomado de rancor, pronto a descarregar sobre suas criaturas a sua tremenda ira. E no entanto, embora Ele se diga “misericordioso e piedoso, tardio em se irar e grande em beneficência e verdade” (Ex. 34:6), contam-se para mais de 60 acessos de cólera entre os livros Exodo e 2ª Reis. O Jeová do Velho Testamento, que deu ao seu povo eleito o mandamento “Não matarás”, mandava exterminar os inimigos (e até os amigos...) com incrível ferocidade. Assim, a despeito de que “Deus é a verdade e nele não há injustiça, justo e reto é” (Deut. 32:4), apesar de ser um Deus que “faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro” (Deuter. 10:18), vejamos como se exercitava na prática esse amor:

“Quando chegares a uma cidade a combatê-la, apregoar-lhe-ás a paz; se não fizer paz, a todo varão que nela houver passarás ao fio da espada, salvo as mulheres, as crianças e os animais.” (Deut. 20: 10, 13 e 14). Mas isso valia para as cidades distantes. Para as próximas, “nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida.” (Deut. 20:16).

e com relação ao seu próprio povo:

“Cada um tome a sua espada e mate cada um a seu irmão, cada um a seu amigo, cada um a seu vizinho.” (Ex. 32:27) “E mataram uns 3 mil dos israelitas que haviam adorado o bezerro de ouro.” Mas Moisés não matou o seu irmão Arão, que fora o fabricante do ídolo, (Ex. 32:28 e 35).

“Se teu irmão, teu filho, tua mulher ou teu amigo te convidar para servir outros deuses, certamente o matarás.” (Deut. 13:6/9).

“Se o povo de uma cidade incitar os moradores a servir outros deuses, destruirás ao fio da espada tudo quanto nela houver, até os animais.” (Deut.13:12/15).

Jeová disse ao povo: “Perfeito serás como o Senhor teu Deus” (Deuter. 18:13). Eis como o povo eleito procurava imitar essa “perfeição”: Moisés, que “era o mais manso de todos os homens que havia sobre a terra” (Num. 12:3), desce do Sinal com as “Tábuas da Lei”, onde constava o mandamento “não matarás” e logo, para passar da teoria à prática, manda matar 3 mil dos seus compatriotas e ainda por cima pede a bênção de Deus para os assassinos (Ex. 32:28/9). Josué conquistou todas as cidades da prometida “Canaã” “destruindo totalmente a toda alma que nelas havia”, (Jos. 10:35), “destruindo tudo o que tinha fôlego, como ordenara o Senhor Deus” (Jos. 10:40), porque “O Senhor pelejava por Israel” (Jos. 10:42), o que afinal não é de admirar, uma vez que “Jeová é homem de guerra” (Ex. 15:3). Das muitas cidades conquistadas, “nada restou que tivesse fôlego” (Jos. 11:14) “porque do Senhor vinha que os seus corações se endurecessem para saírem ao encontro de Israel na guerra, para destruí-los totalmente, para se não ter piedade deles, mas para os destruir a todos, como o Senhor tinha ordenado a Moisés” (Jos. 11:20). “Como ordenara Jeová a Moisés, assim Moisés ordenou a Josué e assim Josué o fez” (Jos. 11:15). “Josué os destruiu totalmente, tomou toda a terra e a deu em herança aos filhos de Israel.” (Jos. 11:21 e 23). E de estranhar que os israelitas estejam agora tentando recuperar essa “herança”?

Jefté, juiz em Israel, oferece ao Senhor em holocausto a sua própria filha (Juízes 11:31) e em seguida mata 42 mil efraimitas (também judeus) (Juízes 12:6). Os israelitas matam 25 mil da tribo de Benjamim (Juízes 20:35), passando ao fio da espada até os animais (Juízes 20:48) e depois dizimam a tribo “Gilead”, poupando apenas 400 virgens para os que haviam sobrado dos benjamitas (Juízes 21:12 e 14). Samuel era vidente de Deus (1.8 Sam. 9:19), mas mandou que o rei destruísse totalmente os amalequitas, “matando desde o homem até a mulher, desde os meninos até os de mama, desde os bois até as ovelhas e desde os camelos até os jumentos” (1 Sam. 15:3). Mas Saul poupou os animais e por isso foi castigado (1 Sam. 15:26), enquanto Samuel “despedaçou o rei amalequita diante do Senhor” (1 Sam. 15:33). Os amalequitas, pagãos, eram mais humanos, porquanto tomaram a cidade de Davi “e a ninguém mataram, só levaram cativos” (1 Sam. .30:2), mas Davi “os perseguiu e matou a todos os amalequitas, porque essa fora a ordem do Senhor” (1 Sam. 15:3), “só tendo escapado 400 mancebos que fugiram” (1 Sam. 30:17).

