As Penas Eternas



Pretendemos agora mostrar aos nossos irmãos protestantes porque não podemos aceitar a idéia das penas eternas, tal como é ensinada pelos ramos ortodoxos do Cristianismo. Pedimos que nos sigam em nosso arrazoado com muita compreensão e sensibilidade, uma vez que vamos ingressar numa área que não deve ser desbravada apenas com a razão, mas sobretudo com o coração, Reflete-se com a mente, mas sente-se por um complexo de impulsos íntimos da alma a que vulgarmente se chama coração. Então temos de manter abertas as portas da percepção, mas também, e principalmente, as da intuição.
Diz a Psicologia que a percepção é a projeção na consciência de um fato externo focalizado pela atenção; e que a intuição é uma forma de percepção que não passa pelo raciocínio. Como esta última definição nada define, tentaremos aproximar-nos do sentido real dizendo que a intuição é a captação de um fenômeno pelo inconsciente sem prévio trânsito pelas vias da reflexão. Na verdade, quantos e quão valiosos conhecimentos nos chegam pelas veredas intuitivas se nos pomos em sintonia com suas fontes eternas!...
Assim, pedimos aos queridos irmãos que nos acompanhem nesta jornada meditando sobre certas verdades constantes da Bíblia e que não foram escritas apenas como meros conceitos filosóficos, mas como ensinamentos reais, destinados a mudar o comportamento dos homens quando estes atingirem o estágio intelectual e moral necessário para compreendê-los e assimilá-los.
Deus é amor (1º João 4:16) e esse amor se reflete na atração universal que interliga todas as coisas, desde os elétrons em seu giro no interior do átomo, até as galáxias com seus imensos campos gravitacionais através do espaço infinito. E esta concepção não parece envolver nenhum laivo de “panteísmo” pois a lógica e a razão nos dizem que o pensamentoCriador atua sem cessar em todos os quadrantes do Universo e, afinal, como disse o apóstolo Paulo: “Nele vivemos e nos movemos e existimos” (Atos 17:28). Com esse mesmo pensamento assim se exprimiu o grande poeta Guerra Junqueiro no seu inspirado poema “O Melro”:

“Tudo o que existe é imaculado e é santo,
há em toda miséria o mesmo pranto
e em todo coração um grito igual.
Deus semeou d’almas o universo todo,
tudo o que vive e ri e canta e chora,
tudo foi feito com o mesmo lodo,
purificado com a mesma aurora.
Oh! mistério sagrado da existência,
só hoje eu te adivinho,
ao ver que a alma tem a mesma essência,
pela dor, pelo amor, pela inocência,
quer guarde um berço, quer proteja um ninho.
Só hoje eu sei que em toda criatura,
desde a mais bela até a mais impura,
ou numa pomba ou numa fera brava,
Deus habita, Deus sonha, Deus murmura.
Ah! Deus é bem maior do que eu julgava!...

Que lemos na Bíblia? “Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da Verdade”. (1º Tim. 2:3/4). Ora, o que Deus quer, fatalmente se realiza, porque a Sua Vontade é suprema, não está sujeita às contingências próprias da vontade humana. Eu posso “querer”, mas de quantas coisas depende a realização da minha vontade! Assim, o meu “querer” não passa de um “desejo” nem sempre realizável, porque sujeito às limitações inerentes à minha imperfeição. Mas a vontade de Deus é causa geradora porquanto Ele é infinito em todos os seus atributos, do contrário não seria perfeito. Portanto, é inadmissível a mais leve restrição à sua soberana vontade, daí o afirmarmos que tudo o que Ele quer necessariamente acontece.
Se Deus é amor, os Espíritos saídos de suas mãos onipotentes são fruto desse trabalho de amor, sendo criados ignorantes e naturalmente imperfeitos, a fim de que, através das experiências da vida, possam elevar-se gradualmente em conhecimento e virtude, para retornarem afinal ao seio do Criador e participarem da Sua glória, no concerto dos Espíritos Puros. Quer Ele transmita o sopro da vida a cada novo ser no instante da concepção (ou no período entre a concepção e o nascimento), como pensam os irmãos evangélicos, quer essa criação tenha sido bem mais remota, como entendemos nós, no que todos concordamos é que saímos das mãos do nosso Pai Celestial envoltos na auréola do Seu amor infinito, pois se “Deus é amor”, tudo o que sai das Suas mãos é produto desse amor, que extravasa em catadupas de luz através da eternidade dos tempos e da imensidão dos espaços.
Se esse é o quadro que nos pintam a imaginação e a esperança - e não podemos concebê-lo de outra forma - é lícito concluir que esse Ente de afeição e de bondade só pode criar as almas para fazê-las felizes e para que um dia participem da Sua glória, de modo algum para torná-las desgraçadas, ou para as condenar a sofrimentos eternos. Portanto, não nos parece lógico supor que esse Pai amoroso, sendo onisciente, e pois conhecendo de antemão o destino das almas por Ele criadas, sabendo que, segundo a ortodoxia cristã, a esmagadora maioria delas será fatalmente condenada à perdição eterna, mesmo assim continue gerando criaturas tão frágeis, tão suscetíveis de sucumbir às tentações, quando lhe seria mais fácil, uma vez que é onipotente, fazê-las mais perfeitas, ou pelo menos mais resistentes ao mal.
Daí o não aceitarmos, nós espíritas, a doutrina das “penas eternas”, visto nos parecer incompatível com a suprema bondade e a suprema justiça, qualidades excelsas e essenciais do nosso Criador e Pai.
Alega-se em defesa da eternidade das penas que a gravidade da falta é diretamente proporcional à importância da pessoa ofendida, e que assim uma ofensa dirigida a um ser infinito como Deus seria também infinita, implicando uma punição igualmente infinita. Mas esse argumento é especioso, porque sendo o homem um ser finito, de modo algum poderia cometer urna ofensa infinita, de sorte que a ofensa não guarda relação com a pessoa do ofendido, mas com a capacidade do ofensor. Nas próprias normas do nosso Direito Penal (arts. 22 a 24), observa-se a “inimputabilida” do delinqüente por circunstâncias de idade, perturbação de sentidos ou alienação mental. Perguntamos: Pode alguém de bom senso e no pleno domínio das suas faculdades sentir-se ofendido pelas diatribes que lhe dirija um ébrio ou um alienado mental? Pode um adulto consciente sentir-se atingido pelas injúrias que lhe dirija uma criança de tenra idade? Não existe aí uma tal desproporção de maturidade intelectual suficiente para elidir qualquer possibilidade de agravo? E não é infinitamente maior a desproporção que existe entre o Ser Supremo e a minha insignificante pessoà, de que a existente entre mim e uma criancinha que mal começa a ensaiar seus próprios passos? Então como posso eu, Espírito imperfeito, assim criado por Ele e que mal engatinha em sua peregrinação pelos caminhos do aperfeiçoamento moral, como posso ofender o Todo Poderoso ao ponto de merecer uma condenação a penas severas e inextinguíveis, por deslizes resultantes da imperfeição inerente à minha própria natureza humana? Não estaria aí a severidade da pena em brutal desproporção com a gravidade da falta?
E o pior é que, enquanto Jesus nos veio ensinar a amar os nossos inimigos, a perdoar indefinidamente as ofensas, a ver no Pai Celestial um ser compassivo e misericordioso, sempre pronto a acolher um filho que se transvia (ver parábola do Filho Pródigo), esse Deus que a ortodoxia cristã nos impinge é de uma severidade extrema, cominando penas que nenhum tribunal humano subscreveria, e ainda por cima irremissíveis, de nada adiantando, após a morte, o arrependimento dos por essa forma condenados...
Ora, nós sabemos que a experiência na carne, por prolongada que seja, não passa de um instante fugaz em face da eternidade. Então temos de forçosamente concluir que a condenação a uma eternidade de sofrimentos por faltas cometidas durante tão breve tempo, não se coaduna com a idéia de um Deus justo, misericordioso e infinitamente bom. E se Deus perdoa ao culpado que se arrepende de seus erros no curso da vida terrena, por que não poderá fazê-lo em relação aos que se arrependem depois da morte? De que serviria, então a “pregação do Evangelho aos mortos”, a que alude o apóstolo Pedro em sua epístola? (1. Pedro 4:6). Pergunta-se: Depois da morte o ser conserva a sua individualidade ou não? Pode pensar, sentir, raciocinar? Pode arrepender-se de seus erros? Se se arrepende, por que não pode ser perdoado? Que Deus misericordioso é esse, que só perdoa as faltas de seus filhos durante a vida terrena, que é um átimo, e não perdoa durante a vida espiritual, que dura a eternidade? Se Deus criou os homens para a Sua glória (Isaías 43:7), por que condenará a penas eternas aqueles que o invocarem? (Joel 2:32). Onde estão os fundamentos da idéia de que Deus só atende aos pecadores durante a vida corpórea? Como entender “a minha ira não durará eternamente” (Jer. 3:12), se as almas são condenadas pela eternidade? Como pode alguém “amar a Deus sobre todas as coisas” (Deut. 6:5), se entender que esse Deus é um tirano, que condena o pecador a penas eternas e não lhe perdoará após a morte, por mais que se arrependa? Um tal Deus não poderia ser amado, mas apenas temido (Salmo 89:7).
O próprio Jesus foi pregar aos Espíritos em prisão (1º Pedro 3:19). Por que foi Ele pregar, se os mortos não se arrependem? Observe-se que não se trata da expressão “mortos em delitos e pecados”, pois logo o versículo seguinte esclarece: “Os quais noutro tempo foram desobedientes, quando a longanimidade de Deus esperava, nos dias de Noé”. Portanto, Espíritos que haviam vivido na Terra ao tempo de Noé e a quem Deus concedeu nova oportunidade, através da pregação de Jesus. E se o destino dos mortos é irremissível, por que se batizavam por eles os primitivos cristãos? (1º Cor. 15:29). Vejamos de que forma falou sobre o assunto o teólogo anglicano W. WALKER:
“Orações em favor dos mortos, em geral, e memoriais na forma de ofertas efetuadas nos aniversários do seu passamento, eram comuns já no começo do século II.” (“História da Igreja Cristã”, pg. 125).
“Quanto ao batismo, instituição anterior ao Cristianismo, embora Paulo não o considerasse absolutamente necessário à salvação (1. Cor. 1:14-17), seu conceito aproximava-se da noção de iniciação esposada pelas religiões de mistério. Seus conversos em Conoto, pelo menos, tinham uma concepção quase mágica do rito, deixando-se batizar em lugar de seus amigos já falecidos, a fim de que os benefícios do rito alcançassem a estes.” (1. Cor. 15:29) (lbd., pg. 127).
Se Deus é onipotente e onipresente não pode deixar de ver o que se passa em todos os recantos do infinito Universo e, portanto, também o sofrimento dos condenados no inferno. E se fica assistindo ao sofrimento dos infelizes por Ele mesmo criados, a clamarem por perdão num arrependimento inútil, e não se comove ante esse espetáculo dantesco, esse Deus é de uma insensibilidade espantosa que nenhum ser humano, por empedernido que fosse, seria capaz de manter.
Digam-nos, em sã consciência, é concebível que o Deus cujo ensinamento ministrado aos homens, através de Jesus, foi o de amar até mesmo aos inimigos e perdoar indefinidamente as ofensas, é concebível que esse Deus mande os homens fazerem isso, e não seja Ele mesmo capaz de perdoar, nem capaz de acolher o clamor de pecadores arrependidos? Uro Deus que assim exerce contra criaturas por Ele mesmo geradas uma vingança infinita, é um ser infinitamente vingativo, e, portanto, não bondoso nem misericordioso, e Conseqüentemente não é Deus. Pelo menos não aquele “Deus de Amor” revelado aos homens por Jesus.
Só há uma conclusão a tirar, e é que os homens continuam idealizando Deus à sua própria imagem e semelhança, atribuindo-lhe as suas próprias qualidades e todos os seus defeitos. Entendemos que é impiedade pensar em Deus nestes termos, principalmente em face dos ensinamentos tão claros ministrados pelo Cristo.
Mas ainda não é tudo: Qual será a situação das almas dos justos conduzidas à bem-aventuras eterna? Perdem completamente a lembrança daqueles com quem conviveram em sua existência terrena, ou conservam viva a memória dos que foram aqui seus pais, seus filhos, seus irmãos, seus amigos? Se esquecem tudo, de que serviram os laços de família, as relações de amizade, os vínculos de amor que aqui constituíram? Ficará tudo isso perdido para sempre? Mas se conservam a Lembrança, a situação ficará infinitamente pior: Como podem eles gozar de felicidade perfeita sabendo que entes queridos estão a padece tormentos infindáveis? Como pode uma mãe gozar a felicidade dos justos, tendo consciência de que um filho muito amado jamais poderá compartilhar da sua ventura no céu, porque foi condenado a sofrer eternamente no inferno?
Eis porque nós, espíritas, não podemos aceitar a doutrina das penas eternas, porque ela não se coaduna com a idéia de um Deus justo e misericordioso. Aí estão dois atributos aparentemente conflitantes. Como pode Deus ser justo e ao mesmo tempo misericordioso? E que sendo justo Ele não deixa sem punição nenhuma ofensa, como não deixa sem recompensa nenhum ato meritório. E sendo misericordioso, não deixa que seus filhos sofram pela eternidade. Acreditamos que Ele é inflexível para com o pecador endurecido, mas sempre pronto a acolher os que a qualquer tempo se arrependam e implorem o perdão de suas faltas. A Justiça Divina se faz sentir dando ao penitente novas oportunidades de reparar os erros praticados, de refazer suas experiências, de ressarcir as ofensas e prejuízos que tenha causado ao seu próximo. Para as almas saídas das mãos do Criador há sempre uma esperança, não mais a terrível inscrição imaginada por Dante no pórtico do inferno: “Lasciate ogni spranza voi ch’entrate!”, porque Deus é Pai e Ele quer que todos os homens se salvem e o que Ele, quer, já o dissemos, infalivelmente acontece.
Mas há ainda outro ponto a considerar: Se nos parece absurda a condenação a penas eternas por faltas cometidas como resultado das imperfeições inerentes à alma humana, ou, não raro, por influência do próprio meio em que cada um viveu sua experiência terrena, o que poderíamos dizer da tese abraçada por nossos irmãos evangélicos, que condicionam a perdição eterna, não a tais ou quais ofensas perpetradas durante a vida, mas ao simples fato de não aceitarem a mediação de Jesus nos termos em que é pregada pela ortodoxia cristã?
Não é preciso que nos venham citar os inúmeros versículos em que o Mestre e seus apóstolos afirmaram que todo aquele que nele cresse teria a vida eterna. Gostaríamos apenas de perguntar: Em que consiste exatamente “crer em Jesus”? Para nós, é acolher no coração os seus ensinamentos e passar a viver de acordo com os seus preceitos. E o que foi, realmente, que Ele ensinou? Quais os preceitos que ministrou? Ensinou a amar até mesmo aos inimigos, a perdoar e esquecer as ofensas, a extirpar do coração o egoísmo e o orgulho, a fazer aos outros o que queremos que eles nos façam, a sempre retribuir o mal com o bem, a socorrer os irmãos em suas necessidades sem visar a qualquer recompensa, enfim, a compreender, servir e perdoar, perdoar indefinidamente.
Até mesmo na parábola das ovelhas e dos bodes, a que se refêre o evangelista Mateus (25:31-45), Jesus colocou como condição única da salvação a prática do amor nas relações com o próximo. Quem observar esse preceito terá o reino de Deus no coração, e quando cada ser humano se compenetrar desta verdade e promover sua reforma íntima, a Humanidade inteira estará reformada e o reino do céu se instalará na Terra.
Chegaremos um dia a esse glorioso evento? Chegaremos sim, sem a menor dúvida, porque a semente do Evangelho não foi plantada em vão e se aparentemente demora em germinar, é que dois ou três milênios nada são diante da Eternidade.. . Pergunta-se, então: Serão os seres daqueles tempos futuros mais privilegiados que os da época atual e todos os seus predecessores? De modo agum, pois essa Humanidade será a mesma de hoje e de ontem, “porque somos de ontem e o ignoramos” (Jó 8:9); é a mesma Humanidade que vai aprendendo e se aprimorando em sucessivas e proveitosas experiências, através de lutas e de sofrimentos, caindo e se reerguendo, purgando suas faltas, resgatando seus erros, vai aos poucos assimilando os divinos ensinamentos, crescendo em conhecimento (progresso intelectual) e em virtude (progresso moral) até um dia atingir a perfeição dos Espíritos Puros, irmanando-se ao Cristo e integrando-se ao Pai.
Dizei-nos: Não é muito mais lógica e muito mais blime essa perspectiva do que a doutrina que supõe:
“um pequeno número de “eleitos” entregues à contemplação perpétua, enquanto a maioria das criaturas é condenada a sofrimentos sem fim no inferno? Como é pungente, para os corações amorosos, a barreira que ela coloca entre os vivos e os mortos! As a[mas felizes, dizem, só pensam na sua felicidade e aquelas que são infelizes somente nas suas penas. É de admirar que o egoísmo reine sobre a Terra, quando no-lo mostram no próprio céu? Como, pois, é estreita a idéia que ela nos oferece da grandeza, do poder e da bondade de Deus!” (KARDEC, em “O Céu e o Inferno”, 2ª ed. LAKE, pg. 38).
Acreditamos haver demonstrado que a doutrina das penas eternas não condiz com a idéia que fazemos de Deus, aliás expressamente ensinada por Jesus: a de um Pai de amor e de misericórdia. Contudo, os nossos irmãos evangélicos se apegam demasiadamente à letra da Escritura e gostam de repisar expressões como “fogo eterno”, “geena de fogo”, etc., como prova de eternidade das penas. Basta consultar um dicionário qualquer, para verificar que.a palavra “eterno” comporta várias acepções, significando não somente “aquilo que não tem fim”, como também “algo de duração imprecisa”, ou “aquilo de que não se conhece o termo”. Alguns exegetas chegam a distinguir “eternidade” de “eviternidade”, conceito este peculiar à contingência humana, designativo de “um tempo indefinido” ou “um tempo cujo limite se desconhece”.
Assim foi, por exemplo, a “aliança eterna” estabelecida por Deus para a casa de Davi (2º Sam. 23:5), assim foi com os Levitas escolhidos “para servirem perpetua. mente” ao Senhor (1.8 Crôn. 15:2). É certo que Jesus disse: “Ide, malditos, para o fogo eterno”, mas não disse: “Ide e queimai eternamente”, porque ainda que o fogo queimasse pela eternidade, isso não implicaria que o condenado ali devesse permanecer para todo o sempre. O fato de que sempre haverá prisões não quer dizer que um prisioneiro deva ficar na prisão por toda a eternidade.
E por falar em prisão, consideremos o quanto a Humanidade tem progredido no que respeita à punição dos criminosos: A pena, que desde a mais remota antiguidade até os tempos recentes tinha o caráter de um castigo, hoje tem por objetivo a reintegração do desajustado ao corpo social, tanto qué nas penitenciárias já não se alude aos detentos como “condenados”, e sim como “reeducandos”. Então, perguntamos: Será a justiça terrena, que por essa forma se humaniza, considerando o criminoso como um “desajustado social”, quase sempre um produto da miséria, da falta de instrução, de condições mesológicas adversas, será essa justiça mais pêrfeita, ou mais compreensiva, do que a Justiça Divina? Lembremo-nos das palavras de Jesus: “Se vós, sendo maus sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai Celestial. . .“ (Lucas 11: 13). Enfim, tem cabimento pensar que está sujeito ao fogo do inferno até mesmo aquele que chamar o seu irmão de “tolo”? (Mateus 5:22).
Argumentam ainda os teólogos que, para entender como “duração indefinida” a expressão “suplício eterno”, é preciso atribuir idêntico sentido à expressão “vida eterna”, ambas citadas no mesmo versículo (Mat. 25:46). Ora, perguntamos: Para que cria Deus as almas, para fazê-las felizes ou desgraçadas? Acaso seria justo e bom um Deus que as criasse para submetê-las a sofrimentos eternos? Então é lógico supor que Ele as cria para a eterna felicidade e que os sofrimentos por que devem passar são necessários ao seu aperfeiçoamento e purificação. Aliás, tais sofrimentos não são impostos por Deus, mas resultam das faltas cometidas, pois o ser humano colhe aquilo que semeia e, como sabemos, “a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória”. Então, se os sofrimentos têm por objetivo o resgate das faltas, é claro que devem ser temporários desaparecendo com a reparação do mal praticado. É também claro que para um Espíríto obstinado em seus erros os sofrimentos persistirão enquanto não houver arrependimento e resgate, tendo em tal caso duração indefinida.
Diletos irmãos evangélicos: Os preconceitos enaizados em vossas mentes impedem mediteis sobre assuntos religiosos com isenção e espírito crítico. A qualquer idéia estranha aos cânones consagrados como “matéria de fé”, receais estar sendo tentados por Satanás, essa figura simbólica do mal. E no entanto, para que vos concedeu o Pai a inteligência, se nao foi para raciocinar. Por que receais sair no encalço da verdade, se o proprio Cristo disse: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”? (João 8:32).
Se os que negam a preexistência da alma ousassem refletir... Sim, porque a tendência é deixar a mente acomodada às idéias estabelecidas, é seguir as regras fixadas pelos que pensaram antes, principalmente em matéria de religião. Porque para pensar é necessário ter garra, a reflexão lógica por vezes traz perturbação, pode quebrar antigos tabus e abalar convicções tidas como “verdades” secularmente arraigadas.
Então, se ousassem pensar - mesmo dentro do seu ponto de vista ortodoxo - raciocinariam assim: “Meu Espírito foi criado por Deus no momento da concepção (ou no do nascimento, se o preferirem), criado para uma vida terrena que em certos casos pode até ser amena, mas que em geral representa um fardo pelos esforços que exige, pelas responsabilidades que envolve, pelos dissabores que acarreta durante toda a existência. Ora, eu não pedi para vir ao mundo, não fui consultado a respeito, logo a minha vida resultou de um ato de arbítrio do Criador. Ninguém perguntou se eu estava disposto a enfrentar as vicissitudes da existência. E se no curso desta eu cometer faltas graves e não dispuéerde tempo ou por qualquer circunstância não for indúzido a um arrependimento eficaz, ou, mesmo sem ter cometido tais faltas, se apenas não seguir determinadas regras religiosas, ou se a minha razão não se amoldar a certas normas tidas como verdades ou meios de salvação, ou mesmo se, simplesmente, eu não tiver sido predestinado desde a fundação do mundo para compartilhar a sorte dos eleitos, então estarei irremediavelmente condenado a sofrimentos terríveis, bem maiores que os experimentados aqui na Terra e com a agravante de, ao contrário destes, serem destinados a durar para todo o sempre! Que fiz eu para merecer tão cruel tratamento? Por empedernido delinqüente que fosse, como é possível rotular de justa uma tal punição?”
E no entanto, o quadro delineado na Bíblia não nos pinta Deus como um carrasco das suas criaturas. Desde o Velho Testamento, mas principalmente com Jesus, o nosso Criador e Pai nos é apresentado com feições inteiramente diversas. Abstraídos os rompantes de fúria do Jeová judaico, evidente concepção mosaica destinada a intimidar homens contumazes em rebeldia e desobediência, o que notamos é que Deus os castigava, mas estava sempre pronto a perdoar quando se arrependiam. Vejam-se os profetas, principalmente os maiores. Os judeus tinham noção muito vaga da sobrevivência, se é que tinham alguma, por isso as punições e recompensas eram todas na existência terrena. Jesus trouxe a revelação da vida espiritual e com ela a noção grandiosa de Deus em toda a sua plenitude de amor. Vejamos se as seguintes passagens roboram a esdrúxula idéia da punição eterna:
Salmo       22:27 - “Toda a terra se converterá ao Senhor e todas as n  ações adorará a sua face.”
Isaías        49:15 - “Acaso pode uma mulher se esquecer do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho de suas entranhas? Pois ainda que ela viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti.”
54: 7 - “Por um momento te desamparei, mas tornarei a acolher-te com grande misericórdia.”
55: 7 -      “Deixe o perverso o seu caminho, e volte-se para Deus, que é rico em perdoar.”
66:13 - “Como alguém a quem a sua mãe consola, eu vos consolarei.
Jerem.      29:13 - “Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de coração.
     31: 3 - “Com amor eterno te amei, por isso compadecido de ti te atraí a mim.”
31:34 - “Porque todos me conhecerão, desde o menor até o maior, per doare as maldades de todos e não me lembrarei mais dos seus pecados.”
Ezeq.        33:11 - “Juro pela minha vida, diz o Se nhor que não quero a morte do ímpio, mas que ele se converta e viva”
Miquéas   7:18 - “O Senhor não retém a sua ira para sempre, porque tem pra ze na misericórdia.”
Joel          2:32 - “Porque todo aquele que invo ca o nome do Senhor, será salvo.
Mateus     6:14 - “Se perdoardes aos homens as e 15 suas ofensas, também o vosso Pai Celestial perdoará vossas ofensas.”
     7:11 - “Pois se vós sendo maus sa bei dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai Celestial dará boas coisas aos que as pedirem.”
     10:29 e 31 -     “Nenhum passarinho cairá em terra, sem a vontade do vosso Pai (...); não temais, pois, mais valeis vós do que muitos passarinhos.”
     18:14 -            “Não é da vontade do vosso Pai que nenhum destes pequeninos se perca.”
Lucas       6:35 - “Amai vossos inimigos (...) e sereis filhos do Altíssimo, o qual é benigno até para os in grato e maus.”
     15: 7 e 10- “Digo-vos que haverá mais alegria. no céu por um pecador que se arrepende, do que por 99 justos que não necessitam de arrependimento.”
Atos         17:30 - “Mas Deus (...) anuncia agora a todos os homens e em todo lugar que se arrependam.”
Romanos  2:11 - “Porque para com Deus não há acepção de pessoas.”
10:13 - “Porque todo aquele que invoca o nome do Senhor, será salvo.
11:32 - “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para usar de misericórdia para com todos.”
Efésios     2:4 - “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo muito amor com que nos amou...”
1ª Tim.     2: 4 - “Deus quer que todos os mens se salvem e venham conhecimento da verdade.”4:10 -             “Porque temos posto a nossa esperança no Deus vivo, salva do de todos os homens.”
Tito          2:11 - “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo a salvação a todos os homens.”
2ª Pedro   3: 9 - “Ele (o Senhor) é longânimo pa r convosco, não querendo que nenhum se perca, mas que to do cheguem ao arrependimento.”
1ª João     4:16 - “Deus é amor; e quem está em amor, está em Deus e Deus nele.”
E para concluir, perguntamos: Acaso a parábola do “credor incompassivo” (Mat. 18:34) não depõe contra a eternidade das penas? “O seu Senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo quanto devia”, limitando, pois, a punição ao tempo suficiente para o ressarcimento do dano.
Vários dos chamados “Pais da Igreja” não admitiam a idéia das penas eternas. “Parecia-lhes”, afirma Voltaire, “absurdo queimar durante a eternidade um pobre homem por haver furtado uma cabra.” Vejamos o que disseram alguns deles:
São Jerônimo, tradutor da “Vulgata Latina”:
“Muitos sustentam que os tormentos terão um fim, mas no momento isso não deve ser dito àqueles para os quais o temor é útil, a fim de que, pelo terror dos suplícios, cessem de pecar.” (“Obras de S. Jerônimo”, Ed. Bened. III, col. 514). Clemente de Alexandria:
“O Cristo Salvador opera finalmente a salvação de todos, e não apenas a de alguns privilegiados. O soberano Mestre tudo dispôs, quer em seu conjunto, quer em seus detalhes, para que fosse atingido esse fim definitivo.” (Cit. por MÁRIO CAVALCANTI DE MELLO, em “Como os Teólogos Refutam”, pg. 230).
São Gregório de Nicéia:
“Quando Deus faz sofrer o pecador, não é por espírito de ódio ou de vingança; quer conduzir a alma a Ele, que é a fonte de toda felicidade. O fogo da purificação não dura mais que um tempo conveniente e o único fim de Deus é fazer definitivamente participarem todos os homens dos bens que constituem a sua essência.” (lbid. pg. 230).
Na mesma obra o autor MÁRIO C. MELLO cita eminentes figuras dos tempos modernos que se têm insurgido contra a noção das penas eternas. Por exemplo:
“O teólogo calvinista PETIT PIERRE pregou e escreveu que os condenados teriam um dia a sua graça, o seu perdão. Impuseram-lhe a retratação das suas teorias, mas ele recusou e foi deposto pelos seus colegas da igreja de Nuchatel” (pg. 226).
“O célebre escritor italiano Giovanni Papini em seu último livro pretende que Deus, em sua infinita bondade, perdoará um dia ao diabo. Mas logo se levantou a Igreja de Roma, para exigir do ilustre escritor uma retratação. Para a Igreja dita cristã Deus é bom apenas teoricamente, só sabe dar bons conselhos, pois recomenda a. seus filhos, pela boca de Jesus, perdoar as ofensas setenta vezes sete vezes e não nos dá o exemplo perdoando a vermes como nós.” (Pg. 228).
Para concluir, deixamos à meditação dos leitores algumas indagações que, embora repetindo conceitos já anteriormente expendidos, servirão para fixar os pontos que consideramos de maior relevância em nossa argumentação:
1 - Se Deus é infinito em todas as suas perfeições, é também infinitamente justo. Então, por que predestina Ele algumas almas à eterna bem-aventurança e outras à eterna condenação? Onde a infinita Justiça?
2 - Se Ele é infinito em todas as suas perfeições, como onisciente tem conhecimento prévio do destino das almas que vai criando, e como presciente sabe que a maior parte delas será condenada à perdição eterna. Por que, mesmo assim, Ele continua criando? Onde a infinita Bondade?
3 - Se Ele é infinito em todas as suas perfeições, é também onipresente. Logo, tanto está no céu, contemplando a felicidade dos eleitos, como no inferno, contemplando o sofrimento dos condenados. E como pode ficar insensível a esse sofrimento por toda a eternidade? Onde a infinita misericórdia?
4 - Se um pecador pode se arrepender dos seus erros durante a vida terrena, por que não poderá fazê-lo após a morte? Não vemos nenhuma razão lógica para que não o possa. Então, por que Deüs, que mandou que perdoemos indefinidamente aos que nos ofendem, e que é tão compassivo para com os que ainda se encontram no plano físico, é tão inflexível com os que já deixaram a Terra? Será a justiça humana mais eqüânime do que a justiça divina?
5 - Como explicar a condenação da Humanidade inteira pelo erro de um só homem, se Deus disse por Ezequiel: “O filho não pagará pela maldade do pai, nem o pai pela maldade do filho; a alma que pecar, éssa morrerá”? (Ezeq. 18:20). E como pode o sangue de um justo apagar os pecados de todo o gênero humano?
6 - Que adianta ter fé, se a fé independe da vontade do homem, e não resulta das obras, por ser “um dom de Deus”, e se nem sequer é necessária, uma vez que a salvação é privilégio exclusivo de alguns “eleitos”?
7 - Se as almas salvas na beatitude do céu conservam a lembrança dos que foram seus parentes e amigos na existência terrena, como poderão ter felicidade plena sabendo que entes queridos estão sofrendo tormentos sem fim no inferno? Como pode uma mãe carinhosa, que se sacrificou por um filho rebelde, desfrutar a bem-aventurança eterna, sabendo que um filho estremecido se consome em sofrimentos por toda a eternidade?

