A Divindade e a História

Já vimos que não aparece no Novo Testamento nenhuma proclamação taxativa da divindade de Jesus, no sentido que lhe deu o Concílio de Nicéa, de “consubstacial com o Pai de toda a eternidade” certo que a idéia aparece difusa no Evangelho de João, mas este só apareceu 60 anos depois da morte do Mestre, quando a Cristologia (interpretação teológico da figura do Cristo) já se achava impregnada do neoplatonismo com a sua noção do “Logos”.
Agora vejamos em linhas gerais como se chegou a concretizar a idéia da divindade, que era totalmente desconhecida nos primitivos tempos do Cristianismo. Toda gente sabe que na decisão de Nicéia (325 dc.) predominou a vontade do imperador Constantino, que, egresso do paganismo estava ainda bem longe de poder ser considerado Cristão, tanto que continuou como pontífice da antiga religião e só veio a receber o batismo quando se achava à morte, no ano 337.
Mas não cometeremos a injustiça de atribuir aquela decisão unicamente ao arbítrio do Imperador, pois a História registra que as controvérsias reinavam ferozes desde o início do segundo século, e ameaçavam dividir a Igreja, de sorte que a influência autoritária de Constantino pode ter tido o propósito de evitar a cisão do Cristianismo, o que, todavia, conforme veremos, não foi conseguido no Concílio de Nicéa e nem nos subseqüentes.
Vejamos os esclarecimentos que nos podem trazer protestantes sobre a controvertida questão da divindade de Cristo:
“Os chamados Pais da Igreja entendiam Jesus como o revelador divino do conhecimento do verdadeiro Deus e arauto de uma “nova lei” de moralidade simples, elevada e severa” (WILLISTON WALKER, em “História da Igreja Cristã”, 2ª ed., pg. 62).
“Inácio (bispo de Antioquia de 110 a 117), professava o mesmo tipo elevado de cristologia evidenciada nos documentos joaninos. O sacrifício de Cristo é o “sangue de Deus”. Saúda os cristãos romanos em “Jesus Cristo, nosso Deus” e no entanto não chega a identificar exatamente Cristo com o Pai. Cristo, escreve ele, realmente é da estirpe de Davi segundo a carne, Filho de Deus por vontade e poder de Deus.” (Idem, pg. 61).
“Juliano (Contra Christianos, apud Cirilo de Alexandria, op. IX, 326ss): “Mas, infortunadamente não sois fiéis às vocações apostólicas; estas, em mãos de seus sucessores, tornaram-se em máxima blasfêmia. Nem Paulo, nem Mateus, nem Lucas ou Marcos ousaram afirmar que Jesus é Deus. Foi o venerável João quem, constatando que um grande número de habitantes das cidades gregas e italianas eram vítimas de epidemias e ouvindo, imagino, que as tumbas de Pedro e Paulo se tornavam objeto de culto, João, repito, foi o primeiro a ousar tal afirmativa.” (H. BETTENSON em “Documentos da Igreja Cristã”, pg. 50).
“Tertuliano (150/225) distinguia entre os elementos divino e humano em Cristo. Derivados do Pai por emanação, o Filho e o Espírito são subordinados a Ele. A doutrina da subordinação, já presente nos Apologistas, viria a ser característica da cristologia do “Logos” até o tempo de Agostinho.” (W. WALKER, em “História da Igreja Cristã”, pg 99).
“Para Paulo de Samósata, bispo de Antióquia entre 260 e 272, Jesus era um homem considerado único por causa do seu nascimento virginal, além de cheio do poder de Deus, isto é, o “Logos” de Deus. Mediante essa inspiração Jesus era unido a Deus por amor, em vontade, mas não em substância.” (WALKER, ibd. pg. 102).
“Para Ário (presbítero de Alexandria) Jesus não era da mesma substância do Pai, tendo sido tirado do “nada”, como as demais criaturas. Não era, por conseguínte, eterno, embora o primeiro entre as criaturas e agente na criação deste mundo. Cristo era na verdade Deus em outro sentido, mas um Deus inferior, de modo algum uno com o Pai em essência e eternidade. Seu Opositor foi o bispo Alexandre, para quem o Filho “era eterno, da mesma substância do Pai, e absolutamente increado” Ele convocou um Sínodo em Alexandria (cerca de 321), Sínodo esse que lançou condenação sobre Ario e Seus seguidor” (WALKER ibd., pgs. 155/156).
“A disputa dividiu a Igreja e causou perturbação à ordem pública. Então o Imperador convocou o Concílio de Nicéia, ao qual compareceram cerca de 300 bispos, só 6 do Ocidente. Depois de acirradas discussões o Imperador, desejando que se chegasse a uma expressão unificada da fé, forçou a definição de Nícéia. Sob sua supervisão, todos os bispos a subscreveram com exceção de dois que, juntamente com Ario, foram banidos pelo imperador.” (WALKER ibd., pg. 158) (grifos nossos). “Na realidade as decisões de Nicéa foram fruto de uma minoria. Foram mal entendidas e até rejeitadas por muitos que não eram partidários de Ario. Posteriormente 90 bispos elaboraram Outro credo (o “Credo da Dedicação”) em 341, para substituir o de Nicéia. (...) E em 357, um Concílio em Smirna adotou um credo autenticamente ariano.” (H. BTTENSON em “Documentos da Igreja Cristã”, pg. 74 e 76).
“Passando em revista essa longa controvérsia, é de afirmar-se ter sido uma infelicidade o fato de uma frase menos controvertida não ter sido adotada em Nicéia, e infelicidade ainda maior a circunstância de a interferência imperial se constituir fator tão importante no correr das ulteriores discussões. Em meio a essa luta surgiu a igreja imperial e se desenvolveu plenamente a política de interferência imperial. A rejeição da ortodoxia oficial erigira-se em crime.” (WALKER, ibd., pg. 171).
“Logo que Constantino se constituiu patrono do Cristianismo, este se tornou uma religião eivada de heresias e de inovações.” (...) A maioria dos que entravam para a Igreja, era realmente pagã, gente de vida reprovável. Era assim natural que aparecesse uma queda do nível moral do caráter cristão.” (ROBERT HASTINGS NICHOLS, em “História da Igreja Cristã”, ed. Casa Editora Presbiteriana, 1978, pgs. 44 e 46).
“A quéstão da divindade de Cristo tendo sido vitoriosa, a discussão voltou-se para a relação entre a sua natureza divina e a humana Foram tremendas as divergências de opinião, que chegaram a provocar divisões na Igreja.” (NICHOLS, ibd., pg. 48), (Grifo nosso).
“As grandes verdades que são vitais à fé cristã, como as da encarnação e da Trindade, foram examinadas e expressas pela Igreja nessa “Era dos Concílios”. Tais decisões têm sido desde então aceitas pela cristandade. Ao lado dessa vitória, surgiu um prejuízo em virtude da tendência de se pensar que a coisa mais importante era defender e guardar as definições corretas da verdade cristã. A prova da fé cristã de uma pessoa não era tanto a sua lealdade a Cristo, em espírito e pelo comportamento moral, senão a sua aquiescência ao que a Igreja declarava a doutrina correta, isto é, a sua ortodoxia. Aquele que não fosse considerado ortodoxo, era expulso como herege, embora a sua vida fosse um testemunho contínuo de lealdade ao Cristo.” (NICHOLS, ibd., pgs. 48 e 49).
Em todos os tempos muitos cristãos se insurgiram contra a idéia da divindade que, como vimos, não encontra apoio nem na Escritura, nem na razão. Mas o “sistema” ortodoxo que detinha o poder sempre tratou de sufocar todas as tentativas de contestação. Submetemos atenção dos leitores mais alguns excertos da obra “História da Igreja Cristã”, do teólogo WALKER, que o comprovam:
“Com as tendências racionalizadoras do século XVIII, as idéias antitrinitárias, que viam na moralidade a essência da religião, foram grandemente fortalecidas. Tais idéias eram representadas no continente europeu por anabatistas e socinianos. Em 1575 foram queimados “batistas arianos” nos Países Baixos e em 1612 foram queimados os últimos ingleses por motivo de fé. Em 1717 alguns pastores presbiterianos tomaram posição entre a ortodoxia e o arianismo.” (Pg. 594).
“Em 1774 o clérigo Lindsay se retirou da Igreja Anglicana e fundou em Londres uma Igreja Unitária. Em 1813 o Parlamento Britânico extinguiu as penas contra os negadores da Trindade. Este antigo unitarismo inglês era claro em sua negativa dos “credos feitos pelos homens” e na insistência da salvação pelo caráter.” (Pg. 595).
“No século XIX surgiu o liberalismo eclesiástico, COLERIDGE (1772/1834) foi o precursor e J. F. D. MAURICE (1805/1872) o impulsionador do pensamento liberal. Para ele, “Cristo é o cabeça de toda a humanidade, ninguém está sob a maldição de Deus e ninguém se perderá para sempre.” O número dos liberais não era grande, mas sua influência sobre o pensamento religioso inglês foi enorme.” (Pg. 661).
“Ao dealbar do século XX os liberais haviam conquistado um lugar em muitas denominações. Nas primeiras décadas os conservadores tudo fizeram para expulsá-los, através de amarga controvérsia fundamentalista-modernista.” (Pg. 687).
A luta ainda continua no seio das igrejas cristãs. Em 1977 sete teólogos ingleses (seis, anglicanos e um da Igreja Reformada Unida) publicaram um livro (“O Mito do Deus Encarnado”) em que consideram a crença na divindade “um meio poético ou mitológico de expressar a significação de Cristo para nós, não a verdade literal.” (“TIME” de 15-8-77). O livro tem despertado fortes polêmicas, e é bom que assim seja, a fim de que as consciências acomodadas despertem do seu torpor.