A INFALIBILIDADE DA BÍBLIA - II

 Mas há outras tropelias a relatar: Porque o irmão de Moisés, Arão, fabricara um bezerro de ouro para ser adorado pelos judeus, Jeová pede permissão a Moisés para destruir o povo (Ex. 32:10), porém este o repreende (Ex. 32:12) e Ele se arrepende (Ex. 32:14). Deus manda Davi recensear o povo (2.Sam. 24:1) e como este obedece e logo em seguida se mostra arrependido (por quê?), Jeová manda uma peste que dizima 70 mil jsraelitas (2.Sam. 24:15), mas depois se arrepende e o próprio Davi lhe verbera a injustiça: “Se fui eu que pequei, por que castigas estes inocentes?” (2.Sam. 24:17).

Esse mesmo Jeová deu ainda instruções inusitadas como as contidas em Deut. 23:13 e 25:11 e 12 e mandou que o profeta Ezequiel comesse pão cozido sobre fezes humanas (Ezeq. 4:12). Voltamos a perguntar: Foi mesmo Deus quem praticou todas essas sandices? Terá sido Ele mesmo quem inspirou tudo quanto se acha escrito na Bíblia?

Não nos alongaremos mais nesta análise do Antigo Testamento, porque o que aí se encontra permite formar uma idéia sobre o problema da “inerrância” da Bíblia, ou seja, do princípio dogmático de que tudo quanto nela se contém foi escrito sob a direta inspiração do próprio Deus, e, portanto, tem que estar tudo certo, não pode haver nada errado. O leitor que desejar fazer um estudo mais aprofundado sobre as incongruências e incorreções contidas nesse livro, poderá encontrar valiosos subsídios na importante obra do escritor MÁRIO CAVALCANTI DE MELLO, intitulada “Da Bíblia aos Nossos Dias”, ed. FEP, Curitiba, onde ele disseca magistralmente o Velho Testamento. Eis algumas das interessantes indagações do referido autor (Pgs. 363/371), aliás em alguns casos transcrevendo perguntas formuladas por DOMÊNCO ZAPATA, professor de Teologia na Universidade de Salamanca, no século XVII:

1 — Como pôde Deus criar a luz antes do Sol? — (Gên. 1:3 e 14). Como separou Ele a luz das trevas (Gên. 1:4), se estas nada mais são do que a privação da luz? Como fez o dia antes que o Sol fosse criado?

2 — Como afirmar que do Éden saía um rio que se dividia em outros quatro, um dos quais, o CIOM, que corria no país de Cuse (Etiópia) (Gênesis 2:13) só podia ser o Nilo, cuja nascente distava mais de mil léguas da nascente do Eufrates?

3 — Por que a proibição de comer do fruto da “árvore da ciência do bem o do mal” (Gên. 2:17), se é fato que, dando a razão ao homem, Deus só poderia encorajá-lo a instruir-se? Acaso preferiria Ele ser servido por um tolo?

4 — Por que se atribuiu à serpente o papel de Satã (Apoc. 12:9), se a Bíblia apenas diz que “a serpente era o mais astuto dos animais” (Gen. 3:1)? Que língua falava essa serpente, e como andava ela antes da maldição de que passaria a arrastar-se sobre o ventre e comer pó? (Gen. 3:14). E como explicar a desobediência da serpente, se nunca se ouviu falar de cobra que comesse pó? E como explicar que tantas mulheres possam hoje dar à luz sem dor e tantos homens comam o seu pão sem precisarem de suar o rosto? (Gen. 3:16/19).