A Divindade e a História

Já vimos que não aparece no Novo Testamento nenhuma proclamação taxativa da divindade de Jesus, no sentido que lhe deu o Concílio de Nicéa, de “consubstacial com o Pai de toda a eternidade” certo que a idéia aparece difusa no Evangelho de João, mas este só apareceu 60 anos depois da morte do Mestre, quando a Cristologia (interpretação teológico da figura do Cristo) já se achava impregnada do neoplatonismo com a sua noção do “Logos”.
Agora vejamos em linhas gerais como se chegou a concretizar a idéia da divindade, que era totalmente desconhecida nos primitivos tempos do Cristianismo. Toda gente sabe que na decisão de Nicéia (325 dc.) predominou a vontade do imperador Constantino, que, egresso do paganismo estava ainda bem longe de poder ser considerado Cristão, tanto que continuou como pontífice da antiga religião e só veio a receber o batismo quando se achava à morte, no ano 337.
Mas não cometeremos a injustiça de atribuir aquela decisão unicamente ao arbítrio do Imperador, pois a História registra que as controvérsias reinavam ferozes desde o início do segundo século, e ameaçavam dividir a Igreja, de sorte que a influência autoritária de Constantino pode ter tido o propósito de evitar a cisão do Cristianismo, o que, todavia, conforme veremos, não foi conseguido no Concílio de Nicéa e nem nos subseqüentes.
Vejamos os esclarecimentos que nos podem trazer protestantes sobre a controvertida questão da divindade de Cristo:
“Os chamados Pais da Igreja entendiam Jesus como o revelador divino do conhecimento do verdadeiro Deus e arauto de uma “nova lei” de moralidade simples, elevada e severa” (WILLISTON WALKER, em “História da Igreja Cristã”, 2ª ed., pg. 62).
“Inácio (bispo de Antioquia de 110 a 117), professava o mesmo tipo elevado de cristologia evidenciada nos documentos joaninos. O sacrifício de Cristo é o “sangue de Deus”. Saúda os cristãos romanos em “Jesus Cristo, nosso Deus” e no entanto não chega a identificar exatamente Cristo com o Pai. Cristo, escreve ele, realmente é da estirpe de Davi segundo a carne, Filho de Deus por vontade e poder de Deus.” (Idem, pg. 61).
“Juliano (Contra Christianos, apud Cirilo de Alexandria, op. IX, 326ss): “Mas, infortunadamente não sois fiéis às vocações apostólicas; estas, em mãos de seus sucessores, tornaram-se em máxima blasfêmia. Nem Paulo, nem Mateus, nem Lucas ou Marcos ousaram afirmar que Jesus é Deus. Foi o venerável João quem, constatando que um grande número de habitantes das cidades gregas e italianas eram vítimas de epidemias e ouvindo, imagino, que as tumbas de Pedro e Paulo se tornavam objeto de culto, João, repito, foi o primeiro a ousar tal afirmativa.” (H. BETTENSON em “Documentos da Igreja Cristã”, pg. 50).
“Tertuliano (150/225) distinguia entre os elementos divino e humano em Cristo. Derivados do Pai por emanação, o Filho e o Espírito são subordinados a Ele. A doutrina da subordinação, já presente nos Apologistas, viria a ser característica da cristologia do “Logos” até o tempo de Agostinho.” (W. WALKER, em “História da Igreja Cristã”, pg 99).
“Para Paulo de Samósata, bispo de Antióquia entre 260 e 272, Jesus era um homem considerado único por causa do seu nascimento virginal, além de cheio do poder de Deus, isto é, o “Logos” de Deus. Mediante essa inspiração Jesus era unido a Deus por amor, em vontade, mas não em substância.” (WALKER, ibd. pg. 102).
“Para Ário (presbítero de Alexandria) Jesus não era da mesma substância do Pai, tendo sido tirado do “nada”, como as demais criaturas. Não era, por conseguínte, eterno, embora o primeiro entre as criaturas e agente na criação deste mundo. Cristo era na verdade Deus em outro sentido, mas um Deus inferior, de modo algum uno com o Pai em essência e eternidade. Seu Opositor foi o bispo Alexandre, para quem o Filho “era eterno, da mesma substância do Pai, e absolutamente increado” Ele convocou um Sínodo em Alexandria (cerca de 321), Sínodo esse que lançou condenação sobre Ario e Seus seguidor” (WALKER ibd., pgs. 155/156).
“A disputa dividiu a Igreja e causou perturbação à ordem pública. Então o Imperador convocou o Concílio de Nicéia, ao qual compareceram cerca de 300 bispos, só 6 do Ocidente. Depois de acirradas discussões o Imperador, desejando que se chegasse a uma expressão unificada da fé, forçou a definição de Nícéia. Sob sua supervisão, todos os bispos a subscreveram com exceção de dois que, juntamente com Ario, foram banidos pelo imperador.” (WALKER ibd., pg. 158) (grifos nossos). “Na realidade as decisões de Nicéa foram fruto de uma minoria. Foram mal entendidas e até rejeitadas por muitos que não eram partidários de Ario. Posteriormente 90 bispos elaboraram Outro credo (o “Credo da Dedicação”) em 341, para substituir o de Nicéia. (...) E em 357, um Concílio em Smirna adotou um credo autenticamente ariano.” (H. BTTENSON em “Documentos da Igreja Cristã”, pg. 74 e 76).
“Passando em revista essa longa controvérsia, é de afirmar-se ter sido uma infelicidade o fato de uma frase menos controvertida não ter sido adotada em Nicéia, e infelicidade ainda maior a circunstância de a interferência imperial se constituir fator tão importante no correr das ulteriores discussões. Em meio a essa luta surgiu a igreja imperial e se desenvolveu plenamente a política de interferência imperial. A rejeição da ortodoxia oficial erigira-se em crime.” (WALKER, ibd., pg. 171).
“Logo que Constantino se constituiu patrono do Cristianismo, este se tornou uma religião eivada de heresias e de inovações.” (...) A maioria dos que entravam para a Igreja, era realmente pagã, gente de vida reprovável. Era assim natural que aparecesse uma queda do nível moral do caráter cristão.” (ROBERT HASTINGS NICHOLS, em “História da Igreja Cristã”, ed. Casa Editora Presbiteriana, 1978, pgs. 44 e 46).
“A quéstão da divindade de Cristo tendo sido vitoriosa, a discussão voltou-se para a relação entre a sua natureza divina e a humana Foram tremendas as divergências de opinião, que chegaram a provocar divisões na Igreja.” (NICHOLS, ibd., pg. 48), (Grifo nosso).
“As grandes verdades que são vitais à fé cristã, como as da encarnação e da Trindade, foram examinadas e expressas pela Igreja nessa “Era dos Concílios”. Tais decisões têm sido desde então aceitas pela cristandade. Ao lado dessa vitória, surgiu um prejuízo em virtude da tendência de se pensar que a coisa mais importante era defender e guardar as definições corretas da verdade cristã. A prova da fé cristã de uma pessoa não era tanto a sua lealdade a Cristo, em espírito e pelo comportamento moral, senão a sua aquiescência ao que a Igreja declarava a doutrina correta, isto é, a sua ortodoxia. Aquele que não fosse considerado ortodoxo, era expulso como herege, embora a sua vida fosse um testemunho contínuo de lealdade ao Cristo.” (NICHOLS, ibd., pgs. 48 e 49).
Em todos os tempos muitos cristãos se insurgiram contra a idéia da divindade que, como vimos, não encontra apoio nem na Escritura, nem na razão. Mas o “sistema” ortodoxo que detinha o poder sempre tratou de sufocar todas as tentativas de contestação. Submetemos atenção dos leitores mais alguns excertos da obra “História da Igreja Cristã”, do teólogo WALKER, que o comprovam:
“Com as tendências racionalizadoras do século XVIII, as idéias antitrinitárias, que viam na moralidade a essência da religião, foram grandemente fortalecidas. Tais idéias eram representadas no continente europeu por anabatistas e socinianos. Em 1575 foram queimados “batistas arianos” nos Países Baixos e em 1612 foram queimados os últimos ingleses por motivo de fé. Em 1717 alguns pastores presbiterianos tomaram posição entre a ortodoxia e o arianismo.” (Pg. 594).
“Em 1774 o clérigo Lindsay se retirou da Igreja Anglicana e fundou em Londres uma Igreja Unitária. Em 1813 o Parlamento Britânico extinguiu as penas contra os negadores da Trindade. Este antigo unitarismo inglês era claro em sua negativa dos “credos feitos pelos homens” e na insistência da salvação pelo caráter.” (Pg. 595).
“No século XIX surgiu o liberalismo eclesiástico, COLERIDGE (1772/1834) foi o precursor e J. F. D. MAURICE (1805/1872) o impulsionador do pensamento liberal. Para ele, “Cristo é o cabeça de toda a humanidade, ninguém está sob a maldição de Deus e ninguém se perderá para sempre.” O número dos liberais não era grande, mas sua influência sobre o pensamento religioso inglês foi enorme.” (Pg. 661).
“Ao dealbar do século XX os liberais haviam conquistado um lugar em muitas denominações. Nas primeiras décadas os conservadores tudo fizeram para expulsá-los, através de amarga controvérsia fundamentalista-modernista.” (Pg. 687).
A luta ainda continua no seio das igrejas cristãs. Em 1977 sete teólogos ingleses (seis, anglicanos e um da Igreja Reformada Unida) publicaram um livro (“O Mito do Deus Encarnado”) em que consideram a crença na divindade “um meio poético ou mitológico de expressar a significação de Cristo para nós, não a verdade literal.” (“TIME” de 15-8-77). O livro tem despertado fortes polêmicas, e é bom que assim seja, a fim de que as consciências acomodadas despertem do seu torpor.