A Divindade e a Bíblia


Jesus nunca afirmou que era Deus, ninguém encontrará no evangelho uma só palavra sua em tal sentido. O título que Ele habitualmente se atribuía era o de “Filho do Homem”, que figura 80 vezes nos Evangelhos (30 no de Mateus, 14 no de Marcos, 26 no de Lucas e 10 no de João). Poucas vezes, e em geral de forma indireta, Ele se autodenominou “Filho de Deus”, título este que os discípulos, outras pessoas e até Espíritos impuros às vezes lhe atribuíam. É de notar que ser “filho de Deus” não é ser Deus, como se infere de João 1:12: “A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.”
Os teólogos costumam apresentar como prova da sua divindade a frase “Eu e o Pai somos um” (João 10:30), se atentar para o fato de que logo adiante Ele incluiu na mesma categoria os apóstolos, quando afirmou: “Pai Santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós” (Jo. 17:11) e “para que também eles sejam um em nós” (Jo, 17:21).
Cumpre ter em vista, outrossim, que no mesmo episódio acima citado, quando os judeus o acusaram de “se fazer Deus a si mesmo” (João 10:33), Ele encerrou a discussão afirmando: “Se a própria lei chamou deuses aqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida, como dizeis que blasfema aquele que o Pai santificou e enviou ao mundo, porque diz: “Sou filho de Deus”? (João 10:36).
Em vários outros trechos Ele se proclamou um “enviado de Deus” (João 4:34, 5:24, 6:29; 6:44; 7:29; 8:26; 12:45, 17:3) e chegou a afirmar: “Porque eu desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a daquele que me enviou” (João 6:38). claro que um enviado é sempre inferior àquele que o envia. Ele se atribuiu também vários outros títulos, como sejam os de Filho, de “Mestre e Senhor”, de “Luz do Mundo”, de “Bom Pastor”, etc., mas é claro que nenhuma dessas expressões implica a pretensão de se fazer divino. Como um enviado de Deus para pregar aos homens a Verdade, Ele foi um instrumento, um meio, um caminho para se chegar a Deus, foi verdadeiramente o “pão da vida” que a Humanidade esperava para saciar sua fome espiritual.
Se João 14:9 parece roborar a idéia da divindade, logo no v.10 Jesus esclarece que faz as obras porque o Pai permanece nele e no v.12 aduz que os que cressem fariam obras até maiores, mostrando que a ação divina se patenteava nas obras de todos os que cressem, nada havendo na passagem que justifique a noção de que Jesus se reputava Deus.
Outro trecho que se supõe confirmar a doutrina da Trindade é o de 1º João 5:7/8, mas aí a interpolação é tão evidente que a própria “Bíblia de Jerusalém” (editada com aprovação eclesiástica) o resume com estas palavras: “Porque três são os que testemunham: O Espírito, a água e o sangue”, aduzindo em nota de rodapé que as frases restantes ‘não constam dos antigos manuscritos, nem das antigas versões, nem dos melhores manuscritos da Vulgata, parecendo ser uma glosa marginal introduzida posteriormente.” (N.T., 6ª ed. pág. 649 (grifo nosso).
Paulo nunca chamou Jesus de Deus, embora pregasse a unidade de caráter entre ambos. Segundo o teólogo anglicano WILLISTON WALKER “a tradução de Rom. 9:5 não deve ser considerada paulina” (“Hist. da Igr. Cristã”, 2ª ed. pg. 56). O mesmo se pode dizer de Tito 2:13, “do qual não é possível uma interpretação segura”, segundo o teólogo KARL SCHELKLE, em sua “Teologia do Novo Testamento”, ed. Loyola, pg. 218.
O que se observa através da História, é uma tendência para considerar “deuses” aqueles que se destacam dos homens comuns por sua sabedoria, sua autoridade ou sua superioridade moral. Em Êxodo 7:1 lemos que “Jeová fez de Moisés um deus diante do Faraó”. Os próprios apóstolos, em certas ocasiões, foram tidos por deuses (Atos 14:11, 28:6). Veja-se também 1º Cor. 8:5.
“No mundo antigo havia muitos filhos de deuses. No Oriente antigo os reis eram tidos como gerados pelos deuses. Na mitologia grega os deuses geram filhos com mulheres humanas. Em Roma os imperadores eram divinizados depois de sua morte. Gênios que superavam a média humana (políticos, filósofos) eram venerados como divinos, ou filhos de Deus. O sentimento antigo percebia no extraordinário e imenso a revelação do divino. Além disso a Estoa ensinava, em outro sentido, a filiação divina de todos os homens” (Epicteto 1, 3, 1). A história das religiões acha que esta mentalidade antiga contribuiu para que Jesus fosse venerado como Filho de Deus.” (KARL H. SCHELKLE, em “Teologia do Novo Testamento”, ed. Loyola, 1978, pg. 205).
Neste sentido, ninguém mais do que Jesus merece para nós o título de Deus, como o reconheceu o apóstolo Tomé (João 20:28). Ele foi, com efeito, a mais perfeita das criaturas que jamais pisaram neste planeta, nele se manifestou “corporalmente toda a plenitude da divindade” (Col. 2:9), pois em nenhum outro homem se apresentaram mais excelsas a sabedoria e a virtude. Mas foi precisamente isso, uma criatura de Deus que atingiu a máxima perfeição, ao ponto de gozar de íntima comunhão com Deus, daí o ter dito: “Quem me vê a mim, vê também o Pai” e “O Pai está em mim e eu no Pai” (João 14:9,10) e “Glorifica-me, Pai, com a glória que eu tinha contigo antes que houvesse mundo” (João 17:5). Mas Ele também disse: “Eu rogarei ao Pai” (João 14:16 e 16:26) e o que roga evidentemente é inferior ao rogado. Ele também afirmou: “O Pai é maior do que eu” (João 14:28).
Ora, raciocinemos: Se Deus vem criando de toda a eternidade (e nem se conceberia um Deus inativo), é natural que os Espíritos criados no que para nós pode ser definido como o “princípio dos tempos”, ou seja, há milhões e milhões de anos, todos eles, ou quase todos, já devem ter atingido o grau máximo da perfeição, situando- se na categoria dos “Espíritos Puros”, em gozo de plena comunhão com o Criador. Eles são, portanto, os colaboradores na obra de Deus, os seus auxiliares diretos, aqueles que tanto no Velho como no Novo Testamento (e por que não nos tempos atuais?) são chamados de ANJOS. A unidade na criação é a característica do nosso Pai e só ela pode espelhar sua infinita Justiça. Seria admissível que Ele criasse os anjos como entes privilegiados, saídos de Suas mãos como criaturas já perfeitas, enquanto os Espíritos humanos saem simples e ignorantes, fadados a sofrer vicissitudes sem conta, para um dia poderem alcançar a bem-aventurança eterna? Se um anjo disse a João: “Não te ajoelhes, pois eu sou conservo teu e de teus irmãos, os profetas” (Apoc. 22:9), não foi por saber que a origem de todos os seres é a mesma?
E para encerrar estas considerações, indagamos: Acaso não parece muito mais grandiosa a figura de Jesus como um ser humano que, por se haver elevado ao ápice do aprimoramento espiritual, pode apresentarse aos nossos olhos como um modelo da perfeição a que todos aspiramos e que um dia, com a graça do Pai, haveremos de também alcançar? Pois se assim não fosse, por que teria Ele afirmado: “Dei-vos o exemplo para que, como eu voz fiz, assim o façais vós também”? (João 13:15).
Então, fique bem claro o nosso pensamento, segundo o qual, sendo Jesus um Espírito gerado em eras inimagináveis, e que por isso mesmo já fruia da comunhão com o Pai “antes que houvesse mundo” (João 17:5), tendo sido Ele, por certo, um dos planejadores e fundadores deste Planeta, tanto que é o seu Governador Espiritual e até chegou ao extremo de imolar-se para fazer progredir a Humanidade, o abismo que nos separa da sua excelsa perfeição é tão imenso que para nós Ele certamente é Deus, mas isto porque, sendo também uma criatura de Deus, “o primogênito de todas as criaturas” (Col. 1:15), logo “criatura” e não “criador”, pode apresentar-se como nosso modelo e nosso exemplo pelo fato de haver atingido a suma perfeição, e não porque seja “ingerado, consubstancial com Deus de toda a eternidade”, como decretou o Concílio de Nicéia no ano 325 da nossa Era.
Diz HERCULANO PIRES que:
a Igreja adotou o “credo quia absurdum”, como forma típica de coação psicológica. E a divindade de Jesus tornou-se origem de perseguições, torturas, maldições e mortes horripilantes. GANDHI, que não era cristão, após ler o Sermão da Montanha, perguntou a um missionário inglês como se explicava a contradição entre os frutos do Cristianismo em seu país e a árvore espiritual do Evangelho.(“Revisão do Cristianismo”, pg. 95).