5 — Como pôde ser punido com tanto rigor um ente primitivo como Adão, que não sabia discernir entre o bem e o mal? (e a prova disso se encontra no verso 22: “Eis que, o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal”. Caim cometeu um fratricídio e não mereceu uma pena tão severa; a despeito da maldição: “Fugitivo e vagabundo serás na terra” (Gen. 4:12), foi para Node, onde constituiu família e até construiu uma cidade (Gen. 4:17) e “seus descendentes foram mestres em várias artes:” (Gênesis 4:20-22).

6 — Os teólogos pretendem que a morte entrou no mundo em conseqüência do pecado de Adão (pelo menos é este o ensino de Santo Irineu no no Século I, confirmado por Santo Agostinho). Pergunta-se: Como estaria hoje a população da Terra se a humanidade só fizesse nascer? E por que a punição teve de se estender aos animais que nada tiveram a ver com o pecado de Adão?

7 — Como puderam encerrar “casais de todos os animais da terra” (Gen. 6:19) numa arca de 300 côvados (198m) de comprimento por 50 de largura e 30 de altura (Gen 6:15)? Como conseguiram apanhar todos esses animais e reunir tantos e tão variados alimentos e de que modo se houveram as 8 pessoas a bordo (Gen. 7:13) para alimentar todos eles (e limpar todos os dejetos) durante mais de um ano? Note-se que o dilúvio começou a 17 do 2º mês (Gen. 7:11) e os que nela haviam entrado sete dias antes (Gen. 7:10) só saíram da Arca a 27 do 2º mês (do ano seguinte, é óbvio) (Gen. 8:14).

8 — Se Deus é justo e se foi Ele próprio que endureceu o coração do Faraó para que não permitisse a saída dos israelitas (Ex. 11:10), por que teria de matar todos os primogênitos do Egito, inclusive muitos milhares de inocentes crianças e até os primogênitos de todos os animais? (Ex. 12:29).

9 — Como teriam os magos egípcios transformado a água do Nilo em sangue (Ex. 7:22), se Moisés já o fizera antes? (Ex. 7:20) E como puderam perseguir os israelitas com o seu exército desfalcado de todos os primogênitos (Ex. 12:29) e empregando a sua cavalaria (Ex. 14:23), se na 5ª praga haviam sido mortos todos os cavalos? (Ex, 9:6).

10 — Se o mar tragou todo o exército do Faraó, este inclusive (Ex. 14:28), não é de estranhar que com a decifração dos hieróglifos que permite hoje conhecer toda a história do antigo Egito, não se tenha encontrado uma só referência a tão espantosa calamidade?

11 — Como entender que os autores do Antigo Testamento, tão precisos ao citar pelos nomes dezenas de pequenos reis das cidades vencidas, como Adonizedeque (Jos. 10-1), Hoão, Pirã, Zafia, Debir (Jos. 10:3), Horão (Jos. 10:33), Jabim, Jobab (Jos. 11:1), Seom (Jos. 12:2), Igue (Jos. 12:4), Jeeb (Juízes 7:25), Salmuna e Zeba (Juizes 8:5), Agag (1. Samuel 15:8), Aquís (1. Samuel 21:10), etc., não tenham mencionado o nome do Faraó que reinava ao tempo da fuga dos israelitas, o qual é citado tantas vezes nos primeiros 14 capítulos do livro de êxodo?

12 — Como puderam o Sol e a Lua ficar parados no meio do céu por ordem de Josué? (Jos. 10:13) e por que necessitou ele desse milagre para vencer os amorreus, se estes já estavam destroçados pelas pedras que “caíram do céu”?

13 — Por que a lei judaica não menciona em lugar algum as penas e recompensas após a morte? E por que nem Moisés nem os outros profetas falaram na imortalidade da alma, se isso já era conhecido dos antigos  caldeus, dos persas, dos egípcios e dos gregos?

14 — Como entender que fossem eleitos e protegido por Deus assassinos como EUDE, que apunhalou à traição o rei EGLOM (Juízes 3:21), DAVI, que fez morrer URIAS para tomar-lhe a mulher (2. Sam. 11:15) e SALOMÃO, que tendo 700 mulheres e 300 concubinas (1 Reis 11:3), mandou matar seu irmão ADONIAS só por que este lhe pedira uma (1 Reis 2:21 e 25).