A Divindade e a Bíblia


Jesus nunca afirmou que era Deus, ninguém encontrará no evangelho uma só palavra sua em tal sentido. O título que Ele habitualmente se atribuía era o de “Filho do Homem”, que figura 80 vezes nos Evangelhos (30 no de Mateus, 14 no de Marcos, 26 no de Lucas e 10 no de João). Poucas vezes, e em geral de forma indireta, Ele se autodenominou “Filho de Deus”, título este que os discípulos, outras pessoas e até Espíritos impuros às vezes lhe atribuíam. É de notar que ser “filho de Deus” não é ser Deus, como se infere de João 1:12: “A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.”
Os teólogos costumam apresentar como prova da sua divindade a frase “Eu e o Pai somos um” (João 10:30), se atentar para o fato de que logo adiante Ele incluiu na mesma categoria os apóstolos, quando afirmou: “Pai Santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós” (Jo. 17:11) e “para que também eles sejam um em nós” (Jo, 17:21).
Cumpre ter em vista, outrossim, que no mesmo episódio acima citado, quando os judeus o acusaram de “se fazer Deus a si mesmo” (João 10:33), Ele encerrou a discussão afirmando: “Se a própria lei chamou deuses aqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida, como dizeis que blasfema aquele que o Pai santificou e enviou ao mundo, porque diz: “Sou filho de Deus”? (João 10:36).
Em vários outros trechos Ele se proclamou um “enviado de Deus” (João 4:34, 5:24, 6:29; 6:44; 7:29; 8:26; 12:45, 17:3) e chegou a afirmar: “Porque eu desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a daquele que me enviou” (João 6:38). claro que um enviado é sempre inferior àquele que o envia. Ele se atribuiu também vários outros títulos, como sejam os de Filho, de “Mestre e Senhor”, de “Luz do Mundo”, de “Bom Pastor”, etc., mas é claro que nenhuma dessas expressões implica a pretensão de se fazer divino. Como um enviado de Deus para pregar aos homens a Verdade, Ele foi um instrumento, um meio, um caminho para se chegar a Deus, foi verdadeiramente o “pão da vida” que a Humanidade esperava para saciar sua fome espiritual.
Se João 14:9 parece roborar a idéia da divindade, logo no v.10 Jesus esclarece que faz as obras porque o Pai permanece nele e no v.12 aduz que os que cressem fariam obras até maiores, mostrando que a ação divina se patenteava nas obras de todos os que cressem, nada havendo na passagem que justifique a noção de que Jesus se reputava Deus.
Outro trecho que se supõe confirmar a doutrina da Trindade é o de 1º João 5:7/8, mas aí a interpolação é tão evidente que a própria “Bíblia de Jerusalém” (editada com aprovação eclesiástica) o resume com estas palavras: “Porque três são os que testemunham: O Espírito, a água e o sangue”, aduzindo em nota de rodapé que as frases restantes ‘não constam dos antigos manuscritos, nem das antigas versões, nem dos melhores manuscritos da Vulgata, parecendo ser uma glosa marginal introduzida posteriormente.” (N.T., 6ª ed. pág. 649 (grifo nosso).
Paulo nunca chamou Jesus de Deus, embora pregasse a unidade de caráter entre ambos. Segundo o teólogo anglicano WILLISTON WALKER “a tradução de Rom. 9:5 não deve ser considerada paulina” (“Hist. da Igr. Cristã”, 2ª ed. pg. 56). O mesmo se pode dizer de Tito 2:13, “do qual não é possível uma interpretação segura”, segundo o teólogo KARL SCHELKLE, em sua “Teologia do Novo Testamento”, ed. Loyola, pg. 218.
O que se observa através da História, é uma tendência para considerar “deuses” aqueles que se destacam dos homens comuns por sua sabedoria, sua autoridade ou sua superioridade moral. Em Êxodo 7:1 lemos que “Jeová fez de Moisés um deus diante do Faraó”. Os próprios apóstolos, em certas ocasiões, foram tidos por deuses (Atos 14:11, 28:6). Veja-se também 1º Cor. 8:5.
“No mundo antigo havia muitos filhos de deuses. No Oriente antigo os reis eram tidos como gerados pelos deuses. Na mitologia grega os deuses geram filhos com mulheres humanas. Em Roma os imperadores eram divinizados depois de sua morte. Gênios que superavam a média humana (políticos, filósofos) eram venerados como divinos, ou filhos de Deus. O sentimento antigo percebia no extraordinário e imenso a revelação do divino. Além disso a Estoa ensinava, em outro sentido, a filiação divina de todos os homens” (Epicteto 1, 3, 1). A história das religiões acha que esta mentalidade antiga contribuiu para que Jesus fosse venerado como Filho de Deus.” (KARL H. SCHELKLE, em “Teologia do Novo Testamento”, ed. Loyola, 1978, pg. 205).
Neste sentido, ninguém mais do que Jesus merece para nós o título de Deus, como o reconheceu o apóstolo Tomé (João 20:28). Ele foi, com efeito, a mais perfeita das criaturas que jamais pisaram neste planeta, nele se manifestou “corporalmente toda a plenitude da divindade” (Col. 2:9), pois em nenhum outro homem se apresentaram mais excelsas a sabedoria e a virtude. Mas foi precisamente isso, uma criatura de Deus que atingiu a máxima perfeição, ao ponto de gozar de íntima comunhão com Deus, daí o ter dito: “Quem me vê a mim, vê também o Pai” e “O Pai está em mim e eu no Pai” (João 14:9,10) e “Glorifica-me, Pai, com a glória que eu tinha contigo antes que houvesse mundo” (João 17:5). Mas Ele também disse: “Eu rogarei ao Pai” (João 14:16 e 16:26) e o que roga evidentemente é inferior ao rogado. Ele também afirmou: “O Pai é maior do que eu” (João 14:28).
Ora, raciocinemos: Se Deus vem criando de toda a eternidade (e nem se conceberia um Deus inativo), é natural que os Espíritos criados no que para nós pode ser definido como o “princípio dos tempos”, ou seja, há milhões e milhões de anos, todos eles, ou quase todos, já devem ter atingido o grau máximo da perfeição, situando- se na categoria dos “Espíritos Puros”, em gozo de plena comunhão com o Criador. Eles são, portanto, os colaboradores na obra de Deus, os seus auxiliares diretos, aqueles que tanto no Velho como no Novo Testamento (e por que não nos tempos atuais?) são chamados de ANJOS. A unidade na criação é a característica do nosso Pai e só ela pode espelhar sua infinita Justiça. Seria admissível que Ele criasse os anjos como entes privilegiados, saídos de Suas mãos como criaturas já perfeitas, enquanto os Espíritos humanos saem simples e ignorantes, fadados a sofrer vicissitudes sem conta, para um dia poderem alcançar a bem-aventurança eterna? Se um anjo disse a João: “Não te ajoelhes, pois eu sou conservo teu e de teus irmãos, os profetas” (Apoc. 22:9), não foi por saber que a origem de todos os seres é a mesma?
E para encerrar estas considerações, indagamos: Acaso não parece muito mais grandiosa a figura de Jesus como um ser humano que, por se haver elevado ao ápice do aprimoramento espiritual, pode apresentarse aos nossos olhos como um modelo da perfeição a que todos aspiramos e que um dia, com a graça do Pai, haveremos de também alcançar? Pois se assim não fosse, por que teria Ele afirmado: “Dei-vos o exemplo para que, como eu voz fiz, assim o façais vós também”? (João 13:15).
Então, fique bem claro o nosso pensamento, segundo o qual, sendo Jesus um Espírito gerado em eras inimagináveis, e que por isso mesmo já fruia da comunhão com o Pai “antes que houvesse mundo” (João 17:5), tendo sido Ele, por certo, um dos planejadores e fundadores deste Planeta, tanto que é o seu Governador Espiritual e até chegou ao extremo de imolar-se para fazer progredir a Humanidade, o abismo que nos separa da sua excelsa perfeição é tão imenso que para nós Ele certamente é Deus, mas isto porque, sendo também uma criatura de Deus, “o primogênito de todas as criaturas” (Col. 1:15), logo “criatura” e não “criador”, pode apresentar-se como nosso modelo e nosso exemplo pelo fato de haver atingido a suma perfeição, e não porque seja “ingerado, consubstancial com Deus de toda a eternidade”, como decretou o Concílio de Nicéia no ano 325 da nossa Era.
Diz HERCULANO PIRES que:
a Igreja adotou o “credo quia absurdum”, como forma típica de coação psicológica. E a divindade de Jesus tornou-se origem de perseguições, torturas, maldições e mortes horripilantes. GANDHI, que não era cristão, após ler o Sermão da Montanha, perguntou a um missionário inglês como se explicava a contradição entre os frutos do Cristianismo em seu país e a árvore espiritual do Evangelho.(“Revisão do Cristianismo”, pg. 95).

A Dinvidade de Jesus — A Divindade e a Lógica

Iniciaremos com uma breve digressão sobre Astronomia, assunto decerto já bem conhecido dos leitores, mas que servirá para lembrar-lhes a exata posição no Cosmos, do homem e do minúsculo planeta que ele habita. Cingimo-nos, nesta parte, a um interessante trabalho divulgado pela extinta revista “LIFE” há mais de 20 anos, alguns de cujos conceitos, portanto, poderão já ter sido modificados.
Como a Terra tem 12.756 km de diâmetro equatorial e dista em média 150 milhões de km do Sol, as dimensões do nosso sistema planetário podem à primeira vista parecer estupendas, principalmente se considerarmos que o planeta mais distante do Sol, Plutão, dista deste cerca de 6 bilhões de quilômetros. Mas o nosso Sol, embora com um volume 1,3 milhões de vezes maior que o da Terra, não passa de uma estrela de tamanho médio. Se o imaginarmos como uma bola de 15 cm. de diâmetro, a Terra distaria dele uns 17 metros e o planeta Plutão cerca de 1 km. Pois bem, as estrelas mais próximas ficariam a 5 mil km e mesmo estas são consideradas vizinhas do Sistema Solar, tal a vastidão do Espaço.
Em noite clara podem ser vistas a olho nu cerca de 6 mil estrelas, metade em cada hemisfério. Com um pequeno telescópio distinguem-se mais de 2 milhões, enquanto o grande telescópio do Monte Palomar permite captar a luz de bilhões. À distância parecem formar verdadeiros aglomerados porém na realidade brilham como luzeiros solitários, separados por milhões de quilômetros quais naves a flutuar num oceano vazio.
As dimensões do Universo são tão vastas que não podem ser medidas pelos meios comuns, por isso recorre-se a uma unidade especial, que é o “ano-luz”. Aliás, é bom lembrar que todas as medidas do tempo vêm do espaço, sendo na realidade dimensões espaciais. Por exemplo: O que chamamos “uma hora” é, com efeito, um arco de 15 graus na rotação diária, aparente, da esfera celestial. Então, o “ano-luz” é o espaço percorrido pela luz no tempo de um ano. Sabendo-se que a velocidade da luz é de cerca de 300 mil km por segundo, segue-se que o “ano-luz” corresponde a quase 10 trilhões de quilômetros. Pois bem: enquanto o Sol está apenas a 8,2 “minutos-luz” da Terra, a mais próxima estrela (Alfa, do Centáuro) fica a 4,4 anos-luz da Terra, a gigante vermelha Betelgeuse (da constelação de Orion) a 300 “anos-luz” e a gigante azul Riegel (também de Orion) leva 540 anos para alcançar nossos olhos.
Vejamos outro aspecto dessa desconcertante noção de “espaço-tempo”: Quando olhamos para o céu em uma noite estrelada, na realidade estamos olhando “para trás no tempo”. Vemos a luz de estrelas como elas eram há milhares, talvez milhões de anos. Certamente nenhuma delas está mais nos pontos onde as vemos, algumas podem até ter sido totalmente extintas. Mesmo a mais próxima de nós (Alfa, do Centáuro), não a vemos como é hoje e sim como era há pouco mais de 4 anos. O que realmente vemos é o fantasma de uma estrela que emitia luz há 4 anos; se ela continua, ou não, brilhando agora, só poderemos saber dentro de mais 4 anos. Então, para descrever a posição de uma galáxia, não basta fixá-la nas três dimensões do espaço, mas também numa de tempo. Daí o dizer-se que o Universo é quadridimensional sendo a 4ª dimensão o tempo.
Mas todas essas estrelas a que nos reportamos até agora podem ser consideradas vizinhas próximas, e suas distâncias equiparam-se a centímetros, quando medidas em escala cósmica. Foi só nas últimas décadas que se percebeu que o nosso Sistema Solar é apenas uma unidade infinitesimal na borda externa de uma galáxia a que denominamos “Via Láctea”. E esta mesma não passa de uma unidade num aglomerado de galáxias ligadas pela gravitação, movendo-se ininterruptamente através do Espaço.
Essa faixa luminosa que avistamos em noites claras cortando o firmamento de norte a sul, só em tempos recentes veio a ser conhecida pelo que de fato é: um estupendo caudal de campos estelares integrando a parte visível da galáxia em que se move o nosso Sistema Solar. A dificuldade em apreender a estrutura da “Via Láctea”, é que nos achamos “dentro dela”. Só nos últimos tempos os astrônomos puderam cientificamente estabelecer que o que vemos da “Via láctea” é apenas parte do arco interno de um colossal aglomerado de estrelas, em forma de disco, similar às galáxias do espaço externo, O nosso planeta está situado a 30 mil “anos-luz” do centro da galáxia, e dele podemos divisar apenas uma pequena fração dos bilhões de estrelas que ela contém. O diâmetro da “Via Láctea” é de mais de 100 mil “anos-luz”, o que significa que a luz, à assombrosa velocidade de 300 mil quilômetros por segundo, leva mais de 100 mil anos para percorrer a galáxia de uma extremidade à outra.
A galáxia também gira, completando uma revolução a cada 200 milhões de anos, não apenas levando com ela o nosso Sistema Solar com velocidade superior a 1 milhão de km por hora, como arrastando um enxame externo de aglomerados estelares, cada um com centenas de milhares de estrelas, todas girando em volta do centro da galáxia.
Mas a “Via Láctea” não é senão um membro de um agregado cósmico infinitamente maior, denominado “Grupo Local”, composto por cerca de 20 sistemas galácticos unidos pela energia gravitacional e com um diâmetro de uns 3 milhões de “anos-luz”. Próximo a uma das extremidades desse super-sistema gira o luminoso disco da “Via Láctea”, enquanto na extremidade oposta viaja a grande espiral de sua galáxia-irmã, Andrômeda. O “Grupo Local” abrange também 6 pequenas galáxias elípticas e mais as informes “Nebulosas Magelânicas”, além de algumas distantes espirais, perdidas no imenso vácuo. Remotas como se encontram, estão todas unidas por uma ignota energia gravitacional e revolucionam ao redor de um eixo desconhecido, situado em alguma parte, entre a Via Láctea e Andrômeda.
Mas ainda não é tudo: Volvendo o telescópio para além das mais distantes nebulosas do Grupo Local, descobre-se um crescente número de enevoadas manchas luminosas, suspensas no Vácuo como tênues teias de aranha. São as chamadas “Galáxias Externas”, ou “Universos ilhas”, cada uma delas composta por bilhões e bilhões de estrelas, mas tão profundamente entranhadas no abismo do espaço que a luz que emitem leva milhões de anos para chegar até nós. Só no interior da Ursa Maior, fracos bruxuleios revelam uma concentração de mais de 300 galáxias. Junto dela o nosso Grupo Local seria um aglomerado anão.
Em geral as galáxias do espaço externo tendem a aglomerar-se em comunidades de cerca de 500 — galáxias de galáxias — unidas pela gravidade e, não raro, interpenetrando-se sem que jamais ocorra colisão, uma vez que as suas componentes estão separadas entre si por trilhões de quilômetros. Os astrônomos calculam que cerca de 1 bilhão de galáxias se encontram ao alcance dos nossos maiores telescópios, apresentando 3 tipos: Galáxias espirais (80%) Galáxias elípticas (17%) e Galáxias irregulares 3%).
Não foi senão a partir do início deste século que o foco da Astronomia se deslocou dos planetas para as estrelas e só nos últimos 40 anos ele passou a abranger as galáxias do espaço externo. Portanto, é certo que os conceitos da moderna Astronomia não eram conhecidos dos nossos avós. Então, resulta evidente que os princípios aceitos como verdade ha 100 ou 200 anos não são os mesmos princípios agora  reconhecidos como firmemente ancorados nos conhecimentos científicos.
Ora, até 100 ou 200 anos o homem se acreditava o centro do Universo, compenetrado da sua magnificência como o “Rei da Criação”. Para ele, a Terra fora criada no ano 4004 antes de Cristo, o homem formado de barro e os astros fincados como luzeiros no céu apenas para lhe proporcionar luz e deleite. Se a Terra era plana, com o céu por cima e o inferno por baixo, foi até lógica a teoria de que o Criador viesse encarnar neste mísero planeta, para salvar a Humanidade condenada pelo pecado de Adão. Ora, que o Onipotente tenha o poder de fazê-lo; quem duvida? Mas em face da lógica e com os conhecimentos científicos de que hoje dispomos, não se configura demasiado pretensiosa essa teoria?
Se Deus nunca teve princípio, é perfeitamente razoável admitir que Ele venha criando de toda a eternidade. Quantos milhões de sistemas não foram atraves de milênios sem fim, elaborados pelo seu pensamento criador? E com tantos e tantos bilhões de planetas espalhados pela imensidão do Espaço quantos não haverá palpitantes de vida com humanidades em diferentes estagios de evolução muitas delas sem dúvida mais adiantadas que a nossa? Vejamos como idealiza o caso o eminente cientista CHARLES RICHET:
“Sei que no espaço infinito milhões de planetas giram ao redor de outros tantos sóis. Conheço um desses planetas, a Terra, e vejo que é habitado por seres inteligentes. Como poderei adimitir que só ele goza essa vantagem? (se é vantagem). Eis aqui um saco contendo 1 milhão de bolas cujas cores ignoro. Tiro uma ao acaso e vejo que é vermelha. Sera lógico supor que entre as 999.999 restantes não haja mais nenhuma dessa cor?” (“ A Grande Esperança”, 2ª ed. Lake, 1976, pg. 19).
E aqui cabe a grande indagação: Por que teria o Criador do Universo de punir o “pecado” cometido pelo mais ignorante dos seres, no mais rudimentar dos mundos? Porque teria o próprio Deus de descer de sua glória para encarnar num orbe tão desprezível, a fim de, com o seu próprio sangue, “ resgatar” os “erros” de criaturas tão frágeis? Desculpem os irmãos, mas não tem lógica!
Tal idéia poderia ter sido, não diremos razoável, mas pelo menos compreensível, em épocas passadas, ao tempo em que se acreditava a Terra o centro do Universo e os seus habitantes a obra máxima do Criador; mas nos termos da Cosmogonia atual, convenhamos em que certas doutrinas estão a exigir urgente revisão, para que não resulte deslustrada a inteligência dos seus profitentes.
E é bom que essa revisão se faça logo, porque se a qualquer momento os contatos imediatos do terceiro grau comprovarem aquilo que todos já intimamente admitimos, ou seja, a existência de outras humanidades com outros tipos de civilização, como é que vão expliçar essas complicada teorias do pecado original da encarnação do Deus-Filho em nosso planeta?
Mas este é apenas um dos aspectos do problema da divindade de Cristo. Existem vários outros, que examinaremos em seguida.