A Dinvidade de Jesus — A Divindade e a Lógica

Iniciaremos com uma breve digressão sobre Astronomia, assunto decerto já bem conhecido dos leitores, mas que servirá para lembrar-lhes a exata posição no Cosmos, do homem e do minúsculo planeta que ele habita. Cingimo-nos, nesta parte, a um interessante trabalho divulgado pela extinta revista “LIFE” há mais de 20 anos, alguns de cujos conceitos, portanto, poderão já ter sido modificados.
Como a Terra tem 12.756 km de diâmetro equatorial e dista em média 150 milhões de km do Sol, as dimensões do nosso sistema planetário podem à primeira vista parecer estupendas, principalmente se considerarmos que o planeta mais distante do Sol, Plutão, dista deste cerca de 6 bilhões de quilômetros. Mas o nosso Sol, embora com um volume 1,3 milhões de vezes maior que o da Terra, não passa de uma estrela de tamanho médio. Se o imaginarmos como uma bola de 15 cm. de diâmetro, a Terra distaria dele uns 17 metros e o planeta Plutão cerca de 1 km. Pois bem, as estrelas mais próximas ficariam a 5 mil km e mesmo estas são consideradas vizinhas do Sistema Solar, tal a vastidão do Espaço.
Em noite clara podem ser vistas a olho nu cerca de 6 mil estrelas, metade em cada hemisfério. Com um pequeno telescópio distinguem-se mais de 2 milhões, enquanto o grande telescópio do Monte Palomar permite captar a luz de bilhões. À distância parecem formar verdadeiros aglomerados porém na realidade brilham como luzeiros solitários, separados por milhões de quilômetros quais naves a flutuar num oceano vazio.
As dimensões do Universo são tão vastas que não podem ser medidas pelos meios comuns, por isso recorre-se a uma unidade especial, que é o “ano-luz”. Aliás, é bom lembrar que todas as medidas do tempo vêm do espaço, sendo na realidade dimensões espaciais. Por exemplo: O que chamamos “uma hora” é, com efeito, um arco de 15 graus na rotação diária, aparente, da esfera celestial. Então, o “ano-luz” é o espaço percorrido pela luz no tempo de um ano. Sabendo-se que a velocidade da luz é de cerca de 300 mil km por segundo, segue-se que o “ano-luz” corresponde a quase 10 trilhões de quilômetros. Pois bem: enquanto o Sol está apenas a 8,2 “minutos-luz” da Terra, a mais próxima estrela (Alfa, do Centáuro) fica a 4,4 anos-luz da Terra, a gigante vermelha Betelgeuse (da constelação de Orion) a 300 “anos-luz” e a gigante azul Riegel (também de Orion) leva 540 anos para alcançar nossos olhos.
Vejamos outro aspecto dessa desconcertante noção de “espaço-tempo”: Quando olhamos para o céu em uma noite estrelada, na realidade estamos olhando “para trás no tempo”. Vemos a luz de estrelas como elas eram há milhares, talvez milhões de anos. Certamente nenhuma delas está mais nos pontos onde as vemos, algumas podem até ter sido totalmente extintas. Mesmo a mais próxima de nós (Alfa, do Centáuro), não a vemos como é hoje e sim como era há pouco mais de 4 anos. O que realmente vemos é o fantasma de uma estrela que emitia luz há 4 anos; se ela continua, ou não, brilhando agora, só poderemos saber dentro de mais 4 anos. Então, para descrever a posição de uma galáxia, não basta fixá-la nas três dimensões do espaço, mas também numa de tempo. Daí o dizer-se que o Universo é quadridimensional sendo a 4ª dimensão o tempo.
Mas todas essas estrelas a que nos reportamos até agora podem ser consideradas vizinhas próximas, e suas distâncias equiparam-se a centímetros, quando medidas em escala cósmica. Foi só nas últimas décadas que se percebeu que o nosso Sistema Solar é apenas uma unidade infinitesimal na borda externa de uma galáxia a que denominamos “Via Láctea”. E esta mesma não passa de uma unidade num aglomerado de galáxias ligadas pela gravitação, movendo-se ininterruptamente através do Espaço.
Essa faixa luminosa que avistamos em noites claras cortando o firmamento de norte a sul, só em tempos recentes veio a ser conhecida pelo que de fato é: um estupendo caudal de campos estelares integrando a parte visível da galáxia em que se move o nosso Sistema Solar. A dificuldade em apreender a estrutura da “Via Láctea”, é que nos achamos “dentro dela”. Só nos últimos tempos os astrônomos puderam cientificamente estabelecer que o que vemos da “Via láctea” é apenas parte do arco interno de um colossal aglomerado de estrelas, em forma de disco, similar às galáxias do espaço externo, O nosso planeta está situado a 30 mil “anos-luz” do centro da galáxia, e dele podemos divisar apenas uma pequena fração dos bilhões de estrelas que ela contém. O diâmetro da “Via Láctea” é de mais de 100 mil “anos-luz”, o que significa que a luz, à assombrosa velocidade de 300 mil quilômetros por segundo, leva mais de 100 mil anos para percorrer a galáxia de uma extremidade à outra.
A galáxia também gira, completando uma revolução a cada 200 milhões de anos, não apenas levando com ela o nosso Sistema Solar com velocidade superior a 1 milhão de km por hora, como arrastando um enxame externo de aglomerados estelares, cada um com centenas de milhares de estrelas, todas girando em volta do centro da galáxia.
Mas a “Via Láctea” não é senão um membro de um agregado cósmico infinitamente maior, denominado “Grupo Local”, composto por cerca de 20 sistemas galácticos unidos pela energia gravitacional e com um diâmetro de uns 3 milhões de “anos-luz”. Próximo a uma das extremidades desse super-sistema gira o luminoso disco da “Via Láctea”, enquanto na extremidade oposta viaja a grande espiral de sua galáxia-irmã, Andrômeda. O “Grupo Local” abrange também 6 pequenas galáxias elípticas e mais as informes “Nebulosas Magelânicas”, além de algumas distantes espirais, perdidas no imenso vácuo. Remotas como se encontram, estão todas unidas por uma ignota energia gravitacional e revolucionam ao redor de um eixo desconhecido, situado em alguma parte, entre a Via Láctea e Andrômeda.
Mas ainda não é tudo: Volvendo o telescópio para além das mais distantes nebulosas do Grupo Local, descobre-se um crescente número de enevoadas manchas luminosas, suspensas no Vácuo como tênues teias de aranha. São as chamadas “Galáxias Externas”, ou “Universos ilhas”, cada uma delas composta por bilhões e bilhões de estrelas, mas tão profundamente entranhadas no abismo do espaço que a luz que emitem leva milhões de anos para chegar até nós. Só no interior da Ursa Maior, fracos bruxuleios revelam uma concentração de mais de 300 galáxias. Junto dela o nosso Grupo Local seria um aglomerado anão.
Em geral as galáxias do espaço externo tendem a aglomerar-se em comunidades de cerca de 500 — galáxias de galáxias — unidas pela gravidade e, não raro, interpenetrando-se sem que jamais ocorra colisão, uma vez que as suas componentes estão separadas entre si por trilhões de quilômetros. Os astrônomos calculam que cerca de 1 bilhão de galáxias se encontram ao alcance dos nossos maiores telescópios, apresentando 3 tipos: Galáxias espirais (80%) Galáxias elípticas (17%) e Galáxias irregulares 3%).
Não foi senão a partir do início deste século que o foco da Astronomia se deslocou dos planetas para as estrelas e só nos últimos 40 anos ele passou a abranger as galáxias do espaço externo. Portanto, é certo que os conceitos da moderna Astronomia não eram conhecidos dos nossos avós. Então, resulta evidente que os princípios aceitos como verdade ha 100 ou 200 anos não são os mesmos princípios agora  reconhecidos como firmemente ancorados nos conhecimentos científicos.
Ora, até 100 ou 200 anos o homem se acreditava o centro do Universo, compenetrado da sua magnificência como o “Rei da Criação”. Para ele, a Terra fora criada no ano 4004 antes de Cristo, o homem formado de barro e os astros fincados como luzeiros no céu apenas para lhe proporcionar luz e deleite. Se a Terra era plana, com o céu por cima e o inferno por baixo, foi até lógica a teoria de que o Criador viesse encarnar neste mísero planeta, para salvar a Humanidade condenada pelo pecado de Adão. Ora, que o Onipotente tenha o poder de fazê-lo; quem duvida? Mas em face da lógica e com os conhecimentos científicos de que hoje dispomos, não se configura demasiado pretensiosa essa teoria?
Se Deus nunca teve princípio, é perfeitamente razoável admitir que Ele venha criando de toda a eternidade. Quantos milhões de sistemas não foram atraves de milênios sem fim, elaborados pelo seu pensamento criador? E com tantos e tantos bilhões de planetas espalhados pela imensidão do Espaço quantos não haverá palpitantes de vida com humanidades em diferentes estagios de evolução muitas delas sem dúvida mais adiantadas que a nossa? Vejamos como idealiza o caso o eminente cientista CHARLES RICHET:
“Sei que no espaço infinito milhões de planetas giram ao redor de outros tantos sóis. Conheço um desses planetas, a Terra, e vejo que é habitado por seres inteligentes. Como poderei adimitir que só ele goza essa vantagem? (se é vantagem). Eis aqui um saco contendo 1 milhão de bolas cujas cores ignoro. Tiro uma ao acaso e vejo que é vermelha. Sera lógico supor que entre as 999.999 restantes não haja mais nenhuma dessa cor?” (“ A Grande Esperança”, 2ª ed. Lake, 1976, pg. 19).
E aqui cabe a grande indagação: Por que teria o Criador do Universo de punir o “pecado” cometido pelo mais ignorante dos seres, no mais rudimentar dos mundos? Porque teria o próprio Deus de descer de sua glória para encarnar num orbe tão desprezível, a fim de, com o seu próprio sangue, “ resgatar” os “erros” de criaturas tão frágeis? Desculpem os irmãos, mas não tem lógica!
Tal idéia poderia ter sido, não diremos razoável, mas pelo menos compreensível, em épocas passadas, ao tempo em que se acreditava a Terra o centro do Universo e os seus habitantes a obra máxima do Criador; mas nos termos da Cosmogonia atual, convenhamos em que certas doutrinas estão a exigir urgente revisão, para que não resulte deslustrada a inteligência dos seus profitentes.
E é bom que essa revisão se faça logo, porque se a qualquer momento os contatos imediatos do terceiro grau comprovarem aquilo que todos já intimamente admitimos, ou seja, a existência de outras humanidades com outros tipos de civilização, como é que vão expliçar essas complicada teorias do pecado original da encarnação do Deus-Filho em nosso planeta?
Mas este é apenas um dos aspectos do problema da divindade de Cristo. Existem vários outros, que examinaremos em seguida.