15 — Como se explica que os israelitas, que “eram como dois pequenos rebanhos de cabras”, (1. Reis 20:27), tenham podido ferir num só dia 100 mil sírios (1. Reis 20:29), e ainda por cima tenha o muro da cidade caído sobre os 27 mil restantes? (1. Reis 20:30).

16 — Como admitir que o Deus que afirmou: — “Os pais não morrerão pelos filhos e nem os filhos pelos pais, mas cada qual morrerá pelo seu pecado” (Deut. 24:16), se tenha enfurecido tanto contra o ex-rei SAUL, ao ponto de assolar o povo com uma fome de três anos (2. Sam. 21:1), só se aplacando quando DAVI mandou matar sete netos daquele seu antecessor? (2. Sam. 21:8/9).

A história de todos os povos está repleta de lendas, crendices, mitos, alegorias e superstições. Por que a dos judeus teria que ser diferente? Quando o historiador pertence a outra comunidade, ou se encontra afastado dos acontecimentos no tempo e no espaço, ainda se pode esperar alguma imparcialidade. Mas se quem narra a história é um dos próprios interessados, é natural que procure exagerar os feitos dos compatriotas, sejam contemporâneos ou antepassados, e subestimar os dos seus adversários. Isso ocorre até nos tempos atuais, em que os eventos ficam registrados na imprensa, em livros, nos filmes, nas fitas de “vídeo”, etc. Mesmo fatos contemporâneos, amplamente divulgados e documentados por todos os meios de registro disponíveis, se prestam a interpretações diferentes, ao sabor das conveniências de cada grupo. A paternidade do avião, inventado já no início deste século, não é atribuída pelos norte-americanos aos irmãos Wright, com evidente indiferença aos méritos do nosso patrício Santos Dumont? Imagine-se o que não ocorria nos tempos primevos, quando os acontecimentos eram transmitidos por tradição oral, e só muito depois vinham a ser registrados por escrito.

A saga dos israelitas está referta de fábulas e exageros, e não é atribuindo a paternidade do registro a Deus que se pode dar cunho de veracidade a uma série de fantasias. A história da criação do mundo há 6 mil anos, tal como descrita no Gênesis, a Ciência já provou que não passa de lenda, ou, no máximo de uma alegoria. A formação do homem do pó da terra e a da mulher de uma costela de Adão eram concepções aceitáveis, talvez, até a Idade Média, mas hoje a Antropologia e a Paleontologia já demonstraram que a espécie humana tem pelo menos 40 mil anos de existência na Terra. Certo que essa lenda, — aliás oriunda da vetusta India — tem o seu valor simbólico, por explicar de forma velada o surgimento da raça adâmica em nosso mundo, como tem o seu valor a fábula da Arca de Noé, refletindo a reminiscência de inundações que assolaram várias regiões do globo em tempos primitivos, e transmitidas de geração a geração através de tradição oral.

A história da mula de Balaão que Falou (Num. 22: 23/ 25), é evidente que nos tempos atuais só pode ser aceita como lenda, a menos tenha ocorrido um fenômeno de “voz direta” do anjo que fizera empacar o animal. Assim também a passagem dos israelitas a seco pelo Mar Vermelho (Ex. 14:22), bem como a “parada” do Sol e da Lua no meio do céu por ordem de Josué (Jos. 10:13), o retrocesso de 10 graus na sombra do Sol por ordem de Isaías (2. Reis 20:11), a transformação da mulher de Ló em estátua de sal (Gen. 19:26) e a matança dos amorreus por pedras atiradas do céu por Deus (Jos. 10:11). De igual modo, as proezas do fabuloso Sansão dão o que pensar: como poderia ele, por mais forte que fosse, fender um leão de alto a baixo (Juízes 14:6) e como teria conseguido apanhar 300 raposas vivas e atar-lhes as caudas para incendiar a seara dos filisteus? (Juízes 15:4). E como poderia Eliseu depois de morto ter ressuscitado um homem? (2. Reis 13:21).