Jesus

Segundo o Novo Testamento, Jesus nasceu em Belém, uma cidadezinha localizada oito quilômetros ao sul de Jerusalém, filho do carpinteiro José e de uma jovem chamada Maria, que o concebeu sem macular sua virgindade. Os evangelhos de Lucas e Mateus afirmam que Jesus nasceu "perto do fim do reino de Herodes". O texto de Lucas afirma que a anunciação aconteceu em Nazaré, onde José e Maria viviam, mas eles foram obrigados a viajar até Belém pelo censo "ordenado quando Quirino era governador da Síria".
Hoje, o que se sabe de concreto sobre Jesus é que ele nasceu na Palestina, provavelmente no ano 6 a.C., ao final do reinado de Herodes Antibas (que acabou em 4 a.C.). A diferença entre o nascimento real de Jesus e o ano zero do calendário cristão se deve a um erro de cálculo. No século VI, quando a Igreja resolveu reformular o calendário, o monge incumbido de fazer os cálculos cometeu um erro. Além disso, é praticamente certo que Jesus nasceu em Nazaré e não em Belém. A explicação que o texto de Lucas dá para a viagem de Jesus até Belém seria falsa. Os registros romanos mostram que Quirino (aquele que teria feito o censo que obrigou a viagem a Belém) só assumiu no ano 6 d.C. - 12 anos depois do ano de nascimento de Jesus. A história da viagem a Belém foi criada porque a tradição judaica considerava essa cidade o berço do rei David - e o messias deveria ser da linhagem do primeiro rei dos judeus.
A concepção imaculada de Maria é um dos dogmas mais rígidos da Igreja, mas nem sempre foi um consenso entre os cristãos. Alguns textos apócrifos dos séculos II e III sugerem que Jesus é fruto de uma relação de Maria com um soldado romano. A menina Maria teria 12 anos quando concebeu Jesus. Na rígida tradição judaica, uma mulher que engravidasse assim poderia ser condenada à morte por apedrejamento. O velho carpinteiro José, provavelmente querendo poupar a menina, casou-se com ela e escondeu sua gravidez até o nascimento do bebê. A data de 25 de dezembro não está na Bíblia. É uma criação também do século VI, quando o calendário foi alterado.
A Bíblia afirma que Jesus teve duas irmãs e quatro irmãos: Tiago, Judas, José e Simão. Mas não se sabe se esses eram filhos de Maria ou de um primeiro casamento de José. Muitos teólogos afirmam que eles eram, na verdade, primos de Jesus - em aramaico, irmão e primo são a mesma palavra. A Bíblia não fala quase nada sobre a infância e a adolescência de Jesus, com exceção de uma passagem em que, aos 12 anos, numa visita ao Templo de Jerusalém durante a Páscoa, seus pais o encontram discutindo teologia com os sábios nas escadarias do templo do monte. É quase certo, porém, que ele cresceu em Nazaré.
Jesus falava certamente o aramaico, a língua corrente da Palestina e, provavelmente, entendia o hebreu por ter tomado lições na sinagoga e por ler a Torá. Os evangelhos apócrifos o pintam como um menino Jesus travesso, capaz de dar vida a figuras de barro para impressionar os colegas e até mesmo a fulminar um menino que esbarrou em seu ombro, para ressuscitá-lo logo em seguida, depois de tomar uma bronca do pai.
Certamente José procurou iniciá-lo na arte da carpintaria e é provável que Jesus tenha trabalhado como carpinteiro durante um bom tempo. Oportunidade não lhe faltou. Escavações recentes revelaram que ao mesmo tempo em que Jesus crescia em Nazaré, bem próximo era construída a monumental cidade de Séfores, idealizada por Herodes Antibas para ser a capital da Galiléia. Séfores estava a uma hora a pé de Nazaré e é muito provável que José e Jesus tenham trabalhado ali. Em Séfores Jesus teria visto a passagem da família real de Herodes Antibas e a opulência das famílias de sacerdotes do Templo de Jerusalém. O fato de Jesus ter passado boa parte da sua vida ao lado de Séfores indicaria que ele não era um camponês rústico como já se pensou, mas tinha contato com a cultura do mundo helênico.
Aos 30 anos, Jesus se fez batizar por João Batista nas margens do rio Jordão. Segundo a Bíblia, durante o batismo João reconhece Jesus como o messias. Há registros históricos da existência de João Batista e, recentemente, arqueólogos encontraram entre o monte Nebo e Jericó, nas margens do rio Jordão, ruínas de um antigo local de peregrinação por volta do século III d.C.
Decidido a cumprir sua missão na terra, Jesus dirigiu-se então para a Galiléia, onde recrutou seus primeiros discípulos entre os pescadores do lago Tiberíades. Passou a viver com seus primeiros seguidores em Cafarnaum, cidade de pescadores próxima do lago de Tiberíades. Por dois anos Jesus pregou pela Galiléia, Judéia e em Jerusalém, proferindo sermões e contando parábolas. Segundo a Bíblia, realizou 31 milagres, incluindo 17 curas e seis exorcismos. Alguns dos mais famosos são a ressurreição de Lázaro, a transformação de água em vinho e a multiplicação dos peixes.
Cafarnaum, onde Jesus teria vivido com seus discípulos, era um povoado de cerca de 1 500 moradores naquela época. Escavações encontraram os restos da casa de um dos discípulos, provavelmente de Simão Pedro (hoje conhecido como São Pedro), além de um barco datado da mesma época da passagem de Cristo pelo lugar. Não há, porém, certeza quanto ao número de discípulos que viviam próximos de Jesus. Nos evangelhos, apenas os oito primeiros conferem - os quatro últimos têm muitas variações. A hipótese mais provável é que o número "redondo" de 12 discípulos foi uma invenção posterior para espelhar, no Novo Testamento, as 12 tribos dos hebreus descritas no Velho Testamento.
Depois de viajar por quase toda a Palestina, Jesus parte para cumprir seu destino - ou, segundo alguns especialistas, seu plano. Durante a semana da Páscoa, o principal evento religioso do calendário judeu, Jesus entra em Jerusalém montado num burro e atravessando a Porta Maravilhosa. Esse foi, certamente, um ato deliberado de provocação aos sacerdotes do Templo e à elite judaica. Jesus faz exatamente o que o profeta Zacarias afirmava na Torá que o messias faria ao chegar. Jesus estava mandando uma mensagem de provocação aos sacerdotes do Templo. No segundo dia da Páscoa, Jesus vai ao Templo e ataca os mercadores e cambistas raivosamente.
Na quinta-feira, percebendo que o cerco apertava, os apóstolos celebram com Jesus a última ceia. A imagem que ficou dessa cena, gravada por Da Vinci e outros pintores, nada tem de verdadeiro. Os judeus comiam deitados de flanco, como os romanos, e as mesas eram ordenadas em formato de U e não dispostas numa linha reta. Durante a ceia, Judas levanta-se para trair seu mestre - ou, como alguns sugerem, para cumprir uma ordem dada pelo próprio Jesus. A captura acontece no Jardim do Getsêmani, onde Jesus e seus discípulos descansavam no caminho para Betânia, onde ficariam hospedados.
Levado para o Sinédrio, o Conselho dos Sacerdotes do Templo, Jesus reafirma sua missão divina e é condenado. Existem provas da denúncia de Caifás a Pilatos. Estudiosos judeus afirmam, porém, que o julgamento perante o Sinédrio jamais ocorreu porque o Sinédrio não se reunia durante a Páscoa. Essa versão teria sido incluída tardiamente na Bíblia após a ruptura definitiva entre cristãos e judeus. Jesus foi morto pelos romanos porque era considerado um agitador político.
Na manhã de sexta-feira, na residência do prefeito Pôncio Pilatos, Jesus é condenado à morte. Ele atravessa as ruas de Jerusalém carregando sua própria cruz e é crucificado entre dois ladrões. O caminho que Jesus percorreu nada tem a ver com a Via Crúcis visitada pelos turistas hoje. Ela é uma criação do século XIV, quando a cidade esteve nas mãos dos cavaleiros cruzados. A maioria dos historiadores e arqueólogos concorda, porém, que o morro do Calvário (Gólgota), localizado ao lado de uma pedreira, foi realmente o lugar da crucificação. Concordam também que seu corpo tenha sido colocado numa das grutas próximas. O que aconteceu então depende da fé de cada um. Há varias versões: que Jesus teria sobrevivido ao martírio, que outra pessoa teria morrido em seu lugar, que seu corpo teria sido roubado ou, claro, que ele teria ressuscitado.

A Bíblia Passada a Limpo

Descobertas recentes da arqueologia indicam que a maior parte das escrituras sagradas não passam de lenda
por Vinícius Romanini
Para a Revista SuperInteressante
A disputa entre ciência e religião pela posse da verdade é antiga. No Ocidente, começou no século XVI, quando Galileu defendeu a tese de que a Terra não era o centro do Universo. Essa primeira batalha foi vencida pela Igreja, que obrigou Galileu a negar suas idéias para não ser queimado vivo. Mas o futuro dessa disputa seria diferente: pouco a pouco, a religião perdeu a autoridade para explicar o mundo. Quando, no século XIX, Darwin lançou sua teoria sobre a evolução das espécies, contra a idéia da criação divina, o fosso entre ciência e religião já era intransponível. Nas últimas décadas, a Bíblia passou a ser alvo de ciências como a filologia (o estudo da língua e dos documentos escritos), a arqueologia e a história. E o que os cientistas estão provando é que o livro mais importante da história é, em sua maior parte, uma coleção de mitos, lendas e propaganda religiosa.
Primeiro livro impresso por Guttemberg, no século XV, e o mais vendido da história, a Bíblia reúne escritos fundamentais para as três grandes religiões monoteístas - Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Na verdade, a Bíblia é uma biblioteca de 73 livros escritos em momentos históricos diferentes. O Velho Testamento, aceito como sagrado por judeus, cristãos e muçulmanos, é composto de 46 livros que pretendem resumir a história do povo hebreu desde o suposto chamamento de Abraão por Deus, que teria ocorrido por volta de 1850 a.C., até a conquista da Palestina pelos exércitos de Alexandre Magno e as revoltas do povo judeu contra o domínio grego, por volta de 300 a.C. Os 27 livros do Novo Testamento abarcam um período bem menor: cerca de 70 anos que vão do nascimento de Jesus à destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C.
O coração do Velho Testamento são os primeiros cinco livros, que compõem a Torá do Judaísmo (a palavra significa "lei", em hebraico). Em grego, o conjunto desses livros recebeu o nome de Pentateuco ("cinco livros"). São considerados os textos "históricos" da Bíblia, porque pretendem contar o que ocorreu desde o início dos tempos, inclusive a criação do homem - que, segundo alguns teólogos, teria ocorrido em 5000 a.C. O Pentateuco inclui o Gênesis (o "livro das origens", que narra a criação do mundo e do homem até o dilúvio universal), o Êxodo (que narra a saída dos judeus do Egito sob a liderança de Moisés) e os Números (que contam a longa travessia dos judeus pelo deserto até a chegada a Canaã, a terra prometida).
Das três ciências que estudam a Bíblia, a arqueologia tem se mostrado a mais promissora. "Ela é a única que fornece dados novos", diz o arqueólogo israelense Israel Finkelstein, diretor do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv e autor do livro The Bible Unearthed (A Bíblia desenterrada, inédito no Brasil), publicado no ano passado. A obra causou um choque em estudiosos de arqueologia bíblica, porque reduz os relatos do Antigo Testamento a uma coleção de lendas inventadas a partir do século VII a.C.
O Gênesis, por exemplo, é visto como uma epopéia literária. O mesmo vale para as conquistas de David e as descrições do império de Salomão.
A ciência também analisa os textos do Novo Testamento, embora o campo de batalha aqui esteja muito mais na filologia. A arqueologia, nesse caso, serve mais para compor um cenário para os fatos do que para resolver contendas entre as várias teorias. O núcleo central do Novo Testamento são os quatro evangelhos. A palavra evangelho significa "boa nova" e a intenção desses textos é clara: propagandear o Cristianismo. Três deles (Mateus, Marcos e Lucas) são chamados sinóticos, o que pode ser traduzido como "com o mesmo ponto de vista". Eles contam a mesma história, o que seria uma prova de que os fatos realmente aconteceram. Não é tão simples. O problema central do Novo Testamento é que seus textos não foram escritos pelos evangelistas em pessoa, como muita gente supõe, mas por seus seguidores, entre os anos 60 e 70, décadas depois da morte de Jesus, quando as versões estavam contaminadas pela fé e por disputas religiosas.
Nessa época, os cristãos estavam sendo perseguidos e mortos pelos romanos, e alguns dos primeiros apóstolos, depois de se separarem para levar a "boa nova" ao resto do mundo, estavam velhos e doentes. Havia, portanto, o perigo de que a mensagem cristã caísse no esquecimento se não fosse colocada no papel. Marcos foi o primeiro a fazer isso, e seus textos serviram de base para os relatos de Mateus e Lucas, que aproveitaram para tirar do texto anterior algumas situações que lhes pareceram heresias. "Em Marcos, Jesus é uma figura estranha que precisa fazer rituais de magia para conseguir um milagre", afirma o historiador e arqueólogo André Chevitarese.
Para tentar enxergar o personagem histórico de Jesus através das camadas de traduções e das inúmeras deturpações aplicadas ao Novo Testamento, os pesquisadores voltaram-se para os textos que a Igreja repudiou nos primeiros séculos do Cristianismo. Ignorados, alguns desapareceram. Mas os fragmentos que nos chegaram tiveram menos intervenções da Igreja ao longo desses 2 000 anos. Parte desses evangelhos, chamados "apócrifos" (não se sabe ao certo quem os escreveu), fazem parte de uma biblioteca cristã do século IV descoberta em 1945 em cavernas do Egito. Os evangelhos estavam escritos em língua copta (povo do Egito).
O fato de esses textos terem sido comprovadamente escritos nos primeiros séculos da era cristã não quer dizer que eles sejam mais autênticos ou contenham mais verdades que os relatos que chegaram até nós como oficiais. Pelo contrário, até. Os coptas, que fundariam a Igreja cristã etíope, foram considerados hereges, porque não aceitavam a dupla natureza de Jesus (humana e divina). Para eles, Jesus era apenas divino e os textos apócrifos coptas defendem essa versão. Mesmo assim, eles trazem pistas para elucidar os fatos históricos.
A tentativa de entender o Jesus histórico buscando relacioná-lo a uma ou outra corrente religiosa judaica também foi infrutífera, como ficou demonstrado no final da tradução dos pergaminhos do Mar Morto, anunciada recentemente. Esses papéis, achados por acaso em cavernas próximas do Mar Morto, em 1947, criaram a expectativa de que pudesse haver uma ligação entre Jesus e os essênios, uma corrente religiosa asceta, cujos adeptos viviam isolados em comunidades purificando-se à espera do messias. O fim das traduções indica que não há qualquer ligação direta entre Jesus e os essênios, a não ser a revolta comum contra a dominação romana.
O resultado é que, depois de dois milênios, parece impossível separar o verdadeiro do falso no Novo Testamento. O pesquisador Paul Johnson, autor de A História do Cristianismo, afirma que, se extrairmos, de tudo o que já se escreveu sobre Jesus, só o que tem coerência histórica e é consenso, restará um acontecimento quase desprovido de significado. "Esse 'Jesus residual' contava histórias, emitiu uma série de ditos sábios, foi executado em circunstâncias pouco claras e passou a ser, depois, celebrado em cerimônia por seus seguidores."
O que sabemos com certeza é que Jesus foi um judeu sectário, um agitador político que ameaçava levantar os dois milhões de judeus da Palestina contra o exército de ocupação romano. Tudo o mais que se diz dele precisa da fé para ser tomado como verdade. Assim como aconteceu com Moisés, David e Salomão do Velho Testamento, a figura de Jesus sumiu na névoa religiosa.

domingo, 21 de novembro de 2010

As Penas Eternas



Pretendemos agora mostrar aos nossos irmãos protestantes porque não podemos aceitar a idéia das penas eternas, tal como é ensinada pelos ramos ortodoxos do Cristianismo. Pedimos que nos sigam em nosso arrazoado com muita compreensão e sensibilidade, uma vez que vamos ingressar numa área que não deve ser desbravada apenas com a razão, mas sobretudo com o coração, Reflete-se com a mente, mas sente-se por um complexo de impulsos íntimos da alma a que vulgarmente se chama coração. Então temos de manter abertas as portas da percepção, mas também, e principalmente, as da intuição.
Diz a Psicologia que a percepção é a projeção na consciência de um fato externo focalizado pela atenção; e que a intuição é uma forma de percepção que não passa pelo raciocínio. Como esta última definição nada define, tentaremos aproximar-nos do sentido real dizendo que a intuição é a captação de um fenômeno pelo inconsciente sem prévio trânsito pelas vias da reflexão. Na verdade, quantos e quão valiosos conhecimentos nos chegam pelas veredas intuitivas se nos pomos em sintonia com suas fontes eternas!...
Assim, pedimos aos queridos irmãos que nos acompanhem nesta jornada meditando sobre certas verdades constantes da Bíblia e que não foram escritas apenas como meros conceitos filosóficos, mas como ensinamentos reais, destinados a mudar o comportamento dos homens quando estes atingirem o estágio intelectual e moral necessário para compreendê-los e assimilá-los.
Deus é amor (1º João 4:16) e esse amor se reflete na atração universal que interliga todas as coisas, desde os elétrons em seu giro no interior do átomo, até as galáxias com seus imensos campos gravitacionais através do espaço infinito. E esta concepção não parece envolver nenhum laivo de “panteísmo” pois a lógica e a razão nos dizem que o pensamentoCriador atua sem cessar em todos os quadrantes do Universo e, afinal, como disse o apóstolo Paulo: “Nele vivemos e nos movemos e existimos” (Atos 17:28). Com esse mesmo pensamento assim se exprimiu o grande poeta Guerra Junqueiro no seu inspirado poema “O Melro”:

“Tudo o que existe é imaculado e é santo,
há em toda miséria o mesmo pranto
e em todo coração um grito igual.
Deus semeou d’almas o universo todo,
tudo o que vive e ri e canta e chora,
tudo foi feito com o mesmo lodo,
purificado com a mesma aurora.
Oh! mistério sagrado da existência,
só hoje eu te adivinho,
ao ver que a alma tem a mesma essência,
pela dor, pelo amor, pela inocência,
quer guarde um berço, quer proteja um ninho.
Só hoje eu sei que em toda criatura,
desde a mais bela até a mais impura,
ou numa pomba ou numa fera brava,
Deus habita, Deus sonha, Deus murmura.
Ah! Deus é bem maior do que eu julgava!...