Jesus

Segundo o Novo Testamento, Jesus nasceu em Belém, uma cidadezinha localizada oito quilômetros ao sul de Jerusalém, filho do carpinteiro José e de uma jovem chamada Maria, que o concebeu sem macular sua virgindade. Os evangelhos de Lucas e Mateus afirmam que Jesus nasceu "perto do fim do reino de Herodes". O texto de Lucas afirma que a anunciação aconteceu em Nazaré, onde José e Maria viviam, mas eles foram obrigados a viajar até Belém pelo censo "ordenado quando Quirino era governador da Síria".
Hoje, o que se sabe de concreto sobre Jesus é que ele nasceu na Palestina, provavelmente no ano 6 a.C., ao final do reinado de Herodes Antibas (que acabou em 4 a.C.). A diferença entre o nascimento real de Jesus e o ano zero do calendário cristão se deve a um erro de cálculo. No século VI, quando a Igreja resolveu reformular o calendário, o monge incumbido de fazer os cálculos cometeu um erro. Além disso, é praticamente certo que Jesus nasceu em Nazaré e não em Belém. A explicação que o texto de Lucas dá para a viagem de Jesus até Belém seria falsa. Os registros romanos mostram que Quirino (aquele que teria feito o censo que obrigou a viagem a Belém) só assumiu no ano 6 d.C. - 12 anos depois do ano de nascimento de Jesus. A história da viagem a Belém foi criada porque a tradição judaica considerava essa cidade o berço do rei David - e o messias deveria ser da linhagem do primeiro rei dos judeus.
A concepção imaculada de Maria é um dos dogmas mais rígidos da Igreja, mas nem sempre foi um consenso entre os cristãos. Alguns textos apócrifos dos séculos II e III sugerem que Jesus é fruto de uma relação de Maria com um soldado romano. A menina Maria teria 12 anos quando concebeu Jesus. Na rígida tradição judaica, uma mulher que engravidasse assim poderia ser condenada à morte por apedrejamento. O velho carpinteiro José, provavelmente querendo poupar a menina, casou-se com ela e escondeu sua gravidez até o nascimento do bebê. A data de 25 de dezembro não está na Bíblia. É uma criação também do século VI, quando o calendário foi alterado.
A Bíblia afirma que Jesus teve duas irmãs e quatro irmãos: Tiago, Judas, José e Simão. Mas não se sabe se esses eram filhos de Maria ou de um primeiro casamento de José. Muitos teólogos afirmam que eles eram, na verdade, primos de Jesus - em aramaico, irmão e primo são a mesma palavra. A Bíblia não fala quase nada sobre a infância e a adolescência de Jesus, com exceção de uma passagem em que, aos 12 anos, numa visita ao Templo de Jerusalém durante a Páscoa, seus pais o encontram discutindo teologia com os sábios nas escadarias do templo do monte. É quase certo, porém, que ele cresceu em Nazaré.
Jesus falava certamente o aramaico, a língua corrente da Palestina e, provavelmente, entendia o hebreu por ter tomado lições na sinagoga e por ler a Torá. Os evangelhos apócrifos o pintam como um menino Jesus travesso, capaz de dar vida a figuras de barro para impressionar os colegas e até mesmo a fulminar um menino que esbarrou em seu ombro, para ressuscitá-lo logo em seguida, depois de tomar uma bronca do pai.
Certamente José procurou iniciá-lo na arte da carpintaria e é provável que Jesus tenha trabalhado como carpinteiro durante um bom tempo. Oportunidade não lhe faltou. Escavações recentes revelaram que ao mesmo tempo em que Jesus crescia em Nazaré, bem próximo era construída a monumental cidade de Séfores, idealizada por Herodes Antibas para ser a capital da Galiléia. Séfores estava a uma hora a pé de Nazaré e é muito provável que José e Jesus tenham trabalhado ali. Em Séfores Jesus teria visto a passagem da família real de Herodes Antibas e a opulência das famílias de sacerdotes do Templo de Jerusalém. O fato de Jesus ter passado boa parte da sua vida ao lado de Séfores indicaria que ele não era um camponês rústico como já se pensou, mas tinha contato com a cultura do mundo helênico.
Aos 30 anos, Jesus se fez batizar por João Batista nas margens do rio Jordão. Segundo a Bíblia, durante o batismo João reconhece Jesus como o messias. Há registros históricos da existência de João Batista e, recentemente, arqueólogos encontraram entre o monte Nebo e Jericó, nas margens do rio Jordão, ruínas de um antigo local de peregrinação por volta do século III d.C.
Decidido a cumprir sua missão na terra, Jesus dirigiu-se então para a Galiléia, onde recrutou seus primeiros discípulos entre os pescadores do lago Tiberíades. Passou a viver com seus primeiros seguidores em Cafarnaum, cidade de pescadores próxima do lago de Tiberíades. Por dois anos Jesus pregou pela Galiléia, Judéia e em Jerusalém, proferindo sermões e contando parábolas. Segundo a Bíblia, realizou 31 milagres, incluindo 17 curas e seis exorcismos. Alguns dos mais famosos são a ressurreição de Lázaro, a transformação de água em vinho e a multiplicação dos peixes.
Cafarnaum, onde Jesus teria vivido com seus discípulos, era um povoado de cerca de 1 500 moradores naquela época. Escavações encontraram os restos da casa de um dos discípulos, provavelmente de Simão Pedro (hoje conhecido como São Pedro), além de um barco datado da mesma época da passagem de Cristo pelo lugar. Não há, porém, certeza quanto ao número de discípulos que viviam próximos de Jesus. Nos evangelhos, apenas os oito primeiros conferem - os quatro últimos têm muitas variações. A hipótese mais provável é que o número "redondo" de 12 discípulos foi uma invenção posterior para espelhar, no Novo Testamento, as 12 tribos dos hebreus descritas no Velho Testamento.
Depois de viajar por quase toda a Palestina, Jesus parte para cumprir seu destino - ou, segundo alguns especialistas, seu plano. Durante a semana da Páscoa, o principal evento religioso do calendário judeu, Jesus entra em Jerusalém montado num burro e atravessando a Porta Maravilhosa. Esse foi, certamente, um ato deliberado de provocação aos sacerdotes do Templo e à elite judaica. Jesus faz exatamente o que o profeta Zacarias afirmava na Torá que o messias faria ao chegar. Jesus estava mandando uma mensagem de provocação aos sacerdotes do Templo. No segundo dia da Páscoa, Jesus vai ao Templo e ataca os mercadores e cambistas raivosamente.
Na quinta-feira, percebendo que o cerco apertava, os apóstolos celebram com Jesus a última ceia. A imagem que ficou dessa cena, gravada por Da Vinci e outros pintores, nada tem de verdadeiro. Os judeus comiam deitados de flanco, como os romanos, e as mesas eram ordenadas em formato de U e não dispostas numa linha reta. Durante a ceia, Judas levanta-se para trair seu mestre - ou, como alguns sugerem, para cumprir uma ordem dada pelo próprio Jesus. A captura acontece no Jardim do Getsêmani, onde Jesus e seus discípulos descansavam no caminho para Betânia, onde ficariam hospedados.
Levado para o Sinédrio, o Conselho dos Sacerdotes do Templo, Jesus reafirma sua missão divina e é condenado. Existem provas da denúncia de Caifás a Pilatos. Estudiosos judeus afirmam, porém, que o julgamento perante o Sinédrio jamais ocorreu porque o Sinédrio não se reunia durante a Páscoa. Essa versão teria sido incluída tardiamente na Bíblia após a ruptura definitiva entre cristãos e judeus. Jesus foi morto pelos romanos porque era considerado um agitador político.
Na manhã de sexta-feira, na residência do prefeito Pôncio Pilatos, Jesus é condenado à morte. Ele atravessa as ruas de Jerusalém carregando sua própria cruz e é crucificado entre dois ladrões. O caminho que Jesus percorreu nada tem a ver com a Via Crúcis visitada pelos turistas hoje. Ela é uma criação do século XIV, quando a cidade esteve nas mãos dos cavaleiros cruzados. A maioria dos historiadores e arqueólogos concorda, porém, que o morro do Calvário (Gólgota), localizado ao lado de uma pedreira, foi realmente o lugar da crucificação. Concordam também que seu corpo tenha sido colocado numa das grutas próximas. O que aconteceu então depende da fé de cada um. Há varias versões: que Jesus teria sobrevivido ao martírio, que outra pessoa teria morrido em seu lugar, que seu corpo teria sido roubado ou, claro, que ele teria ressuscitado.