Não haverá evidente exagero em afirmar que os israelitas num só dia mataram 100 mil sírios? (1. Reis 20:29). A nosso ver, cem mil homens não morrem num só dia, nem com as mais devastadoras armas modernas. Com as bombas nucleares existe a possibilidade, mas até o momento não nos consta tenha de fato ocorrido. As lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki em 6 e 9-8-45 não chegaram a exterminar tanta gente, pelo menos não no primeiro dia. E note-se que não foram arremessadas contra exércitos aguerridos, mas contra populações civis. Se com os recursos altamente sofisticados da tecnologia atual a empresa não é fácil, imagine-se o que não seja nos tempos em que as armas mais letais eram espadas e lanças, e os veículos mais velozes eram carros puxados por cavalos e camelos.

Pela mesma razão não nos parece muito verossímil que o “Anjo do Senhor” tenha numa só noite exterminado 185 mil assírios (2. Reis 19:35), nem que 120 mil “midianitas” tenham sido mortos pelos 300 de Gedeão (Juizes 8:10), nem que os judeus tenham eliminado em um só dia 120 mil da tribo de Judá, “todos homens poderosos, por terem abandonado o Senhor Deus de seus pais” (2. Crôn. 28:6), e ainda levado cativas 200 mil mulheres e crianças do seu povo irmão” (2ª Crôn. 28:8).

E o que dizer dos “500 mil homens escolhidos que caíram feridos de Israel”? (2. Crôn. 13:17). E o que dizer do 1 milhão (1 milhão!) de etíopes, que “foram destroçados sem restar nem um sequer”? (2. Crôn. 14:9 e 13). Será que a Etiópia já dispunha naquele tempo de 1 milhão de habitantes? ( )