Que lemos na Bíblia? “Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da Verdade”. (1º Tim. 2:3/4). Ora, o que Deus quer, fatalmente se realiza, porque a Sua Vontade é suprema, não está sujeita às contingências próprias da vontade humana. Eu posso “querer”, mas de quantas coisas depende a realização da minha vontade! Assim, o meu “querer” não passa de um “desejo” nem sempre realizável, porque sujeito às limitações inerentes à minha imperfeição. Mas a vontade de Deus é causa geradora porquanto Ele é infinito em todos os seus atributos, do contrário não seria perfeito. Portanto, é inadmissível a mais leve restrição à sua soberana vontade, daí o afirmarmos que tudo o que Ele quer necessariamente acontece.
Se Deus é amor, os Espíritos saídos de suas mãos onipotentes são fruto desse trabalho de amor, sendo criados ignorantes e naturalmente imperfeitos, a fim de que, através das experiências da vida, possam elevar-se gradualmente em conhecimento e virtude, para retornarem afinal ao seio do Criador e participarem da Sua glória, no concerto dos Espíritos Puros. Quer Ele transmita o sopro da vida a cada novo ser no instante da concepção (ou no período entre a concepção e o nascimento), como pensam os irmãos evangélicos, quer essa criação tenha sido bem mais remota, como entendemos nós, no que todos concordamos é que saímos das mãos do nosso Pai Celestial envoltos na auréola do Seu amor infinito, pois se “Deus é amor”, tudo o que sai das Suas mãos é produto desse amor, que extravasa em catadupas de luz através da eternidade dos tempos e da imensidão dos espaços.
Se esse é o quadro que nos pintam a imaginação e a esperança - e não podemos concebê-lo de outra forma - é lícito concluir que esse Ente de afeição e de bondade só pode criar as almas para fazê-las felizes e para que um dia participem da Sua glória, de modo algum para torná-las desgraçadas, ou para as condenar a sofrimentos eternos. Portanto, não nos parece lógico supor que esse Pai amoroso, sendo onisciente, e pois conhecendo de antemão o destino das almas por Ele criadas, sabendo que, segundo a ortodoxia cristã, a esmagadora maioria delas será fatalmente condenada à perdição eterna, mesmo assim continue gerando criaturas tão frágeis, tão suscetíveis de sucumbir às tentações, quando lhe seria mais fácil, uma vez que é onipotente, fazê-las mais perfeitas, ou pelo menos mais resistentes ao mal.
Daí o não aceitarmos, nós espíritas, a doutrina das “penas eternas”, visto nos parecer incompatível com a suprema bondade e a suprema justiça, qualidades excelsas e essenciais do nosso Criador e Pai.
Alega-se em defesa da eternidade das penas que a gravidade da falta é diretamente proporcional à importância da pessoa ofendida, e que assim uma ofensa dirigida a um ser infinito como Deus seria também infinita, implicando uma punição igualmente infinita. Mas esse argumento é especioso, porque sendo o homem um ser finito, de modo algum poderia cometer urna ofensa infinita, de sorte que a ofensa não guarda relação com a pessoa do ofendido, mas com a capacidade do ofensor. Nas próprias normas do nosso Direito Penal (arts. 22 a 24), observa-se a “inimputabilida” do delinqüente por circunstâncias de idade, perturbação de sentidos ou alienação mental. Perguntamos: Pode alguém de bom senso e no pleno domínio das suas faculdades sentir-se ofendido pelas diatribes que lhe dirija um ébrio ou um alienado mental? Pode um adulto consciente sentir-se atingido pelas injúrias que lhe dirija uma criança de tenra idade? Não existe aí uma tal desproporção de maturidade intelectual suficiente para elidir qualquer possibilidade de agravo? E não é infinitamente maior a desproporção que existe entre o Ser Supremo e a minha insignificante pessoà, de que a existente entre mim e uma criancinha que mal começa a ensaiar seus próprios passos? Então como posso eu, Espírito imperfeito, assim criado por Ele e que mal engatinha em sua peregrinação pelos caminhos do aperfeiçoamento moral, como posso ofender o Todo Poderoso ao ponto de merecer uma condenação a penas severas e inextinguíveis, por deslizes resultantes da imperfeição inerente à minha própria natureza humana? Não estaria aí a severidade da pena em brutal desproporção com a gravidade da falta?
E o pior é que, enquanto Jesus nos veio ensinar a amar os nossos inimigos, a perdoar indefinidamente as ofensas, a ver no Pai Celestial um ser compassivo e misericordioso, sempre pronto a acolher um filho que se transvia (ver parábola do Filho Pródigo), esse Deus que a ortodoxia cristã nos impinge é de uma severidade extrema, cominando penas que nenhum tribunal humano subscreveria, e ainda por cima irremissíveis, de nada adiantando, após a morte, o arrependimento dos por essa forma condenados...
Ora, nós sabemos que a experiência na carne, por prolongada que seja, não passa de um instante fugaz em face da eternidade. Então temos de forçosamente concluir que a condenação a uma eternidade de sofrimentos por faltas cometidas durante tão breve tempo, não se coaduna com a idéia de um Deus justo, misericordioso e infinitamente bom. E se Deus perdoa ao culpado que se arrepende de seus erros no curso da vida terrena, por que não poderá fazê-lo em relação aos que se arrependem depois da morte? De que serviria, então a “pregação do Evangelho aos mortos”, a que alude o apóstolo Pedro em sua epístola? (1. Pedro 4:6). Pergunta-se: Depois da morte o ser conserva a sua individualidade ou não? Pode pensar, sentir, raciocinar? Pode arrepender-se de seus erros? Se se arrepende, por que não pode ser perdoado? Que Deus misericordioso é esse, que só perdoa as faltas de seus filhos durante a vida terrena, que é um átimo, e não perdoa durante a vida espiritual, que dura a eternidade? Se Deus criou os homens para a Sua glória (Isaías 43:7), por que condenará a penas eternas aqueles que o invocarem? (Joel 2:32). Onde estão os fundamentos da idéia de que Deus só atende aos pecadores durante a vida corpórea? Como entender “a minha ira não durará eternamente” (Jer. 3:12), se as almas são condenadas pela eternidade? Como pode alguém “amar a Deus sobre todas as coisas” (Deut. 6:5), se entender que esse Deus é um tirano, que condena o pecador a penas eternas e não lhe perdoará após a morte, por mais que se arrependa? Um tal Deus não poderia ser amado, mas apenas temido (Salmo 89:7).
O próprio Jesus foi pregar aos Espíritos em prisão (1º Pedro 3:19). Por que foi Ele pregar, se os mortos não se arrependem? Observe-se que não se trata da expressão “mortos em delitos e pecados”, pois logo o versículo seguinte esclarece: “Os quais noutro tempo foram desobedientes, quando a longanimidade de Deus esperava, nos dias de Noé”. Portanto, Espíritos que haviam vivido na Terra ao tempo de Noé e a quem Deus concedeu nova oportunidade, através da pregação de Jesus. E se o destino dos mortos é irremissível, por que se batizavam por eles os primitivos cristãos? (1º Cor. 15:29). Vejamos de que forma falou sobre o assunto o teólogo anglicano W. WALKER:
“Orações em favor dos mortos, em geral, e memoriais na forma de ofertas efetuadas nos aniversários do seu passamento, eram comuns já no começo do século II.” (“História da Igreja Cristã”, pg. 125).
“Quanto ao batismo, instituição anterior ao Cristianismo, embora Paulo não o considerasse absolutamente necessário à salvação (1. Cor. 1:14-17), seu conceito aproximava-se da noção de iniciação esposada pelas religiões de mistério. Seus conversos em Conoto, pelo menos, tinham uma concepção quase mágica do rito, deixando-se batizar em lugar de seus amigos já falecidos, a fim de que os benefícios do rito alcançassem a estes.” (1. Cor. 15:29) (lbd., pg. 127).
Se Deus é onipotente e onipresente não pode deixar de ver o que se passa em todos os recantos do infinito Universo e, portanto, também o sofrimento dos condenados no inferno. E se fica assistindo ao sofrimento dos infelizes por Ele mesmo criados, a clamarem por perdão num arrependimento inútil, e não se comove ante esse espetáculo dantesco, esse Deus é de uma insensibilidade espantosa que nenhum ser humano, por empedernido que fosse, seria capaz de manter.
Digam-nos, em sã consciência, é concebível que o Deus cujo ensinamento ministrado aos homens, através de Jesus, foi o de amar até mesmo aos inimigos e perdoar indefinidamente as ofensas, é concebível que esse Deus mande os homens fazerem isso, e não seja Ele mesmo capaz de perdoar, nem capaz de acolher o clamor de pecadores arrependidos? Uro Deus que assim exerce contra criaturas por Ele mesmo geradas uma vingança infinita, é um ser infinitamente vingativo, e, portanto, não bondoso nem misericordioso, e Conseqüentemente não é Deus. Pelo menos não aquele “Deus de Amor” revelado aos homens por Jesus.
Só há uma conclusão a tirar, e é que os homens continuam idealizando Deus à sua própria imagem e semelhança, atribuindo-lhe as suas próprias qualidades e todos os seus defeitos. Entendemos que é impiedade pensar em Deus nestes termos, principalmente em face dos ensinamentos tão claros ministrados pelo Cristo.
Mas ainda não é tudo: Qual será a situação das almas dos justos conduzidas à bem-aventuras eterna? Perdem completamente a lembrança daqueles com quem conviveram em sua existência terrena, ou conservam viva a memória dos que foram aqui seus pais, seus filhos, seus irmãos, seus amigos? Se esquecem tudo, de que serviram os laços de família, as relações de amizade, os vínculos de amor que aqui constituíram? Ficará tudo isso perdido para sempre? Mas se conservam a Lembrança, a situação ficará infinitamente pior: Como podem eles gozar de felicidade perfeita sabendo que entes queridos estão a padece tormentos infindáveis? Como pode uma mãe gozar a felicidade dos justos, tendo consciência de que um filho muito amado jamais poderá compartilhar da sua ventura no céu, porque foi condenado a sofrer eternamente no inferno?
Eis porque nós, espíritas, não podemos aceitar a doutrina das penas eternas, porque ela não se coaduna com a idéia de um Deus justo e misericordioso. Aí estão dois atributos aparentemente conflitantes. Como pode Deus ser justo e ao mesmo tempo misericordioso? E que sendo justo Ele não deixa sem punição nenhuma ofensa, como não deixa sem recompensa nenhum ato meritório. E sendo misericordioso, não deixa que seus filhos sofram pela eternidade. Acreditamos que Ele é inflexível para com o pecador endurecido, mas sempre pronto a acolher os que a qualquer tempo se arrependam e implorem o perdão de suas faltas. A Justiça Divina se faz sentir dando ao penitente novas oportunidades de reparar os erros praticados, de refazer suas experiências, de ressarcir as ofensas e prejuízos que tenha causado ao seu próximo. Para as almas saídas das mãos do Criador há sempre uma esperança, não mais a terrível inscrição imaginada por Dante no pórtico do inferno: “Lasciate ogni spranza voi ch’entrate!”, porque Deus é Pai e Ele quer que todos os homens se salvem e o que Ele, quer, já o dissemos, infalivelmente acontece.
Mas há ainda outro ponto a considerar: Se nos parece absurda a condenação a penas eternas por faltas cometidas como resultado das imperfeições inerentes à alma humana, ou, não raro, por influência do próprio meio em que cada um viveu sua experiência terrena, o que poderíamos dizer da tese abraçada por nossos irmãos evangélicos, que condicionam a perdição eterna, não a tais ou quais ofensas perpetradas durante a vida, mas ao simples fato de não aceitarem a mediação de Jesus nos termos em que é pregada pela ortodoxia cristã?
Não é preciso que nos venham citar os inúmeros versículos em que o Mestre e seus apóstolos afirmaram que todo aquele que nele cresse teria a vida eterna. Gostaríamos apenas de perguntar: Em que consiste exatamente “crer em Jesus”? Para nós, é acolher no coração os seus ensinamentos e passar a viver de acordo com os seus preceitos. E o que foi, realmente, que Ele ensinou? Quais os preceitos que ministrou? Ensinou a amar até mesmo aos inimigos, a perdoar e esquecer as ofensas, a extirpar do coração o egoísmo e o orgulho, a fazer aos outros o que queremos que eles nos façam, a sempre retribuir o mal com o bem, a socorrer os irmãos em suas necessidades sem visar a qualquer recompensa, enfim, a compreender, servir e perdoar, perdoar indefinidamente.
Até mesmo na parábola das ovelhas e dos bodes, a que se refêre o evangelista Mateus (25:31-45), Jesus colocou como condição única da salvação a prática do amor nas relações com o próximo. Quem observar esse preceito terá o reino de Deus no coração, e quando cada ser humano se compenetrar desta verdade e promover sua reforma íntima, a Humanidade inteira estará reformada e o reino do céu se instalará na Terra.
Chegaremos um dia a esse glorioso evento? Chegaremos sim, sem a menor dúvida, porque a semente do Evangelho não foi plantada em vão e se aparentemente demora em germinar, é que dois ou três milênios nada são diante da Eternidade.. . Pergunta-se, então: Serão os seres daqueles tempos futuros mais privilegiados que os da época atual e todos os seus predecessores? De modo agum, pois essa Humanidade será a mesma de hoje e de ontem, “porque somos de ontem e o ignoramos” (Jó 8:9); é a mesma Humanidade que vai aprendendo e se aprimorando em sucessivas e proveitosas experiências, através de lutas e de sofrimentos, caindo e se reerguendo, purgando suas faltas, resgatando seus erros, vai aos poucos assimilando os divinos ensinamentos, crescendo em conhecimento (progresso intelectual) e em virtude (progresso moral) até um dia atingir a perfeição dos Espíritos Puros, irmanando-se ao Cristo e integrando-se ao Pai.
Dizei-nos: Não é muito mais lógica e muito mais blime essa perspectiva do que a doutrina que supõe:
“um pequeno número de “eleitos” entregues à contemplação perpétua, enquanto a maioria das criaturas é condenada a sofrimentos sem fim no inferno? Como é pungente, para os corações amorosos, a barreira que ela coloca entre os vivos e os mortos! As a[mas felizes, dizem, só pensam na sua felicidade e aquelas que são infelizes somente nas suas penas. É de admirar que o egoísmo reine sobre a Terra, quando no-lo mostram no próprio céu? Como, pois, é estreita a idéia que ela nos oferece da grandeza, do poder e da bondade de Deus!” (KARDEC, em “O Céu e o Inferno”, 2ª ed. LAKE, pg. 38).
Acreditamos haver demonstrado que a doutrina das penas eternas não condiz com a idéia que fazemos de Deus, aliás expressamente ensinada por Jesus: a de um Pai de amor e de misericórdia. Contudo, os nossos irmãos evangélicos se apegam demasiadamente à letra da Escritura e gostam de repisar expressões como “fogo eterno”, “geena de fogo”, etc., como prova de eternidade das penas. Basta consultar um dicionário qualquer, para verificar que.a palavra “eterno” comporta várias acepções, significando não somente “aquilo que não tem fim”, como também “algo de duração imprecisa”, ou “aquilo de que não se conhece o termo”. Alguns exegetas chegam a distinguir “eternidade” de “eviternidade”, conceito este peculiar à contingência humana, designativo de “um tempo indefinido” ou “um tempo cujo limite se desconhece”.
Assim foi, por exemplo, a “aliança eterna” estabelecida por Deus para a casa de Davi (2º Sam. 23:5), assim foi com os Levitas escolhidos “para servirem perpetua. mente” ao Senhor (1.8 Crôn. 15:2). É certo que Jesus disse: “Ide, malditos, para o fogo eterno”, mas não disse: “Ide e queimai eternamente”, porque ainda que o fogo queimasse pela eternidade, isso não implicaria que o condenado ali devesse permanecer para todo o sempre. O fato de que sempre haverá prisões não quer dizer que um prisioneiro deva ficar na prisão por toda a eternidade.
E por falar em prisão, consideremos o quanto a Humanidade tem progredido no que respeita à punição dos criminosos: A pena, que desde a mais remota antiguidade até os tempos recentes tinha o caráter de um castigo, hoje tem por objetivo a reintegração do desajustado ao corpo social, tanto qué nas penitenciárias já não se alude aos detentos como “condenados”, e sim como “reeducandos”. Então, perguntamos: Será a justiça terrena, que por essa forma se humaniza, considerando o criminoso como um “desajustado social”, quase sempre um produto da miséria, da falta de instrução, de condições mesológicas adversas, será essa justiça mais pêrfeita, ou mais compreensiva, do que a Justiça Divina? Lembremo-nos das palavras de Jesus: “Se vós, sendo maus sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai Celestial. . .“ (Lucas 11: 13). Enfim, tem cabimento pensar que está sujeito ao fogo do inferno até mesmo aquele que chamar o seu irmão de “tolo”? (Mateus 5:22).
Argumentam ainda os teólogos que, para entender como “duração indefinida” a expressão “suplício eterno”, é preciso atribuir idêntico sentido à expressão “vida eterna”, ambas citadas no mesmo versículo (Mat. 25:46). Ora, perguntamos: Para que cria Deus as almas, para fazê-las felizes ou desgraçadas? Acaso seria justo e bom um Deus que as criasse para submetê-las a sofrimentos eternos? Então é lógico supor que Ele as cria para a eterna felicidade e que os sofrimentos por que devem passar são necessários ao seu aperfeiçoamento e purificação. Aliás, tais sofrimentos não são impostos por Deus, mas resultam das faltas cometidas, pois o ser humano colhe aquilo que semeia e, como sabemos, “a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória”. Então, se os sofrimentos têm por objetivo o resgate das faltas, é claro que devem ser temporários desaparecendo com a reparação do mal praticado. É também claro que para um Espíríto obstinado em seus erros os sofrimentos persistirão enquanto não houver arrependimento e resgate, tendo em tal caso duração indefinida.
Diletos irmãos evangélicos: Os preconceitos enaizados em vossas mentes impedem mediteis sobre assuntos religiosos com isenção e espírito crítico. A qualquer idéia estranha aos cânones consagrados como “matéria de fé”, receais estar sendo tentados por Satanás, essa figura simbólica do mal. E no entanto, para que vos concedeu o Pai a inteligência, se nao foi para raciocinar. Por que receais sair no encalço da verdade, se o proprio Cristo disse: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”? (João 8:32).
Se os que negam a preexistência da alma ousassem refletir... Sim, porque a tendência é deixar a mente acomodada às idéias estabelecidas, é seguir as regras fixadas pelos que pensaram antes, principalmente em matéria de religião. Porque para pensar é necessário ter garra, a reflexão lógica por vezes traz perturbação, pode quebrar antigos tabus e abalar convicções tidas como “verdades” secularmente arraigadas.
Então, se ousassem pensar - mesmo dentro do seu ponto de vista ortodoxo - raciocinariam assim: “Meu Espírito foi criado por Deus no momento da concepção (ou no do nascimento, se o preferirem), criado para uma vida terrena que em certos casos pode até ser amena, mas que em geral representa um fardo pelos esforços que exige, pelas responsabilidades que envolve, pelos dissabores que acarreta durante toda a existência. Ora, eu não pedi para vir ao mundo, não fui consultado a respeito, logo a minha vida resultou de um ato de arbítrio do Criador. Ninguém perguntou se eu estava disposto a enfrentar as vicissitudes da existência. E se no curso desta eu cometer faltas graves e não dispuéerde tempo ou por qualquer circunstância não for indúzido a um arrependimento eficaz, ou, mesmo sem ter cometido tais faltas, se apenas não seguir determinadas regras religiosas, ou se a minha razão não se amoldar a certas normas tidas como verdades ou meios de salvação, ou mesmo se, simplesmente, eu não tiver sido predestinado desde a fundação do mundo para compartilhar a sorte dos eleitos, então estarei irremediavelmente condenado a sofrimentos terríveis, bem maiores que os experimentados aqui na Terra e com a agravante de, ao contrário destes, serem destinados a durar para todo o sempre! Que fiz eu para merecer tão cruel tratamento? Por empedernido delinqüente que fosse, como é possível rotular de justa uma tal punição?”
E no entanto, o quadro delineado na Bíblia não nos pinta Deus como um carrasco das suas criaturas. Desde o Velho Testamento, mas principalmente com Jesus, o nosso Criador e Pai nos é apresentado com feições inteiramente diversas. Abstraídos os rompantes de fúria do Jeová judaico, evidente concepção mosaica destinada a intimidar homens contumazes em rebeldia e desobediência, o que notamos é que Deus os castigava, mas estava sempre pronto a perdoar quando se arrependiam. Vejam-se os profetas, principalmente os maiores. Os judeus tinham noção muito vaga da sobrevivência, se é que tinham alguma, por isso as punições e recompensas eram todas na existência terrena. Jesus trouxe a revelação da vida espiritual e com ela a noção grandiosa de Deus em toda a sua plenitude de amor. Vejamos se as seguintes passagens roboram a esdrúxula idéia da punição eterna:
Salmo       22:27 - “Toda a terra se converterá ao Senhor e todas as n  ações adorará a sua face.”
Isaías        49:15 - “Acaso pode uma mulher se esquecer do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho de suas entranhas? Pois ainda que ela viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti.”
54: 7 - “Por um momento te desamparei, mas tornarei a acolher-te com grande misericórdia.”
55: 7 -      “Deixe o perverso o seu caminho, e volte-se para Deus, que é rico em perdoar.”
66:13 - “Como alguém a quem a sua mãe consola, eu vos consolarei.
Jerem.      29:13 - “Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de coração.
     31: 3 - “Com amor eterno te amei, por isso compadecido de ti te atraí a mim.”
31:34 - “Porque todos me conhecerão, desde o menor até o maior, per doare as maldades de todos e não me lembrarei mais dos seus pecados.”
Ezeq.        33:11 - “Juro pela minha vida, diz o Se nhor que não quero a morte do ímpio, mas que ele se converta e viva”
Miquéas   7:18 - “O Senhor não retém a sua ira para sempre, porque tem pra ze na misericórdia.”
Joel          2:32 - “Porque todo aquele que invo ca o nome do Senhor, será salvo.
Mateus     6:14 - “Se perdoardes aos homens as e 15 suas ofensas, também o vosso Pai Celestial perdoará vossas ofensas.”
     7:11 - “Pois se vós sendo maus sa bei dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai Celestial dará boas coisas aos que as pedirem.”
     10:29 e 31 -     “Nenhum passarinho cairá em terra, sem a vontade do vosso Pai (...); não temais, pois, mais valeis vós do que muitos passarinhos.”
     18:14 -            “Não é da vontade do vosso Pai que nenhum destes pequeninos se perca.”
Lucas       6:35 - “Amai vossos inimigos (...) e sereis filhos do Altíssimo, o qual é benigno até para os in grato e maus.”
     15: 7 e 10- “Digo-vos que haverá mais alegria. no céu por um pecador que se arrepende, do que por 99 justos que não necessitam de arrependimento.”
Atos         17:30 - “Mas Deus (...) anuncia agora a todos os homens e em todo lugar que se arrependam.”
Romanos  2:11 - “Porque para com Deus não há acepção de pessoas.”
10:13 - “Porque todo aquele que invoca o nome do Senhor, será salvo.
11:32 - “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para usar de misericórdia para com todos.”
Efésios     2:4 - “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo muito amor com que nos amou...”
1ª Tim.     2: 4 - “Deus quer que todos os mens se salvem e venham conhecimento da verdade.”4:10 -             “Porque temos posto a nossa esperança no Deus vivo, salva do de todos os homens.”
Tito          2:11 - “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo a salvação a todos os homens.”
2ª Pedro   3: 9 - “Ele (o Senhor) é longânimo pa r convosco, não querendo que nenhum se perca, mas que to do cheguem ao arrependimento.”
1ª João     4:16 - “Deus é amor; e quem está em amor, está em Deus e Deus nele.”
E para concluir, perguntamos: Acaso a parábola do “credor incompassivo” (Mat. 18:34) não depõe contra a eternidade das penas? “O seu Senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo quanto devia”, limitando, pois, a punição ao tempo suficiente para o ressarcimento do dano.
Vários dos chamados “Pais da Igreja” não admitiam a idéia das penas eternas. “Parecia-lhes”, afirma Voltaire, “absurdo queimar durante a eternidade um pobre homem por haver furtado uma cabra.” Vejamos o que disseram alguns deles:
São Jerônimo, tradutor da “Vulgata Latina”:
“Muitos sustentam que os tormentos terão um fim, mas no momento isso não deve ser dito àqueles para os quais o temor é útil, a fim de que, pelo terror dos suplícios, cessem de pecar.” (“Obras de S. Jerônimo”, Ed. Bened. III, col. 514). Clemente de Alexandria:
“O Cristo Salvador opera finalmente a salvação de todos, e não apenas a de alguns privilegiados. O soberano Mestre tudo dispôs, quer em seu conjunto, quer em seus detalhes, para que fosse atingido esse fim definitivo.” (Cit. por MÁRIO CAVALCANTI DE MELLO, em “Como os Teólogos Refutam”, pg. 230).
São Gregório de Nicéia:
“Quando Deus faz sofrer o pecador, não é por espírito de ódio ou de vingança; quer conduzir a alma a Ele, que é a fonte de toda felicidade. O fogo da purificação não dura mais que um tempo conveniente e o único fim de Deus é fazer definitivamente participarem todos os homens dos bens que constituem a sua essência.” (lbid. pg. 230).
Na mesma obra o autor MÁRIO C. MELLO cita eminentes figuras dos tempos modernos que se têm insurgido contra a noção das penas eternas. Por exemplo:
“O teólogo calvinista PETIT PIERRE pregou e escreveu que os condenados teriam um dia a sua graça, o seu perdão. Impuseram-lhe a retratação das suas teorias, mas ele recusou e foi deposto pelos seus colegas da igreja de Nuchatel” (pg. 226).
“O célebre escritor italiano Giovanni Papini em seu último livro pretende que Deus, em sua infinita bondade, perdoará um dia ao diabo. Mas logo se levantou a Igreja de Roma, para exigir do ilustre escritor uma retratação. Para a Igreja dita cristã Deus é bom apenas teoricamente, só sabe dar bons conselhos, pois recomenda a. seus filhos, pela boca de Jesus, perdoar as ofensas setenta vezes sete vezes e não nos dá o exemplo perdoando a vermes como nós.” (Pg. 228).
Para concluir, deixamos à meditação dos leitores algumas indagações que, embora repetindo conceitos já anteriormente expendidos, servirão para fixar os pontos que consideramos de maior relevância em nossa argumentação:
1 - Se Deus é infinito em todas as suas perfeições, é também infinitamente justo. Então, por que predestina Ele algumas almas à eterna bem-aventurança e outras à eterna condenação? Onde a infinita Justiça?
2 - Se Ele é infinito em todas as suas perfeições, como onisciente tem conhecimento prévio do destino das almas que vai criando, e como presciente sabe que a maior parte delas será condenada à perdição eterna. Por que, mesmo assim, Ele continua criando? Onde a infinita Bondade?
3 - Se Ele é infinito em todas as suas perfeições, é também onipresente. Logo, tanto está no céu, contemplando a felicidade dos eleitos, como no inferno, contemplando o sofrimento dos condenados. E como pode ficar insensível a esse sofrimento por toda a eternidade? Onde a infinita misericórdia?
4 - Se um pecador pode se arrepender dos seus erros durante a vida terrena, por que não poderá fazê-lo após a morte? Não vemos nenhuma razão lógica para que não o possa. Então, por que Deüs, que mandou que perdoemos indefinidamente aos que nos ofendem, e que é tão compassivo para com os que ainda se encontram no plano físico, é tão inflexível com os que já deixaram a Terra? Será a justiça humana mais eqüânime do que a justiça divina?
5 - Como explicar a condenação da Humanidade inteira pelo erro de um só homem, se Deus disse por Ezequiel: “O filho não pagará pela maldade do pai, nem o pai pela maldade do filho; a alma que pecar, éssa morrerá”? (Ezeq. 18:20). E como pode o sangue de um justo apagar os pecados de todo o gênero humano?
6 - Que adianta ter fé, se a fé independe da vontade do homem, e não resulta das obras, por ser “um dom de Deus”, e se nem sequer é necessária, uma vez que a salvação é privilégio exclusivo de alguns “eleitos”?
7 - Se as almas salvas na beatitude do céu conservam a lembrança dos que foram seus parentes e amigos na existência terrena, como poderão ter felicidade plena sabendo que entes queridos estão sofrendo tormentos sem fim no inferno? Como pode uma mãe carinhosa, que se sacrificou por um filho rebelde, desfrutar a bem-aventurança eterna, sabendo que um filho estremecido se consome em sofrimentos por toda a eternidade?