A Bíblia Passada a Limpo

Descobertas recentes da arqueologia indicam que a maior parte das escrituras sagradas não passam de lenda
por Vinícius Romanini
Para a Revista SuperInteressante
A disputa entre ciência e religião pela posse da verdade é antiga. No Ocidente, começou no século XVI, quando Galileu defendeu a tese de que a Terra não era o centro do Universo. Essa primeira batalha foi vencida pela Igreja, que obrigou Galileu a negar suas idéias para não ser queimado vivo. Mas o futuro dessa disputa seria diferente: pouco a pouco, a religião perdeu a autoridade para explicar o mundo. Quando, no século XIX, Darwin lançou sua teoria sobre a evolução das espécies, contra a idéia da criação divina, o fosso entre ciência e religião já era intransponível. Nas últimas décadas, a Bíblia passou a ser alvo de ciências como a filologia (o estudo da língua e dos documentos escritos), a arqueologia e a história. E o que os cientistas estão provando é que o livro mais importante da história é, em sua maior parte, uma coleção de mitos, lendas e propaganda religiosa.
Primeiro livro impresso por Guttemberg, no século XV, e o mais vendido da história, a Bíblia reúne escritos fundamentais para as três grandes religiões monoteístas - Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Na verdade, a Bíblia é uma biblioteca de 73 livros escritos em momentos históricos diferentes. O Velho Testamento, aceito como sagrado por judeus, cristãos e muçulmanos, é composto de 46 livros que pretendem resumir a história do povo hebreu desde o suposto chamamento de Abraão por Deus, que teria ocorrido por volta de 1850 a.C., até a conquista da Palestina pelos exércitos de Alexandre Magno e as revoltas do povo judeu contra o domínio grego, por volta de 300 a.C. Os 27 livros do Novo Testamento abarcam um período bem menor: cerca de 70 anos que vão do nascimento de Jesus à destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C.
O coração do Velho Testamento são os primeiros cinco livros, que compõem a Torá do Judaísmo (a palavra significa "lei", em hebraico). Em grego, o conjunto desses livros recebeu o nome de Pentateuco ("cinco livros"). São considerados os textos "históricos" da Bíblia, porque pretendem contar o que ocorreu desde o início dos tempos, inclusive a criação do homem - que, segundo alguns teólogos, teria ocorrido em 5000 a.C. O Pentateuco inclui o Gênesis (o "livro das origens", que narra a criação do mundo e do homem até o dilúvio universal), o Êxodo (que narra a saída dos judeus do Egito sob a liderança de Moisés) e os Números (que contam a longa travessia dos judeus pelo deserto até a chegada a Canaã, a terra prometida).
Das três ciências que estudam a Bíblia, a arqueologia tem se mostrado a mais promissora. "Ela é a única que fornece dados novos", diz o arqueólogo israelense Israel Finkelstein, diretor do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv e autor do livro The Bible Unearthed (A Bíblia desenterrada, inédito no Brasil), publicado no ano passado. A obra causou um choque em estudiosos de arqueologia bíblica, porque reduz os relatos do Antigo Testamento a uma coleção de lendas inventadas a partir do século VII a.C.
O Gênesis, por exemplo, é visto como uma epopéia literária. O mesmo vale para as conquistas de David e as descrições do império de Salomão.
A ciência também analisa os textos do Novo Testamento, embora o campo de batalha aqui esteja muito mais na filologia. A arqueologia, nesse caso, serve mais para compor um cenário para os fatos do que para resolver contendas entre as várias teorias. O núcleo central do Novo Testamento são os quatro evangelhos. A palavra evangelho significa "boa nova" e a intenção desses textos é clara: propagandear o Cristianismo. Três deles (Mateus, Marcos e Lucas) são chamados sinóticos, o que pode ser traduzido como "com o mesmo ponto de vista". Eles contam a mesma história, o que seria uma prova de que os fatos realmente aconteceram. Não é tão simples. O problema central do Novo Testamento é que seus textos não foram escritos pelos evangelistas em pessoa, como muita gente supõe, mas por seus seguidores, entre os anos 60 e 70, décadas depois da morte de Jesus, quando as versões estavam contaminadas pela fé e por disputas religiosas.
Nessa época, os cristãos estavam sendo perseguidos e mortos pelos romanos, e alguns dos primeiros apóstolos, depois de se separarem para levar a "boa nova" ao resto do mundo, estavam velhos e doentes. Havia, portanto, o perigo de que a mensagem cristã caísse no esquecimento se não fosse colocada no papel. Marcos foi o primeiro a fazer isso, e seus textos serviram de base para os relatos de Mateus e Lucas, que aproveitaram para tirar do texto anterior algumas situações que lhes pareceram heresias. "Em Marcos, Jesus é uma figura estranha que precisa fazer rituais de magia para conseguir um milagre", afirma o historiador e arqueólogo André Chevitarese.
Para tentar enxergar o personagem histórico de Jesus através das camadas de traduções e das inúmeras deturpações aplicadas ao Novo Testamento, os pesquisadores voltaram-se para os textos que a Igreja repudiou nos primeiros séculos do Cristianismo. Ignorados, alguns desapareceram. Mas os fragmentos que nos chegaram tiveram menos intervenções da Igreja ao longo desses 2 000 anos. Parte desses evangelhos, chamados "apócrifos" (não se sabe ao certo quem os escreveu), fazem parte de uma biblioteca cristã do século IV descoberta em 1945 em cavernas do Egito. Os evangelhos estavam escritos em língua copta (povo do Egito).
O fato de esses textos terem sido comprovadamente escritos nos primeiros séculos da era cristã não quer dizer que eles sejam mais autênticos ou contenham mais verdades que os relatos que chegaram até nós como oficiais. Pelo contrário, até. Os coptas, que fundariam a Igreja cristã etíope, foram considerados hereges, porque não aceitavam a dupla natureza de Jesus (humana e divina). Para eles, Jesus era apenas divino e os textos apócrifos coptas defendem essa versão. Mesmo assim, eles trazem pistas para elucidar os fatos históricos.
A tentativa de entender o Jesus histórico buscando relacioná-lo a uma ou outra corrente religiosa judaica também foi infrutífera, como ficou demonstrado no final da tradução dos pergaminhos do Mar Morto, anunciada recentemente. Esses papéis, achados por acaso em cavernas próximas do Mar Morto, em 1947, criaram a expectativa de que pudesse haver uma ligação entre Jesus e os essênios, uma corrente religiosa asceta, cujos adeptos viviam isolados em comunidades purificando-se à espera do messias. O fim das traduções indica que não há qualquer ligação direta entre Jesus e os essênios, a não ser a revolta comum contra a dominação romana.
O resultado é que, depois de dois milênios, parece impossível separar o verdadeiro do falso no Novo Testamento. O pesquisador Paul Johnson, autor de A História do Cristianismo, afirma que, se extrairmos, de tudo o que já se escreveu sobre Jesus, só o que tem coerência histórica e é consenso, restará um acontecimento quase desprovido de significado. "Esse 'Jesus residual' contava histórias, emitiu uma série de ditos sábios, foi executado em circunstâncias pouco claras e passou a ser, depois, celebrado em cerimônia por seus seguidores."
O que sabemos com certeza é que Jesus foi um judeu sectário, um agitador político que ameaçava levantar os dois milhões de judeus da Palestina contra o exército de ocupação romano. Tudo o mais que se diz dele precisa da fé para ser tomado como verdade. Assim como aconteceu com Moisés, David e Salomão do Velho Testamento, a figura de Jesus sumiu na névoa religiosa.