O ESPIRITISMO E AS IGREJAS REFORMADAS

 Sentenciava, com muita argúcia, o filósofo inglês Francis Bacon: "Há livros que devem ser saboreados, outros devorados, e poucos mastigados e digeridos."
O livro que vais ler, estimado leitor, classifica-se entre esses últimos, que são raros. É uma iguaria saborosa e nutriente que, embora bem digerível, deve ser deglutida após demorada mastigação, para maior regalo do paladar.
O mestre-cuca muniu-se duma farta provisão de ingredientes da melhor qualidade e procedência, misturou-os quantum satis, temperou-os com os condimentos adequados, fê-los passar pela cocção em fogo brando e pronto:
surgiu o prato opíparo e aromático, bem no ponto de ser servido a glutões e temperantes.
Deixando de lado a metáfora, podemos assegurar que O ESPIRITISMO E AS IGREJAS REFORMADAS é uma
obra que, no gênero, nada deixa a desejar. Após sua leitura, a gente tem
vontade de declamar o célebre verso de Camões: “Cessa tudo quanto a antiga musa
canta”.
Efetivamente, “Outro valor mais alto se alevanta”, ante as obras
conhecidas que cuidam da mesma problemática. Entre elas, salienta-se UMA
ANALISE CRITICA DA BIBLIA, de C. G. S. Shalders - estudo
minucioso dos livros escrituristicos, através de seus principais capítulos e versiculos.
Da lavra do mesmo autor, termos A RELIGIÃO
E O BOM SENSO (Shalders foi praticante do Protestantismo
durante mais de meio século). Outro protestante ex-professo, Romeu do Amaral
Camargo, com 22 anos de
experiência religiosa, que exerceu o diaconato na 1." Igreja
Presbiteriana Independente da Capital de São Paulo, publicou DE CA E DE LA (Vozes da Terra e do Alem). De eminentes escritores estrangeiros, que também perlustraram os caminhos
do Protestantismo, possuímos em nossa mini-biblioteca: RELIGIÃO EM LITIGIO
ENTRE ESTE MUNDO E O OUTRO
(Rev. Robert Dale Owen); ENSINOS ESPIRITUALISTA (Rev. William . Stainton Moses); O ESPIRITISMO E A IGREJA. (Rev. Haraldur
Nielson). E Cairbar Schutel, abalizado escritor espírita, publicou ESPIRITISMO E
PROTESTANTISMO. Com o mesmo título,
Benedito A. da Fonseca, cuja filiação religiosa ignoramos, deu a lume uma "obra de muito
valor", na opinião de Schutel.
O ESPIRITISMO E AS IGREJAS REFORMADAS é, na verdade, uma obra extraordinária,
porque bem estruturada e produzida com pleno conhecimento de causa. Seu autor,
Jayme Andrade, foi criado no seio da Igreja Evangélica, estudou em escolas
protestantes, freqüentou assiduamente, os cultos da religião que professava.
Pesquisou, comparou, analisou e dá-nos conta das judiciosas conclusões a que
pôde chegar.
Todo o livro gravita em torno do leitmotiv das
dissidências entre católicos e protestantes: a Bíblia. Razão por que o Autor
trata dessa circunstância com especial interesse, no mais extenso dos
capítulos: “A infalibilidade da Bíblia”.
A esse respeito, ocorre-nos trazer à baila
alguns subsídios para o devido enfoque da questão.
No seu livro BIBLE BLUNDERS (Erros Palpáveis da Bíblia), afirma o Rev. G. Maurice
Elliot: A Bíblia erroneamente compreendida é o pior inimigo da humanidade (...)
Nenhum livro é infalivel. Nenhuma
Igreja é infalível. Nós temos sido erroneamente ensinados. Deus é Verdade. Amar
a Deus é amar a Verdade, amar a busca da Verdade é amar a luta pela Verdade.
Não há outro meio."
Carlos Imbassahy, dilucidando dúvidas de um dos seus leitores,
escreveu: "Assentar qualquer prova no Velho Testamento ou assentar no
vazio é a mesma coisa. Até hoje não conseguimos saber onde se acham as fontes
exatas em que se foi ele inspirar. Ainda se o conteúdo fosse de granito!... Mas...
Há ali umas coisas incríveis, outras fantásticas, outras escabrosas, outras
terríveis... Há umas matanças, umas iniqüidades, uma parcialidade que não se
explica. E Deus metido no meio daquilo. Os textos estão sujeitos ainda, a interpretações variadas. Cada qual opina
de um jeito. O mais
interessante é que um dos interpretadores dá o seu modo de ver Domo absoluto,
irrefragavelmente certo, sem perceber, na maioria das vezes, que aquilo que ele
supõe a expressão da verdade, está em flagrante oposição ao que a Bíblia diz.
Não ve que é ele quem diz, e não a Bíblia; não cuida que o versículo passa a
ser dele, e não bíblico. E não percebe que nos falham os elementos para  reconhecermos como “porta-voz," do
Divino Espírito Santo; e se já a Bíblia
nos é duvidosa, por não sabermos os esteios em que se estabiliza, muito mais
duvidosa nos é a palavra dele, cuja
iluminação não sabemos de onde veio. (Coluna "Na Hora da Consulta". in MUNDO
ESPÍRITA, de Curitiba - 28-9-46).
Por seu turno, assim se expressa o teólogo K. Tonning,
em LE PROTESTANTISME CONTEMPORAIN: "A Bíblia não pode ser o princípio
único do conhecimento religioso; impede-o sua própria natureza: nenhum dos seus
textos o prova; muitos se
contradizem."
Em UMA ANALISE CRITICA DA BIBLIA, pág, 213, C.C.S. Shalders observa:
"Desde o berço é incutida a idéia