A Divindade e a História

Já vimos que não aparece no Novo Testamento nenhuma proclamação taxativa da divindade de Jesus, no sentido que lhe deu o Concílio de Nicéa, de “consubstacial com o Pai de toda a eternidade” certo que a idéia aparece difusa no Evangelho de João, mas este só apareceu 60 anos depois da morte do Mestre, quando a Cristologia (interpretação teológico da figura do Cristo) já se achava impregnada do neoplatonismo com a sua noção do “Logos”.
Agora vejamos em linhas gerais como se chegou a concretizar a idéia da divindade, que era totalmente desconhecida nos primitivos tempos do Cristianismo. Toda gente sabe que na decisão de Nicéia (325 dc.) predominou a vontade do imperador Constantino, que, egresso do paganismo estava ainda bem longe de poder ser considerado Cristão, tanto que continuou como pontífice da antiga religião e só veio a receber o batismo quando se achava à morte, no ano 337.
Mas não cometeremos a injustiça de atribuir aquela decisão unicamente ao arbítrio do Imperador, pois a História registra que as controvérsias reinavam ferozes desde o início do segundo século, e ameaçavam dividir a Igreja, de sorte que a influência autoritária de Constantino pode ter tido o propósito de evitar a cisão do Cristianismo, o que, todavia, conforme veremos, não foi conseguido no Concílio de Nicéa e nem nos subseqüentes.
Vejamos os esclarecimentos que nos podem trazer protestantes sobre a controvertida questão da divindade de Cristo:
“Os chamados Pais da Igreja entendiam Jesus como o revelador divino do conhecimento do verdadeiro Deus e arauto de uma “nova lei” de moralidade simples, elevada e severa” (WILLISTON WALKER, em “História da Igreja Cristã”, 2ª ed., pg. 62).
“Inácio (bispo de Antioquia de 110 a 117), professava o mesmo tipo elevado de cristologia evidenciada nos documentos joaninos. O sacrifício de Cristo é o “sangue de Deus”. Saúda os cristãos romanos em “Jesus Cristo, nosso Deus” e no entanto não chega a identificar exatamente Cristo com o Pai. Cristo, escreve ele, realmente é da estirpe de Davi segundo a carne, Filho de Deus por vontade e poder de Deus.” (Idem, pg. 61).
“Juliano (Contra Christianos, apud Cirilo de Alexandria, op. IX, 326ss): “Mas, infortunadamente não sois fiéis às vocações apostólicas; estas, em mãos de seus sucessores, tornaram-se em máxima blasfêmia. Nem Paulo, nem Mateus, nem Lucas ou Marcos ousaram afirmar que Jesus é Deus. Foi o venerável João quem, constatando que um grande número de habitantes das cidades gregas e italianas eram vítimas de epidemias e ouvindo, imagino, que as tumbas de Pedro e Paulo se tornavam objeto de culto, João, repito, foi o primeiro a ousar tal afirmativa.” (H. BETTENSON em “Documentos da Igreja Cristã”, pg. 50).
“Tertuliano (150/225) distinguia entre os elementos divino e humano em Cristo. Derivados do Pai por emanação, o Filho e o Espírito são subordinados a Ele. A doutrina da subordinação, já presente nos Apologistas, viria a ser característica da cristologia do “Logos” até o tempo de Agostinho.” (W. WALKER, em “História da Igreja Cristã”, pg 99).
“Para Paulo de Samósata, bispo de Antióquia entre 260 e 272, Jesus era um homem considerado único por causa do seu nascimento virginal, além de cheio do poder de Deus, isto é, o “Logos” de Deus. Mediante essa inspiração Jesus era unido a Deus por amor, em vontade, mas não em substância.” (WALKER, ibd. pg. 102).
“Para Ário (presbítero de Alexandria) Jesus não era da mesma substância do Pai, tendo sido tirado do “nada”, como as demais criaturas. Não era, por conseguínte, eterno, embora o primeiro entre as criaturas e agente na criação deste mundo. Cristo era na verdade Deus em outro sentido, mas um Deus inferior, de modo algum uno com o Pai em essência e eternidade. Seu Opositor foi o bispo Alexandre, para quem o Filho “era eterno, da mesma substância do Pai, e absolutamente increado” Ele convocou um Sínodo em Alexandria (cerca de 321), Sínodo esse que lançou condenação sobre Ario e Seus seguidor” (WALKER ibd., pgs. 155/156).
“A disputa dividiu a Igreja e causou perturbação à ordem pública. Então o Imperador convocou o Concílio de Nicéia, ao qual compareceram cerca de 300 bispos, só 6 do Ocidente. Depois de acirradas discussões o Imperador, desejando que se chegasse a uma expressão unificada da fé, forçou a definição de Nícéia. Sob sua supervisão, todos os bispos a subscreveram com exceção de dois que, juntamente com Ario, foram banidos pelo imperador.” (WALKER ibd., pg. 158) (grifos nossos). “Na realidade as decisões de Nicéa foram fruto de uma minoria. Foram mal entendidas e até rejeitadas por muitos que não eram partidários de Ario. Posteriormente 90 bispos elaboraram Outro credo (o “Credo da Dedicação”) em 341, para substituir o de Nicéia. (...) E em 357, um Concílio em Smirna adotou um credo autenticamente ariano.” (H. BTTENSON em “Documentos da Igreja Cristã”, pg. 74 e 76).
“Passando em revista essa longa controvérsia, é de afirmar-se ter sido uma infelicidade o fato de uma frase menos controvertida não ter sido adotada em Nicéia, e infelicidade ainda maior a circunstância de a interferência imperial se constituir fator tão importante no correr das ulteriores discussões. Em meio a essa luta surgiu a igreja imperial e se desenvolveu plenamente a política de interferência imperial. A rejeição da ortodoxia oficial erigira-se em crime.” (WALKER, ibd., pg. 171).
“Logo que Constantino se constituiu patrono do Cristianismo, este se tornou uma religião eivada de heresias e de inovações.” (...) A maioria dos que entravam para a Igreja, era realmente pagã, gente de vida reprovável. Era assim natural que aparecesse uma queda do nível moral do caráter cristão.” (ROBERT HASTINGS NICHOLS, em “História da Igreja Cristã”, ed. Casa Editora Presbiteriana, 1978, pgs. 44 e 46).
“A quéstão da divindade de Cristo tendo sido vitoriosa, a discussão voltou-se para a relação entre a sua natureza divina e a humana Foram tremendas as divergências de opinião, que chegaram a provocar divisões na Igreja.” (NICHOLS, ibd., pg. 48), (Grifo nosso).
“As grandes verdades que são vitais à fé cristã, como as da encarnação e da Trindade, foram examinadas e expressas pela Igreja nessa “Era dos Concílios”. Tais decisões têm sido desde então aceitas pela cristandade. Ao lado dessa vitória, surgiu um prejuízo em virtude da tendência de se pensar que a coisa mais importante era defender e guardar as definições corretas da verdade cristã. A prova da fé cristã de uma pessoa não era tanto a sua lealdade a Cristo, em espírito e pelo comportamento moral, senão a sua aquiescência ao que a Igreja declarava a doutrina correta, isto é, a sua ortodoxia. Aquele que não fosse considerado ortodoxo, era expulso como herege, embora a sua vida fosse um testemunho contínuo de lealdade ao Cristo.” (NICHOLS, ibd., pgs. 48 e 49).
Em todos os tempos muitos cristãos se insurgiram contra a idéia da divindade que, como vimos, não encontra apoio nem na Escritura, nem na razão. Mas o “sistema” ortodoxo que detinha o poder sempre tratou de sufocar todas as tentativas de contestação. Submetemos atenção dos leitores mais alguns excertos da obra “História da Igreja Cristã”, do teólogo WALKER, que o comprovam:
“Com as tendências racionalizadoras do século XVIII, as idéias antitrinitárias, que viam na moralidade a essência da religião, foram grandemente fortalecidas. Tais idéias eram representadas no continente europeu por anabatistas e socinianos. Em 1575 foram queimados “batistas arianos” nos Países Baixos e em 1612 foram queimados os últimos ingleses por motivo de fé. Em 1717 alguns pastores presbiterianos tomaram posição entre a ortodoxia e o arianismo.” (Pg. 594).
“Em 1774 o clérigo Lindsay se retirou da Igreja Anglicana e fundou em Londres uma Igreja Unitária. Em 1813 o Parlamento Britânico extinguiu as penas contra os negadores da Trindade. Este antigo unitarismo inglês era claro em sua negativa dos “credos feitos pelos homens” e na insistência da salvação pelo caráter.” (Pg. 595).
“No século XIX surgiu o liberalismo eclesiástico, COLERIDGE (1772/1834) foi o precursor e J. F. D. MAURICE (1805/1872) o impulsionador do pensamento liberal. Para ele, “Cristo é o cabeça de toda a humanidade, ninguém está sob a maldição de Deus e ninguém se perderá para sempre.” O número dos liberais não era grande, mas sua influência sobre o pensamento religioso inglês foi enorme.” (Pg. 661).
“Ao dealbar do século XX os liberais haviam conquistado um lugar em muitas denominações. Nas primeiras décadas os conservadores tudo fizeram para expulsá-los, através de amarga controvérsia fundamentalista-modernista.” (Pg. 687).
A luta ainda continua no seio das igrejas cristãs. Em 1977 sete teólogos ingleses (seis, anglicanos e um da Igreja Reformada Unida) publicaram um livro (“O Mito do Deus Encarnado”) em que consideram a crença na divindade “um meio poético ou mitológico de expressar a significação de Cristo para nós, não a verdade literal.” (“TIME” de 15-8-77). O livro tem despertado fortes polêmicas, e é bom que assim seja, a fim de que as consciências acomodadas despertem do seu torpor.