Eduardo Assad - Paz e Oração 3


01 Ária para quarta corda
02 Melodia em fá
03 Sarabande
04 Preludio - Opus 28
05 O Guarani
06 Sonata Patetica
07 Two american folk songs
08 L'amico Fritz
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domingo, 21 de novembro de 2010

A Divindade e a História

Já vimos que não aparece no Novo Testamento nenhuma proclamação taxativa da divindade de Jesus, no sentido que lhe deu o Concílio de Nicéa, de “consubstacial com o Pai de toda a eternidade” certo que a idéia aparece difusa no Evangelho de João, mas este só apareceu 60 anos depois da morte do Mestre, quando a Cristologia (interpretação teológico da figura do Cristo) já se achava impregnada do neoplatonismo com a sua noção do “Logos”.
Agora vejamos em linhas gerais como se chegou a concretizar a idéia da divindade, que era totalmente desconhecida nos primitivos tempos do Cristianismo. Toda gente sabe que na decisão de Nicéia (325 dc.) predominou a vontade do imperador Constantino, que, egresso do paganismo estava ainda bem longe de poder ser considerado Cristão, tanto que continuou como pontífice da antiga religião e só veio a receber o batismo quando se achava à morte, no ano 337.
Mas não cometeremos a injustiça de atribuir aquela decisão unicamente ao arbítrio do Imperador, pois a História registra que as controvérsias reinavam ferozes desde o início do segundo século, e ameaçavam dividir a Igreja, de sorte que a influência autoritária de Constantino pode ter tido o propósito de evitar a cisão do Cristianismo, o que, todavia, conforme veremos, não foi conseguido no Concílio de Nicéa e nem nos subseqüentes.
Vejamos os esclarecimentos que nos podem trazer protestantes sobre a controvertida questão da divindade de Cristo:
“Os chamados Pais da Igreja entendiam Jesus como o revelador divino do conhecimento do verdadeiro Deus e arauto de uma “nova lei” de moralidade simples, elevada e severa” (WILLISTON WALKER, em “História da Igreja Cristã”, 2ª ed., pg. 62).
“Inácio (bispo de Antioquia de 110 a 117), professava o mesmo tipo elevado de cristologia evidenciada nos documentos joaninos. O sacrifício de Cristo é o “sangue de Deus”. Saúda os cristãos romanos em “Jesus Cristo, nosso Deus” e no entanto não chega a identificar exatamente Cristo com o Pai. Cristo, escreve ele, realmente é da estirpe de Davi segundo a carne, Filho de Deus por vontade e poder de Deus.” (Idem, pg. 61).
“Juliano (Contra Christianos, apud Cirilo de Alexandria, op. IX, 326ss): “Mas, infortunadamente não sois fiéis às vocações apostólicas; estas, em mãos de seus sucessores, tornaram-se em máxima blasfêmia. Nem Paulo, nem Mateus, nem Lucas ou Marcos ousaram afirmar que Jesus é Deus. Foi o venerável João quem, constatando que um grande número de habitantes das cidades gregas e italianas eram vítimas de epidemias e ouvindo, imagino, que as tumbas de Pedro e Paulo se tornavam objeto de culto, João, repito, foi o primeiro a ousar tal afirmativa.” (H. BETTENSON em “Documentos da Igreja Cristã”, pg. 50).
“Tertuliano (150/225) distinguia entre os elementos divino e humano em Cristo. Derivados do Pai por emanação, o Filho e o Espírito são subordinados a Ele. A doutrina da subordinação, já presente nos Apologistas, viria a ser característica da cristologia do “Logos” até o tempo de Agostinho.” (W. WALKER, em “História da Igreja Cristã”, pg 99).
“Para Paulo de Samósata, bispo de Antióquia entre 260 e 272, Jesus era um homem considerado único por causa do seu nascimento virginal, além de cheio do poder de Deus, isto é, o “Logos” de Deus. Mediante essa inspiração Jesus era unido a Deus por amor, em vontade, mas não em substância.” (WALKER, ibd. pg. 102).
“Para Ário (presbítero de Alexandria) Jesus não era da mesma substância do Pai, tendo sido tirado do “nada”, como as demais criaturas. Não era, por conseguínte, eterno, embora o primeiro entre as criaturas e agente na criação deste mundo. Cristo era na verdade Deus em outro sentido, mas um Deus inferior, de modo algum uno com o Pai em essência e eternidade. Seu Opositor foi o bispo Alexandre, para quem o Filho “era eterno, da mesma substância do Pai, e absolutamente increado” Ele convocou um Sínodo em Alexandria (cerca de 321), Sínodo esse que lançou condenação sobre Ario e Seus seguidor” (WALKER ibd., pgs. 155/156).
“A disputa dividiu a Igreja e causou perturbação à ordem pública. Então o Imperador convocou o Concílio de Nicéia, ao qual compareceram cerca de 300 bispos, só 6 do Ocidente. Depois de acirradas discussões o Imperador, desejando que se chegasse a uma expressão unificada da fé, forçou a definição de Nícéia. Sob sua supervisão, todos os bispos a subscreveram com exceção de dois que, juntamente com Ario, foram banidos pelo imperador.” (WALKER ibd., pg. 158) (grifos nossos). “Na realidade as decisões de Nicéa foram fruto de uma minoria. Foram mal entendidas e até rejeitadas por muitos que não eram partidários de Ario. Posteriormente 90 bispos elaboraram Outro credo (o “Credo da Dedicação”) em 341, para substituir o de Nicéia. (...) E em 357, um Concílio em Smirna adotou um credo autenticamente ariano.” (H. BTTENSON em “Documentos da Igreja Cristã”, pg. 74 e 76).
“Passando em revista essa longa controvérsia, é de afirmar-se ter sido uma infelicidade o fato de uma frase menos controvertida não ter sido adotada em Nicéia, e infelicidade ainda maior a circunstância de a interferência imperial se constituir fator tão importante no correr das ulteriores discussões. Em meio a essa luta surgiu a igreja imperial e se desenvolveu plenamente a política de interferência imperial. A rejeição da ortodoxia oficial erigira-se em crime.” (WALKER, ibd., pg. 171).
“Logo que Constantino se constituiu patrono do Cristianismo, este se tornou uma religião eivada de heresias e de inovações.” (...) A maioria dos que entravam para a Igreja, era realmente pagã, gente de vida reprovável. Era assim natural que aparecesse uma queda do nível moral do caráter cristão.” (ROBERT HASTINGS NICHOLS, em “História da Igreja Cristã”, ed. Casa Editora Presbiteriana, 1978, pgs. 44 e 46).
“A quéstão da divindade de Cristo tendo sido vitoriosa, a discussão voltou-se para a relação entre a sua natureza divina e a humana Foram tremendas as divergências de opinião, que chegaram a provocar divisões na Igreja.” (NICHOLS, ibd., pg. 48), (Grifo nosso).
“As grandes verdades que são vitais à fé cristã, como as da encarnação e da Trindade, foram examinadas e expressas pela Igreja nessa “Era dos Concílios”. Tais decisões têm sido desde então aceitas pela cristandade. Ao lado dessa vitória, surgiu um prejuízo em virtude da tendência de se pensar que a coisa mais importante era defender e guardar as definições corretas da verdade cristã. A prova da fé cristã de uma pessoa não era tanto a sua lealdade a Cristo, em espírito e pelo comportamento moral, senão a sua aquiescência ao que a Igreja declarava a doutrina correta, isto é, a sua ortodoxia. Aquele que não fosse considerado ortodoxo, era expulso como herege, embora a sua vida fosse um testemunho contínuo de lealdade ao Cristo.” (NICHOLS, ibd., pgs. 48 e 49).
Em todos os tempos muitos cristãos se insurgiram contra a idéia da divindade que, como vimos, não encontra apoio nem na Escritura, nem na razão. Mas o “sistema” ortodoxo que detinha o poder sempre tratou de sufocar todas as tentativas de contestação. Submetemos atenção dos leitores mais alguns excertos da obra “História da Igreja Cristã”, do teólogo WALKER, que o comprovam:
“Com as tendências racionalizadoras do século XVIII, as idéias antitrinitárias, que viam na moralidade a essência da religião, foram grandemente fortalecidas. Tais idéias eram representadas no continente europeu por anabatistas e socinianos. Em 1575 foram queimados “batistas arianos” nos Países Baixos e em 1612 foram queimados os últimos ingleses por motivo de fé. Em 1717 alguns pastores presbiterianos tomaram posição entre a ortodoxia e o arianismo.” (Pg. 594).
“Em 1774 o clérigo Lindsay se retirou da Igreja Anglicana e fundou em Londres uma Igreja Unitária. Em 1813 o Parlamento Britânico extinguiu as penas contra os negadores da Trindade. Este antigo unitarismo inglês era claro em sua negativa dos “credos feitos pelos homens” e na insistência da salvação pelo caráter.” (Pg. 595).
“No século XIX surgiu o liberalismo eclesiástico, COLERIDGE (1772/1834) foi o precursor e J. F. D. MAURICE (1805/1872) o impulsionador do pensamento liberal. Para ele, “Cristo é o cabeça de toda a humanidade, ninguém está sob a maldição de Deus e ninguém se perderá para sempre.” O número dos liberais não era grande, mas sua influência sobre o pensamento religioso inglês foi enorme.” (Pg. 661).
“Ao dealbar do século XX os liberais haviam conquistado um lugar em muitas denominações. Nas primeiras décadas os conservadores tudo fizeram para expulsá-los, através de amarga controvérsia fundamentalista-modernista.” (Pg. 687).
A luta ainda continua no seio das igrejas cristãs. Em 1977 sete teólogos ingleses (seis, anglicanos e um da Igreja Reformada Unida) publicaram um livro (“O Mito do Deus Encarnado”) em que consideram a crença na divindade “um meio poético ou mitológico de expressar a significação de Cristo para nós, não a verdade literal.” (“TIME” de 15-8-77). O livro tem despertado fortes polêmicas, e é bom que assim seja, a fim de que as consciências acomodadas despertem do seu torpor.