de que a bíblia é a palavra de Deus, e a palavra de Deus não erra; é pecado se quer entreter dúvida a esse
respeito. Entretanto é essa aceitação errônea que tem trazido a confusão, é o que explica a multiplicidade de seitas entre os Protestantes, cada
seita interpretando a Bíblia segundo o seu ponto de vista e julgando-se a única
depositária da verdade."
Apesar de tudo isso, confessa Tomaz de Aquino: "Sou. homem de um
só livro (a Bíblia)."
Como o livro fala freqüentemente
em Protestantismo, vale recordar:
O termo "protestante" apareceu no século XVI, precisamente em
1529 quando, na dieta de Spira,
Alemanha, seis príncipes e os representantes de catorze cidades convencionaram:
"Nós protestamos, por meio das presentes (sic), diante de Deus, nosso
único Criador, Conservador, Redentor e Salvador, e que será um dia nosso juiz,
assim como diante de todos os homens e de todas as criaturas, que não consentimos nem aderimos de nenhuma
maneira, nem quanto a nós nem quanto aos nossos, ao decreto proposto em todas
as coisas que são contrárias a Deus, à sua santa Palavra, à nossa boa
consciência, à salvação de nossas almas e ao nosso último decreto de Spira."
A dieta de 1529, como
se vê, opunha-se a determinadas decisões assentadas na assembléia anterior,
reunida na mesma localidade alemã, em 1526. (Cf. HISTORIA DO PROTEST ANTISMO, de Jean Boisset, pág. 15)
Mas o Protestantismo,
como doutrina religiosa cismática ou divergente do Catolicismo, surgiu oficialmente em 31 de outubro de 1517, por
ocasião da propalada por ocasião da propalada afixação das 95 teses
contra as indulgências, de Martinho Lutero, na porta da igreja do castelo de
Wittenberg (Gottfried Fitzer,
em seu livro o que Lutero realmente disse, contesta essa versão. Afirma que se
trata de uma lenda histórica, inventada pelas igrejas protestantes. A aludidas
teses, segundo Fitzer, foram enviadas ao arcebispo Albrecht Von Hohenzollern,
de Madgeburgo. Uma respeitosa carta teria acompanhado o manuscrito).
Muito curiosas a tese nº
27, assim redigida: "É pura doutrina de homens a pregação que diz: tão
logo na caixa o dinheiro ressoa, a alma do purgatório para o céu já voa".
Uma blasfêmia, em boa conceituação teológica.
A definição da fé
luterana foi sendo feita paulatinamente, culminando na Confissão de Augsburgo.
Que é um dos primeiros textos fundamentais da reforma (1530). (Cf. - Lutero -
Biblioteca de História - Editora Três).
Martinho Lutero figura
na história como um dos seus vultos mais controvertidos e excêntricos. Era um
psicopata, no entender de Hartmann Grisar. - Uma alma atormentada - dizia
Lucien Febvre. Para Vicente Themudo Lessa, foi um paladino da liberdade de
consciência. Para Luiz Antônio do Rosário, "Uma personagem marcante, a
cujo poder de sedução e não escaparam se quer alguns de seus adversários".
Para Ricardo Feliu, uma das personagens mais enigmáticas e incompreensíveis da
história universal.
Preferimos descrever as
sensatas palavras de Hermínio C. Miranda: "Espíritos como Lutero renasce
em investida de uma autoridade e de um apoio que os tornam praticamente
intoleráveis, enquanto se mantiverem fiéis aos seus princípios e, nisto, Lutero
foi inflexível. Sua missão: devolver a sua pureza original os ensinamentos do
mestre de Nazaré, abrindo caminho para a liberdade religiosa, base de todas as
demais, porque, sendo o homem criatura de Deus, tem que, antes de tudo,
harmonizar-se com o pai." (As marcas do Cristo - Vol. II, pág. 205).
Concordamos ainda com
Hermínio, quando certifica: "João Huss é o percurso de Lutero, assim como
Lutero abriu caminho para Kardec. Sem Lutero no século XVI, certamente não
teríamos Kardec no século XIX, pronto para receber a mensagem que os espíritos
vieram confiar em as suas mãos seguras e competentes." (Ibd. Pág. 283).
Pena é que a doutrina
luterana, ao invés de pugnar pela sua unidade estrutural e pela depuração de
seus enganos ou desacertos, ramificou-se
desordenadamente num tempo e no espaço. Só nos EUA, proliferam nada
menos de 46 seitas protestantes diferenciadas entre si, ao que informa o Dr.
César Ruiz Izquierdo, em ecumenismo (Burgos, 1948).
O que vimos de dizer
apenas contém em essência um pouquinho do que, com proficiência e minúcias,
Jaime Andrade expõem em seu admirável livro. Tão somente ligeiras
considerações, não propriamente acerca, mas a margem de O Espiritismo E As
Igrejas Reformadas.
Deixamos de referir-nos
especificamente a temas importantes focalizados no livro, todos convergentes
para o tema central, tais como "A divindade de Jesus", "As penas
eternas", "A reencarnação" e "Metapsíquica e
parapsicologia", porque, para tal, teríamos de fazer o tour de force,
incompatível com o nosso entibiamento mental. Ademais, não queremos roubar o
leitor o delicioso sabor da novidade, do inesperado.
Afinal,
mais não é preciso dizer: - o livro é muito bom. E estamos conversados.
 
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