A Divindade e a Bíblia


Jesus nunca afirmou que era Deus, ninguém encontrará no evangelho uma só palavra sua em tal sentido. O título que Ele habitualmente se atribuía era o de “Filho do Homem”, que figura 80 vezes nos Evangelhos (30 no de Mateus, 14 no de Marcos, 26 no de Lucas e 10 no de João). Poucas vezes, e em geral de forma indireta, Ele se autodenominou “Filho de Deus”, título este que os discípulos, outras pessoas e até Espíritos impuros às vezes lhe atribuíam. É de notar que ser “filho de Deus” não é ser Deus, como se infere de João 1:12: “A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.”
Os teólogos costumam apresentar como prova da sua divindade a frase “Eu e o Pai somos um” (João 10:30), se atentar para o fato de que logo adiante Ele incluiu na mesma categoria os apóstolos, quando afirmou: “Pai Santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós” (Jo. 17:11) e “para que também eles sejam um em nós” (Jo, 17:21).
Cumpre ter em vista, outrossim, que no mesmo episódio acima citado, quando os judeus o acusaram de “se fazer Deus a si mesmo” (João 10:33), Ele encerrou a discussão afirmando: “Se a própria lei chamou deuses aqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida, como dizeis que blasfema aquele que o Pai santificou e enviou ao mundo, porque diz: “Sou filho de Deus”? (João 10:36).
Em vários outros trechos Ele se proclamou um “enviado de Deus” (João 4:34, 5:24, 6:29; 6:44; 7:29; 8:26; 12:45, 17:3) e chegou a afirmar: “Porque eu desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a daquele que me enviou” (João 6:38). claro que um enviado é sempre inferior àquele que o envia. Ele se atribuiu também vários outros títulos, como sejam os de Filho, de “Mestre e Senhor”, de “Luz do Mundo”, de “Bom Pastor”, etc., mas é claro que nenhuma dessas expressões implica a pretensão de se fazer divino. Como um enviado de Deus para pregar aos homens a Verdade, Ele foi um instrumento, um meio, um caminho para se chegar a Deus, foi verdadeiramente o “pão da vida” que a Humanidade esperava para saciar sua fome espiritual.
Se João 14:9 parece roborar a idéia da divindade, logo no v.10 Jesus esclarece que faz as obras porque o Pai permanece nele e no v.12 aduz que os que cressem fariam obras até maiores, mostrando que a ação divina se patenteava nas obras de todos os que cressem, nada havendo na passagem que justifique a noção de que Jesus se reputava Deus.
Outro trecho que se supõe confirmar a doutrina da Trindade é o de 1º João 5:7/8, mas aí a interpolação é tão evidente que a própria “Bíblia de Jerusalém” (editada com aprovação eclesiástica) o resume com estas palavras: “Porque três são os que testemunham: O Espírito, a água e o sangue”, aduzindo em nota de rodapé que as frases restantes ‘não constam dos antigos manuscritos, nem das antigas versões, nem dos melhores manuscritos da Vulgata, parecendo ser uma glosa marginal introduzida posteriormente.” (N.T., 6ª ed. pág. 649 (grifo nosso).
Paulo nunca chamou Jesus de Deus, embora pregasse a unidade de caráter entre ambos. Segundo o teólogo anglicano WILLISTON WALKER “a tradução de Rom. 9:5 não deve ser considerada paulina” (“Hist. da Igr. Cristã”, 2ª ed. pg. 56). O mesmo se pode dizer de Tito 2:13, “do qual não é possível uma interpretação segura”, segundo o teólogo KARL SCHELKLE, em sua “Teologia do Novo Testamento”, ed. Loyola, pg. 218.
O que se observa através da História, é uma tendência para considerar “deuses” aqueles que se destacam dos homens comuns por sua sabedoria, sua autoridade ou sua superioridade moral. Em Êxodo 7:1 lemos que “Jeová fez de Moisés um deus diante do Faraó”. Os próprios apóstolos, em certas ocasiões, foram tidos por deuses (Atos 14:11, 28:6). Veja-se também 1º Cor. 8:5.
“No mundo antigo havia muitos filhos de deuses. No Oriente antigo os reis eram tidos como gerados pelos deuses. Na mitologia grega os deuses geram filhos com mulheres humanas. Em Roma os imperadores eram divinizados depois de sua morte. Gênios que superavam a média humana (políticos, filósofos) eram venerados como divinos, ou filhos de Deus. O sentimento antigo percebia no extraordinário e imenso a revelação do divino. Além disso a Estoa ensinava, em outro sentido, a filiação divina de todos os homens” (Epicteto 1, 3, 1). A história das religiões acha que esta mentalidade antiga contribuiu para que Jesus fosse venerado como Filho de Deus.” (KARL H. SCHELKLE, em “Teologia do Novo Testamento”, ed. Loyola, 1978, pg. 205).
Neste sentido, ninguém mais do que Jesus merece para nós o título de Deus, como o reconheceu o apóstolo Tomé (João 20:28). Ele foi, com efeito, a mais perfeita das criaturas que jamais pisaram neste planeta, nele se manifestou “corporalmente toda a plenitude da divindade” (Col. 2:9), pois em nenhum outro homem se apresentaram mais excelsas a sabedoria e a virtude. Mas foi precisamente isso, uma criatura de Deus que atingiu a máxima perfeição, ao ponto de gozar de íntima comunhão com Deus, daí o ter dito: “Quem me vê a mim, vê também o Pai” e “O Pai está em mim e eu no Pai” (João 14:9,10) e “Glorifica-me, Pai, com a glória que eu tinha contigo antes que houvesse mundo” (João 17:5). Mas Ele também disse: “Eu rogarei ao Pai” (João 14:16 e 16:26) e o que roga evidentemente é inferior ao rogado. Ele também afirmou: “O Pai é maior do que eu” (João 14:28).
Ora, raciocinemos: Se Deus vem criando de toda a eternidade (e nem se conceberia um Deus inativo), é natural que os Espíritos criados no que para nós pode ser definido como o “princípio dos tempos”, ou seja, há milhões e milhões de anos, todos eles, ou quase todos, já devem ter atingido o grau máximo da perfeição, situando- se na categoria dos “Espíritos Puros”, em gozo de plena comunhão com o Criador. Eles são, portanto, os colaboradores na obra de Deus, os seus auxiliares diretos, aqueles que tanto no Velho como no Novo Testamento (e por que não nos tempos atuais?) são chamados de ANJOS. A unidade na criação é a característica do nosso Pai e só ela pode espelhar sua infinita Justiça. Seria admissível que Ele criasse os anjos como entes privilegiados, saídos de Suas mãos como criaturas já perfeitas, enquanto os Espíritos humanos saem simples e ignorantes, fadados a sofrer vicissitudes sem conta, para um dia poderem alcançar a bem-aventurança eterna? Se um anjo disse a João: “Não te ajoelhes, pois eu sou conservo teu e de teus irmãos, os profetas” (Apoc. 22:9), não foi por saber que a origem de todos os seres é a mesma?
E para encerrar estas considerações, indagamos: Acaso não parece muito mais grandiosa a figura de Jesus como um ser humano que, por se haver elevado ao ápice do aprimoramento espiritual, pode apresentarse aos nossos olhos como um modelo da perfeição a que todos aspiramos e que um dia, com a graça do Pai, haveremos de também alcançar? Pois se assim não fosse, por que teria Ele afirmado: “Dei-vos o exemplo para que, como eu voz fiz, assim o façais vós também”? (João 13:15).
Então, fique bem claro o nosso pensamento, segundo o qual, sendo Jesus um Espírito gerado em eras inimagináveis, e que por isso mesmo já fruia da comunhão com o Pai “antes que houvesse mundo” (João 17:5), tendo sido Ele, por certo, um dos planejadores e fundadores deste Planeta, tanto que é o seu Governador Espiritual e até chegou ao extremo de imolar-se para fazer progredir a Humanidade, o abismo que nos separa da sua excelsa perfeição é tão imenso que para nós Ele certamente é Deus, mas isto porque, sendo também uma criatura de Deus, “o primogênito de todas as criaturas” (Col. 1:15), logo “criatura” e não “criador”, pode apresentar-se como nosso modelo e nosso exemplo pelo fato de haver atingido a suma perfeição, e não porque seja “ingerado, consubstancial com Deus de toda a eternidade”, como decretou o Concílio de Nicéia no ano 325 da nossa Era.
Diz HERCULANO PIRES que:
a Igreja adotou o “credo quia absurdum”, como forma típica de coação psicológica. E a divindade de Jesus tornou-se origem de perseguições, torturas, maldições e mortes horripilantes. GANDHI, que não era cristão, após ler o Sermão da Montanha, perguntou a um missionário inglês como se explicava a contradição entre os frutos do Cristianismo em seu país e a árvore espiritual do Evangelho.(“Revisão do Cristianismo”, pg. 95).

sábado, 20 de novembro de 2010

A Dinvidade de Jesus — A Divindade e a Lógica

Iniciaremos com uma breve digressão sobre Astronomia, assunto decerto já bem conhecido dos leitores, mas que servirá para lembrar-lhes a exata posição no Cosmos, do homem e do minúsculo planeta que ele habita. Cingimo-nos, nesta parte, a um interessante trabalho divulgado pela extinta revista “LIFE” há mais de 20 anos, alguns de cujos conceitos, portanto, poderão já ter sido modificados.
Como a Terra tem 12.756 km de diâmetro equatorial e dista em média 150 milhões de km do Sol, as dimensões do nosso sistema planetário podem à primeira vista parecer estupendas, principalmente se considerarmos que o planeta mais distante do Sol, Plutão, dista deste cerca de 6 bilhões de quilômetros. Mas o nosso Sol, embora com um volume 1,3 milhões de vezes maior que o da Terra, não passa de uma estrela de tamanho médio. Se o imaginarmos como uma bola de 15 cm. de diâmetro, a Terra distaria dele uns 17 metros e o planeta Plutão cerca de 1 km. Pois bem, as estrelas mais próximas ficariam a 5 mil km e mesmo estas são consideradas vizinhas do Sistema Solar, tal a vastidão do Espaço.
Em noite clara podem ser vistas a olho nu cerca de 6 mil estrelas, metade em cada hemisfério. Com um pequeno telescópio distinguem-se mais de 2 milhões, enquanto o grande telescópio do Monte Palomar permite captar a luz de bilhões. À distância parecem formar verdadeiros aglomerados porém na realidade brilham como luzeiros solitários, separados por milhões de quilômetros quais naves a flutuar num oceano vazio.
As dimensões do Universo são tão vastas que não podem ser medidas pelos meios comuns, por isso recorre-se a uma unidade especial, que é o “ano-luz”. Aliás, é bom lembrar que todas as medidas do tempo vêm do espaço, sendo na realidade dimensões espaciais. Por exemplo: O que chamamos “uma hora” é, com efeito, um arco de 15 graus na rotação diária, aparente, da esfera celestial. Então, o “ano-luz” é o espaço percorrido pela luz no tempo de um ano. Sabendo-se que a velocidade da luz é de cerca de 300 mil km por segundo, segue-se que o “ano-luz” corresponde a quase 10 trilhões de quilômetros. Pois bem: enquanto o Sol está apenas a 8,2 “minutos-luz” da Terra, a mais próxima estrela (Alfa, do Centáuro) fica a 4,4 anos-luz da Terra, a gigante vermelha Betelgeuse (da constelação de Orion) a 300 “anos-luz” e a gigante azul Riegel (também de Orion) leva 540 anos para alcançar nossos olhos.
Vejamos outro aspecto dessa desconcertante noção de “espaço-tempo”: Quando olhamos para o céu em uma noite estrelada, na realidade estamos olhando “para trás no tempo”. Vemos a luz de estrelas como elas eram há milhares, talvez milhões de anos. Certamente nenhuma delas está mais nos pontos onde as vemos, algumas podem até ter sido totalmente extintas. Mesmo a mais próxima de nós (Alfa, do Centáuro), não a vemos como é hoje e sim como era há pouco mais de 4 anos. O que realmente vemos é o fantasma de uma estrela que emitia luz há 4 anos; se ela continua, ou não, brilhando agora, só poderemos saber dentro de mais 4 anos. Então, para descrever a posição de uma galáxia, não basta fixá-la nas três dimensões do espaço, mas também numa de tempo. Daí o dizer-se que o Universo é quadridimensional sendo a 4ª dimensão o tempo.
Mas todas essas estrelas a que nos reportamos até agora podem ser consideradas vizinhas próximas, e suas distâncias equiparam-se a centímetros, quando medidas em escala cósmica. Foi só nas últimas décadas que se percebeu que o nosso Sistema Solar é apenas uma unidade infinitesimal na borda externa de uma galáxia a que denominamos “Via Láctea”. E esta mesma não passa de uma unidade num aglomerado de galáxias ligadas pela gravitação, movendo-se ininterruptamente através do Espaço.
Essa faixa luminosa que avistamos em noites claras cortando o firmamento de norte a sul, só em tempos recentes veio a ser conhecida pelo que de fato é: um estupendo caudal de campos estelares integrando a parte visível da galáxia em que se move o nosso Sistema Solar. A dificuldade em apreender a estrutura da “Via Láctea”, é que nos achamos “dentro dela”. Só nos últimos tempos os astrônomos puderam cientificamente estabelecer que o que vemos da “Via láctea” é apenas parte do arco interno de um colossal aglomerado de estrelas, em forma de disco, similar às galáxias do espaço externo, O nosso planeta está situado a 30 mil “anos-luz” do centro da galáxia, e dele podemos divisar apenas uma pequena fração dos bilhões de estrelas que ela contém. O diâmetro da “Via Láctea” é de mais de 100 mil “anos-luz”, o que significa que a luz, à assombrosa velocidade de 300 mil quilômetros por segundo, leva mais de 100 mil anos para percorrer a galáxia de uma extremidade à outra.
A galáxia também gira, completando uma revolução a cada 200 milhões de anos, não apenas levando com ela o nosso Sistema Solar com velocidade superior a 1 milhão de km por hora, como arrastando um enxame externo de aglomerados estelares, cada um com centenas de milhares de estrelas, todas girando em volta do centro da galáxia.
Mas a “Via Láctea” não é senão um membro de um agregado cósmico infinitamente maior, denominado “Grupo Local”, composto por cerca de 20 sistemas galácticos unidos pela energia gravitacional e com um diâmetro de uns 3 milhões de “anos-luz”. Próximo a uma das extremidades desse super-sistema gira o luminoso disco da “Via Láctea”, enquanto na extremidade oposta viaja a grande espiral de sua galáxia-irmã, Andrômeda. O “Grupo Local” abrange também 6 pequenas galáxias elípticas e mais as informes “Nebulosas Magelânicas”, além de algumas distantes espirais, perdidas no imenso vácuo. Remotas como se encontram, estão todas unidas por uma ignota energia gravitacional e revolucionam ao redor de um eixo desconhecido, situado em alguma parte, entre a Via Láctea e Andrômeda.
Mas ainda não é tudo: Volvendo o telescópio para além das mais distantes nebulosas do Grupo Local, descobre-se um crescente número de enevoadas manchas luminosas, suspensas no Vácuo como tênues teias de aranha. São as chamadas “Galáxias Externas”, ou “Universos ilhas”, cada uma delas composta por bilhões e bilhões de estrelas, mas tão profundamente entranhadas no abismo do espaço que a luz que emitem leva milhões de anos para chegar até nós. Só no interior da Ursa Maior, fracos bruxuleios revelam uma concentração de mais de 300 galáxias. Junto dela o nosso Grupo Local seria um aglomerado anão.
Em geral as galáxias do espaço externo tendem a aglomerar-se em comunidades de cerca de 500 — galáxias de galáxias — unidas pela gravidade e, não raro, interpenetrando-se sem que jamais ocorra colisão, uma vez que as suas componentes estão separadas entre si por trilhões de quilômetros. Os astrônomos calculam que cerca de 1 bilhão de galáxias se encontram ao alcance dos nossos maiores telescópios, apresentando 3 tipos: Galáxias espirais (80%) Galáxias elípticas (17%) e Galáxias irregulares 3%).
Não foi senão a partir do início deste século que o foco da Astronomia se deslocou dos planetas para as estrelas e só nos últimos 40 anos ele passou a abranger as galáxias do espaço externo. Portanto, é certo que os conceitos da moderna Astronomia não eram conhecidos dos nossos avós. Então, resulta evidente que os princípios aceitos como verdade ha 100 ou 200 anos não são os mesmos princípios agora  reconhecidos como firmemente ancorados nos conhecimentos científicos.
Ora, até 100 ou 200 anos o homem se acreditava o centro do Universo, compenetrado da sua magnificência como o “Rei da Criação”. Para ele, a Terra fora criada no ano 4004 antes de Cristo, o homem formado de barro e os astros fincados como luzeiros no céu apenas para lhe proporcionar luz e deleite. Se a Terra era plana, com o céu por cima e o inferno por baixo, foi até lógica a teoria de que o Criador viesse encarnar neste mísero planeta, para salvar a Humanidade condenada pelo pecado de Adão. Ora, que o Onipotente tenha o poder de fazê-lo; quem duvida? Mas em face da lógica e com os conhecimentos científicos de que hoje dispomos, não se configura demasiado pretensiosa essa teoria?
Se Deus nunca teve princípio, é perfeitamente razoável admitir que Ele venha criando de toda a eternidade. Quantos milhões de sistemas não foram atraves de milênios sem fim, elaborados pelo seu pensamento criador? E com tantos e tantos bilhões de planetas espalhados pela imensidão do Espaço quantos não haverá palpitantes de vida com humanidades em diferentes estagios de evolução muitas delas sem dúvida mais adiantadas que a nossa? Vejamos como idealiza o caso o eminente cientista CHARLES RICHET:
“Sei que no espaço infinito milhões de planetas giram ao redor de outros tantos sóis. Conheço um desses planetas, a Terra, e vejo que é habitado por seres inteligentes. Como poderei adimitir que só ele goza essa vantagem? (se é vantagem). Eis aqui um saco contendo 1 milhão de bolas cujas cores ignoro. Tiro uma ao acaso e vejo que é vermelha. Sera lógico supor que entre as 999.999 restantes não haja mais nenhuma dessa cor?” (“ A Grande Esperança”, 2ª ed. Lake, 1976, pg. 19).
E aqui cabe a grande indagação: Por que teria o Criador do Universo de punir o “pecado” cometido pelo mais ignorante dos seres, no mais rudimentar dos mundos? Porque teria o próprio Deus de descer de sua glória para encarnar num orbe tão desprezível, a fim de, com o seu próprio sangue, “ resgatar” os “erros” de criaturas tão frágeis? Desculpem os irmãos, mas não tem lógica!
Tal idéia poderia ter sido, não diremos razoável, mas pelo menos compreensível, em épocas passadas, ao tempo em que se acreditava a Terra o centro do Universo e os seus habitantes a obra máxima do Criador; mas nos termos da Cosmogonia atual, convenhamos em que certas doutrinas estão a exigir urgente revisão, para que não resulte deslustrada a inteligência dos seus profitentes.
E é bom que essa revisão se faça logo, porque se a qualquer momento os contatos imediatos do terceiro grau comprovarem aquilo que todos já intimamente admitimos, ou seja, a existência de outras humanidades com outros tipos de civilização, como é que vão expliçar essas complicada teorias do pecado original da encarnação do Deus-Filho em nosso planeta?
Mas este é apenas um dos aspectos do problema da divindade de Cristo. Existem vários outros, que examinaremos em seguida.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Jesus