A Divindade e a Bíblia


Jesus nunca afirmou que era Deus, ninguém encontrará no evangelho uma só palavra sua em tal sentido. O título que Ele habitualmente se atribuía era o de “Filho do Homem”, que figura 80 vezes nos Evangelhos (30 no de Mateus, 14 no de Marcos, 26 no de Lucas e 10 no de João). Poucas vezes, e em geral de forma indireta, Ele se autodenominou “Filho de Deus”, título este que os discípulos, outras pessoas e até Espíritos impuros às vezes lhe atribuíam. É de notar que ser “filho de Deus” não é ser Deus, como se infere de João 1:12: “A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.”
Os teólogos costumam apresentar como prova da sua divindade a frase “Eu e o Pai somos um” (João 10:30), se atentar para o fato de que logo adiante Ele incluiu na mesma categoria os apóstolos, quando afirmou: “Pai Santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós” (Jo. 17:11) e “para que também eles sejam um em nós” (Jo, 17:21).
Cumpre ter em vista, outrossim, que no mesmo episódio acima citado, quando os judeus o acusaram de “se fazer Deus a si mesmo” (João 10:33), Ele encerrou a discussão afirmando: “Se a própria lei chamou deuses aqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida, como dizeis que blasfema aquele que o Pai santificou e enviou ao mundo, porque diz: “Sou filho de Deus”? (João 10:36).
Em vários outros trechos Ele se proclamou um “enviado de Deus” (João 4:34, 5:24, 6:29; 6:44; 7:29; 8:26; 12:45, 17:3) e chegou a afirmar: “Porque eu desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a daquele que me enviou” (João 6:38). claro que um enviado é sempre inferior àquele que o envia. Ele se atribuiu também vários outros títulos, como sejam os de Filho, de “Mestre e Senhor”, de “Luz do Mundo”, de “Bom Pastor”, etc., mas é claro que nenhuma dessas expressões implica a pretensão de se fazer divino. Como um enviado de Deus para pregar aos homens a Verdade, Ele foi um instrumento, um meio, um caminho para se chegar a Deus, foi verdadeiramente o “pão da vida” que a Humanidade esperava para saciar sua fome espiritual.
Se João 14:9 parece roborar a idéia da divindade, logo no v.10 Jesus esclarece que faz as obras porque o Pai permanece nele e no v.12 aduz que os que cressem fariam obras até maiores, mostrando que a ação divina se patenteava nas obras de todos os que cressem, nada havendo na passagem que justifique a noção de que Jesus se reputava Deus.
Outro trecho que se supõe confirmar a doutrina da Trindade é o de 1º João 5:7/8, mas aí a interpolação é tão evidente que a própria “Bíblia de Jerusalém” (editada com aprovação eclesiástica) o resume com estas palavras: “Porque três são os que testemunham: O Espírito, a água e o sangue”, aduzindo em nota de rodapé que as frases restantes ‘não constam dos antigos manuscritos, nem das antigas versões, nem dos melhores manuscritos da Vulgata, parecendo ser uma glosa marginal introduzida posteriormente.” (N.T., 6ª ed. pág. 649 (grifo nosso).
Paulo nunca chamou Jesus de Deus, embora pregasse a unidade de caráter entre ambos. Segundo o teólogo anglicano WILLISTON WALKER “a tradução de Rom. 9:5 não deve ser considerada paulina” (“Hist. da Igr. Cristã”, 2ª ed. pg. 56). O mesmo se pode dizer de Tito 2:13, “do qual não é possível uma interpretação segura”, segundo o teólogo KARL SCHELKLE, em sua “Teologia do Novo Testamento”, ed. Loyola, pg. 218.
O que se observa através da História, é uma tendência para considerar “deuses” aqueles que se destacam dos homens comuns por sua sabedoria, sua autoridade ou sua superioridade moral. Em Êxodo 7:1 lemos que “Jeová fez de Moisés um deus diante do Faraó”. Os próprios apóstolos, em certas ocasiões, foram tidos por deuses (Atos 14:11, 28:6). Veja-se também 1º Cor. 8:5.
“No mundo antigo havia muitos filhos de deuses. No Oriente antigo os reis eram tidos como gerados pelos deuses. Na mitologia grega os deuses geram filhos com mulheres humanas. Em Roma os imperadores eram divinizados depois de sua morte. Gênios que superavam a média humana (políticos, filósofos) eram venerados como divinos, ou filhos de Deus. O sentimento antigo percebia no extraordinário e imenso a revelação do divino. Além disso a Estoa ensinava, em outro sentido, a filiação divina de todos os homens” (Epicteto 1, 3, 1). A história das religiões acha que esta mentalidade antiga contribuiu para que Jesus fosse venerado como Filho de Deus.” (KARL H. SCHELKLE, em “Teologia do Novo Testamento”, ed. Loyola, 1978, pg. 205).
Neste sentido, ninguém mais do que Jesus merece para nós o título de Deus, como o reconheceu o apóstolo Tomé (João 20:28). Ele foi, com efeito, a mais perfeita das criaturas que jamais pisaram neste planeta, nele se manifestou “corporalmente toda a plenitude da divindade” (Col. 2:9), pois em nenhum outro homem se apresentaram mais excelsas a sabedoria e a virtude. Mas foi precisamente isso, uma criatura de Deus que atingiu a máxima perfeição, ao ponto de gozar de íntima comunhão com Deus, daí o ter dito: “Quem me vê a mim, vê também o Pai” e “O Pai está em mim e eu no Pai” (João 14:9,10) e “Glorifica-me, Pai, com a glória que eu tinha contigo antes que houvesse mundo” (João 17:5). Mas Ele também disse: “Eu rogarei ao Pai” (João 14:16 e 16:26) e o que roga evidentemente é inferior ao rogado. Ele também afirmou: “O Pai é maior do que eu” (João 14:28).