Segundo o Novo Testamento, Jesus nasceu em Belém, uma cidadezinha localizada oito quilômetros ao sul de Jerusalém, filho do carpinteiro José e de uma jovem chamada Maria, que o concebeu sem macular sua virgindade. Os evangelhos de Lucas e Mateus afirmam que Jesus nasceu "perto do fim do reino de Herodes". O texto de Lucas afirma que a anunciação aconteceu em Nazaré, onde José e Maria viviam, mas eles foram obrigados a viajar até Belém pelo censo "ordenado quando Quirino era governador da Síria".
Hoje, o que se sabe de concreto sobre Jesus é que ele nasceu na Palestina, provavelmente no ano 6 a.C., ao final do reinado de Herodes Antibas (que acabou em 4 a.C.). A diferença entre o nascimento real de Jesus e o ano zero do calendário cristão se deve a um erro de cálculo. No século VI, quando a Igreja resolveu reformular o calendário, o monge incumbido de fazer os cálculos cometeu um erro. Além disso, é praticamente certo que Jesus nasceu em Nazaré e não em Belém. A explicação que o texto de Lucas dá para a viagem de Jesus até Belém seria falsa. Os registros romanos mostram que Quirino (aquele que teria feito o censo que obrigou a viagem a Belém) só assumiu no ano 6 d.C. - 12 anos depois do ano de nascimento de Jesus. A história da viagem a Belém foi criada porque a tradição judaica considerava essa cidade o berço do rei David - e o messias deveria ser da linhagem do primeiro rei dos judeus.
A concepção imaculada de Maria é um dos dogmas mais rígidos da Igreja, mas nem sempre foi um consenso entre os cristãos. Alguns textos apócrifos dos séculos II e III sugerem que Jesus é fruto de uma relação de Maria com um soldado romano. A menina Maria teria 12 anos quando concebeu Jesus. Na rígida tradição judaica, uma mulher que engravidasse assim poderia ser condenada à morte por apedrejamento. O velho carpinteiro José, provavelmente querendo poupar a menina, casou-se com ela e escondeu sua gravidez até o nascimento do bebê. A data de 25 de dezembro não está na Bíblia. É uma criação também do século VI, quando o calendário foi alterado.
A Bíblia afirma que Jesus teve duas irmãs e quatro irmãos: Tiago, Judas, José e Simão. Mas não se sabe se esses eram filhos de Maria ou de um primeiro casamento de José. Muitos teólogos afirmam que eles eram, na verdade, primos de Jesus - em aramaico, irmão e primo são a mesma palavra. A Bíblia não fala quase nada sobre a infância e a adolescência de Jesus, com exceção de uma passagem em que, aos 12 anos, numa visita ao Templo de Jerusalém durante a Páscoa, seus pais o encontram discutindo teologia com os sábios nas escadarias do templo do monte. É quase certo, porém, que ele cresceu em Nazaré.
Jesus falava certamente o aramaico, a língua corrente da Palestina e, provavelmente, entendia o hebreu por ter tomado lições na sinagoga e por ler a Torá. Os evangelhos apócrifos o pintam como um menino Jesus travesso, capaz de dar vida a figuras de barro para impressionar os colegas e até mesmo a fulminar um menino que esbarrou em seu ombro, para ressuscitá-lo logo em seguida, depois de tomar uma bronca do pai.
Certamente José procurou iniciá-lo na arte da carpintaria e é provável que Jesus tenha trabalhado como carpinteiro durante um bom tempo. Oportunidade não lhe faltou. Escavações recentes revelaram que ao mesmo tempo em que Jesus crescia em Nazaré, bem próximo era construída a monumental cidade de Séfores, idealizada por Herodes Antibas para ser a capital da Galiléia. Séfores estava a uma hora a pé de Nazaré e é muito provável que José e Jesus tenham trabalhado ali. Em Séfores Jesus teria visto a passagem da família real de Herodes Antibas e a opulência das famílias de sacerdotes do Templo de Jerusalém. O fato de Jesus ter passado boa parte da sua vida ao lado de Séfores indicaria que ele não era um camponês rústico como já se pensou, mas tinha contato com a cultura do mundo helênico.
Aos 30 anos, Jesus se fez batizar por João Batista nas margens do rio Jordão. Segundo a Bíblia, durante o batismo João reconhece Jesus como o messias. Há registros históricos da existência de João Batista e, recentemente, arqueólogos encontraram entre o monte Nebo e Jericó, nas margens do rio Jordão, ruínas de um antigo local de peregrinação por volta do século III d.C.
Decidido a cumprir sua missão na terra, Jesus dirigiu-se então para a Galiléia, onde recrutou seus primeiros discípulos entre os pescadores do lago Tiberíades. Passou a viver com seus primeiros seguidores em Cafarnaum, cidade de pescadores próxima do lago de Tiberíades. Por dois anos Jesus pregou pela Galiléia, Judéia e em Jerusalém, proferindo sermões e contando parábolas. Segundo a Bíblia, realizou 31 milagres, incluindo 17 curas e seis exorcismos. Alguns dos mais famosos são a ressurreição de Lázaro, a transformação de água em vinho e a multiplicação dos peixes.
Cafarnaum, onde Jesus teria vivido com seus discípulos, era um povoado de cerca de 1 500 moradores naquela época. Escavações encontraram os restos da casa de um dos discípulos, provavelmente de Simão Pedro (hoje conhecido como São Pedro), além de um barco datado da mesma época da passagem de Cristo pelo lugar. Não há, porém, certeza quanto ao número de discípulos que viviam próximos de Jesus. Nos evangelhos, apenas os oito primeiros conferem - os quatro últimos têm muitas variações. A hipótese mais provável é que o número "redondo" de 12 discípulos foi uma invenção posterior para espelhar, no Novo Testamento, as 12 tribos dos hebreus descritas no Velho Testamento.
Depois de viajar por quase toda a Palestina, Jesus parte para cumprir seu destino - ou, segundo alguns especialistas, seu plano. Durante a semana da Páscoa, o principal evento religioso do calendário judeu, Jesus entra em Jerusalém montado num burro e atravessando a Porta Maravilhosa. Esse foi, certamente, um ato deliberado de provocação aos sacerdotes do Templo e à elite judaica. Jesus faz exatamente o que o profeta Zacarias afirmava na Torá que o messias faria ao chegar. Jesus estava mandando uma mensagem de provocação aos sacerdotes do Templo. No segundo dia da Páscoa, Jesus vai ao Templo e ataca os mercadores e cambistas raivosamente.
Na quinta-feira, percebendo que o cerco apertava, os apóstolos celebram com Jesus a última ceia. A imagem que ficou dessa cena, gravada por Da Vinci e outros pintores, nada tem de verdadeiro. Os judeus comiam deitados de flanco, como os romanos, e as mesas eram ordenadas em formato de U e não dispostas numa linha reta. Durante a ceia, Judas levanta-se para trair seu mestre - ou, como alguns sugerem, para cumprir uma ordem dada pelo próprio Jesus. A captura acontece no Jardim do Getsêmani, onde Jesus e seus discípulos descansavam no caminho para Betânia, onde ficariam hospedados.
Levado para o Sinédrio, o Conselho dos Sacerdotes do Templo, Jesus reafirma sua missão divina e é condenado. Existem provas da denúncia de Caifás a Pilatos. Estudiosos judeus afirmam, porém, que o julgamento perante o Sinédrio jamais ocorreu porque o Sinédrio não se reunia durante a Páscoa. Essa versão teria sido incluída tardiamente na Bíblia após a ruptura definitiva entre cristãos e judeus. Jesus foi morto pelos romanos porque era considerado um agitador político.
Na manhã de sexta-feira, na residência do prefeito Pôncio Pilatos, Jesus é condenado à morte. Ele atravessa as ruas de Jerusalém carregando sua própria cruz e é crucificado entre dois ladrões. O caminho que Jesus percorreu nada tem a ver com a Via Crúcis visitada pelos turistas hoje. Ela é uma criação do século XIV, quando a cidade esteve nas mãos dos cavaleiros cruzados. A maioria dos historiadores e arqueólogos concorda, porém, que o morro do Calvário (Gólgota), localizado ao lado de uma pedreira, foi realmente o lugar da crucificação. Concordam também que seu corpo tenha sido colocado numa das grutas próximas. O que aconteceu então depende da fé de cada um. Há varias versões: que Jesus teria sobrevivido ao martírio, que outra pessoa teria morrido em seu lugar, que seu corpo teria sido roubado ou, claro, que ele teria ressuscitado.

A Bíblia Passada a Limpo

Descobertas recentes da arqueologia indicam que a maior parte das escrituras sagradas não passam de lenda
por Vinícius Romanini
Para a Revista SuperInteressante
A disputa entre ciência e religião pela posse da verdade é antiga. No Ocidente, começou no século XVI, quando Galileu defendeu a tese de que a Terra não era o centro do Universo. Essa primeira batalha foi vencida pela Igreja, que obrigou Galileu a negar suas idéias para não ser queimado vivo. Mas o futuro dessa disputa seria diferente: pouco a pouco, a religião perdeu a autoridade para explicar o mundo. Quando, no século XIX, Darwin lançou sua teoria sobre a evolução das espécies, contra a idéia da criação divina, o fosso entre ciência e religião já era intransponível. Nas últimas décadas, a Bíblia passou a ser alvo de ciências como a filologia (o estudo da língua e dos documentos escritos), a arqueologia e a história. E o que os cientistas estão provando é que o livro mais importante da história é, em sua maior parte, uma coleção de mitos, lendas e propaganda religiosa.
Primeiro livro impresso por Guttemberg, no século XV, e o mais vendido da história, a Bíblia reúne escritos fundamentais para as três grandes religiões monoteístas - Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Na verdade, a Bíblia é uma biblioteca de 73 livros escritos em momentos históricos diferentes. O Velho Testamento, aceito como sagrado por judeus, cristãos e muçulmanos, é composto de 46 livros que pretendem resumir a história do povo hebreu desde o suposto chamamento de Abraão por Deus, que teria ocorrido por volta de 1850 a.C., até a conquista da Palestina pelos exércitos de Alexandre Magno e as revoltas do povo judeu contra o domínio grego, por volta de 300 a.C. Os 27 livros do Novo Testamento abarcam um período bem menor: cerca de 70 anos que vão do nascimento de Jesus à destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C.
O coração do Velho Testamento são os primeiros cinco livros, que compõem a Torá do Judaísmo (a palavra significa "lei", em hebraico). Em grego, o conjunto desses livros recebeu o nome de Pentateuco ("cinco livros"). São considerados os textos "históricos" da Bíblia, porque pretendem contar o que ocorreu desde o início dos tempos, inclusive a criação do homem - que, segundo alguns teólogos, teria ocorrido em 5000 a.C. O Pentateuco inclui o Gênesis (o "livro das origens", que narra a criação do mundo e do homem até o dilúvio universal), o Êxodo (que narra a saída dos judeus do Egito sob a liderança de Moisés) e os Números (que contam a longa travessia dos judeus pelo deserto até a chegada a Canaã, a terra prometida).
Das três ciências que estudam a Bíblia, a arqueologia tem se mostrado a mais promissora. "Ela é a única que fornece dados novos", diz o arqueólogo israelense Israel Finkelstein, diretor do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv e autor do livro The Bible Unearthed (A Bíblia desenterrada, inédito no Brasil), publicado no ano passado. A obra causou um choque em estudiosos de arqueologia bíblica, porque reduz os relatos do Antigo Testamento a uma coleção de lendas inventadas a partir do século VII a.C.
O Gênesis, por exemplo, é visto como uma epopéia literária. O mesmo vale para as conquistas de David e as descrições do império de Salomão.
A ciência também analisa os textos do Novo Testamento, embora o campo de batalha aqui esteja muito mais na filologia. A arqueologia, nesse caso, serve mais para compor um cenário para os fatos do que para resolver contendas entre as várias teorias. O núcleo central do Novo Testamento são os quatro evangelhos. A palavra evangelho significa "boa nova" e a intenção desses textos é clara: propagandear o Cristianismo. Três deles (Mateus, Marcos e Lucas) são chamados sinóticos, o que pode ser traduzido como "com o mesmo ponto de vista". Eles contam a mesma história, o que seria uma prova de que os fatos realmente aconteceram. Não é tão simples. O problema central do Novo Testamento é que seus textos não foram escritos pelos evangelistas em pessoa, como muita gente supõe, mas por seus seguidores, entre os anos 60 e 70, décadas depois da morte de Jesus, quando as versões estavam contaminadas pela fé e por disputas religiosas.
Nessa época, os cristãos estavam sendo perseguidos e mortos pelos romanos, e alguns dos primeiros apóstolos, depois de se separarem para levar a "boa nova" ao resto do mundo, estavam velhos e doentes. Havia, portanto, o perigo de que a mensagem cristã caísse no esquecimento se não fosse colocada no papel. Marcos foi o primeiro a fazer isso, e seus textos serviram de base para os relatos de Mateus e Lucas, que aproveitaram para tirar do texto anterior algumas situações que lhes pareceram heresias. "Em Marcos, Jesus é uma figura estranha que precisa fazer rituais de magia para conseguir um milagre", afirma o historiador e arqueólogo André Chevitarese.
Para tentar enxergar o personagem histórico de Jesus através das camadas de traduções e das inúmeras deturpações aplicadas ao Novo Testamento, os pesquisadores voltaram-se para os textos que a Igreja repudiou nos primeiros séculos do Cristianismo. Ignorados, alguns desapareceram. Mas os fragmentos que nos chegaram tiveram menos intervenções da Igreja ao longo desses 2 000 anos. Parte desses evangelhos, chamados "apócrifos" (não se sabe ao certo quem os escreveu), fazem parte de uma biblioteca cristã do século IV descoberta em 1945 em cavernas do Egito. Os evangelhos estavam escritos em língua copta (povo do Egito).
O fato de esses textos terem sido comprovadamente escritos nos primeiros séculos da era cristã não quer dizer que eles sejam mais autênticos ou contenham mais verdades que os relatos que chegaram até nós como oficiais. Pelo contrário, até. Os coptas, que fundariam a Igreja cristã etíope, foram considerados hereges, porque não aceitavam a dupla natureza de Jesus (humana e divina). Para eles, Jesus era apenas divino e os textos apócrifos coptas defendem essa versão. Mesmo assim, eles trazem pistas para elucidar os fatos históricos.
A tentativa de entender o Jesus histórico buscando relacioná-lo a uma ou outra corrente religiosa judaica também foi infrutífera, como ficou demonstrado no final da tradução dos pergaminhos do Mar Morto, anunciada recentemente. Esses papéis, achados por acaso em cavernas próximas do Mar Morto, em 1947, criaram a expectativa de que pudesse haver uma ligação entre Jesus e os essênios, uma corrente religiosa asceta, cujos adeptos viviam isolados em comunidades purificando-se à espera do messias. O fim das traduções indica que não há qualquer ligação direta entre Jesus e os essênios, a não ser a revolta comum contra a dominação romana.
O resultado é que, depois de dois milênios, parece impossível separar o verdadeiro do falso no Novo Testamento. O pesquisador Paul Johnson, autor de A História do Cristianismo, afirma que, se extrairmos, de tudo o que já se escreveu sobre Jesus, só o que tem coerência histórica e é consenso, restará um acontecimento quase desprovido de significado. "Esse 'Jesus residual' contava histórias, emitiu uma série de ditos sábios, foi executado em circunstâncias pouco claras e passou a ser, depois, celebrado em cerimônia por seus seguidores."
O que sabemos com certeza é que Jesus foi um judeu sectário, um agitador político que ameaçava levantar os dois milhões de judeus da Palestina contra o exército de ocupação romano. Tudo o mais que se diz dele precisa da fé para ser tomado como verdade. Assim como aconteceu com Moisés, David e Salomão do Velho Testamento, a figura de Jesus sumiu na névoa religiosa.
 
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