Ora, raciocinemos: Se Deus vem criando de toda a eternidade (e nem se conceberia um Deus inativo), é natural que os Espíritos criados no que para nós pode ser definido como o “princípio dos tempos”, ou seja, há milhões e milhões de anos, todos eles, ou quase todos, já devem ter atingido o grau máximo da perfeição, situando- se na categoria dos “Espíritos Puros”, em gozo de plena comunhão com o Criador. Eles são, portanto, os colaboradores na obra de Deus, os seus auxiliares diretos, aqueles que tanto no Velho como no Novo Testamento (e por que não nos tempos atuais?) são chamados de ANJOS. A unidade na criação é a característica do nosso Pai e só ela pode espelhar sua infinita Justiça. Seria admissível que Ele criasse os anjos como entes privilegiados, saídos de Suas mãos como criaturas já perfeitas, enquanto os Espíritos humanos saem simples e ignorantes, fadados a sofrer vicissitudes sem conta, para um dia poderem alcançar a bem-aventurança eterna? Se um anjo disse a João: “Não te ajoelhes, pois eu sou conservo teu e de teus irmãos, os profetas” (Apoc. 22:9), não foi por saber que a origem de todos os seres é a mesma?
E para encerrar estas considerações, indagamos: Acaso não parece muito mais grandiosa a figura de Jesus como um ser humano que, por se haver elevado ao ápice do aprimoramento espiritual, pode apresentarse aos nossos olhos como um modelo da perfeição a que todos aspiramos e que um dia, com a graça do Pai, haveremos de também alcançar? Pois se assim não fosse, por que teria Ele afirmado: “Dei-vos o exemplo para que, como eu voz fiz, assim o façais vós também”? (João 13:15).
Então, fique bem claro o nosso pensamento, segundo o qual, sendo Jesus um Espírito gerado em eras inimagináveis, e que por isso mesmo já fruia da comunhão com o Pai “antes que houvesse mundo” (João 17:5), tendo sido Ele, por certo, um dos planejadores e fundadores deste Planeta, tanto que é o seu Governador Espiritual e até chegou ao extremo de imolar-se para fazer progredir a Humanidade, o abismo que nos separa da sua excelsa perfeição é tão imenso que para nós Ele certamente é Deus, mas isto porque, sendo também uma criatura de Deus, “o primogênito de todas as criaturas” (Col. 1:15), logo “criatura” e não “criador”, pode apresentar-se como nosso modelo e nosso exemplo pelo fato de haver atingido a suma perfeição, e não porque seja “ingerado, consubstancial com Deus de toda a eternidade”, como decretou o Concílio de Nicéia no ano 325 da nossa Era.
Diz HERCULANO PIRES que:
a Igreja adotou o “credo quia absurdum”, como forma típica de coação psicológica. E a divindade de Jesus tornou-se origem de perseguições, torturas, maldições e mortes horripilantes. GANDHI, que não era cristão, após ler o Sermão da Montanha, perguntou a um missionário inglês como se explicava a contradição entre os frutos do Cristianismo em seu país e a árvore espiritual do Evangelho.(“Revisão do Cristianismo”, pg. 95).

sábado, 20 de novembro de 2010

A Dinvidade de Jesus — A Divindade e a Lógica

Iniciaremos com uma breve digressão sobre Astronomia, assunto decerto já bem conhecido dos leitores, mas que servirá para lembrar-lhes a exata posição no Cosmos, do homem e do minúsculo planeta que ele habita. Cingimo-nos, nesta parte, a um interessante trabalho divulgado pela extinta revista “LIFE” há mais de 20 anos, alguns de cujos conceitos, portanto, poderão já ter sido modificados.
Como a Terra tem 12.756 km de diâmetro equatorial e dista em média 150 milhões de km do Sol, as dimensões do nosso sistema planetário podem à primeira vista parecer estupendas, principalmente se considerarmos que o planeta mais distante do Sol, Plutão, dista deste cerca de 6 bilhões de quilômetros. Mas o nosso Sol, embora com um volume 1,3 milhões de vezes maior que o da Terra, não passa de uma estrela de tamanho médio. Se o imaginarmos como uma bola de 15 cm. de diâmetro, a Terra distaria dele uns 17 metros e o planeta Plutão cerca de 1 km. Pois bem, as estrelas mais próximas ficariam a 5 mil km e mesmo estas são consideradas vizinhas do Sistema Solar, tal a vastidão do Espaço.
Em noite clara podem ser vistas a olho nu cerca de 6 mil estrelas, metade em cada hemisfério. Com um pequeno telescópio distinguem-se mais de 2 milhões, enquanto o grande telescópio do Monte Palomar permite captar a luz de bilhões. À distância parecem formar verdadeiros aglomerados porém na realidade brilham como luzeiros solitários, separados por milhões de quilômetros quais naves a flutuar num oceano vazio.
As dimensões do Universo são tão vastas que não podem ser medidas pelos meios comuns, por isso recorre-se a uma unidade especial, que é o “ano-luz”. Aliás, é bom lembrar que todas as medidas do tempo vêm do espaço, sendo na realidade dimensões espaciais. Por exemplo: O que chamamos “uma hora” é, com efeito, um arco de 15 graus na rotação diária, aparente, da esfera celestial. Então, o “ano-luz” é o espaço percorrido pela luz no tempo de um ano. Sabendo-se que a velocidade da luz é de cerca de 300 mil km por segundo, segue-se que o “ano-luz” corresponde a quase 10 trilhões de quilômetros. Pois bem: enquanto o Sol está apenas a 8,2 “minutos-luz” da Terra, a mais próxima estrela (Alfa, do Centáuro) fica a 4,4 anos-luz da Terra, a gigante vermelha Betelgeuse (da constelação de Orion) a 300 “anos-luz” e a gigante azul Riegel (também de Orion) leva 540 anos para alcançar nossos olhos.
Vejamos outro aspecto dessa desconcertante noção de “espaço-tempo”: Quando olhamos para o céu em uma noite estrelada, na realidade estamos olhando “para trás no tempo”. Vemos a luz de estrelas como elas eram há milhares, talvez milhões de anos. Certamente nenhuma delas está mais nos pontos onde as vemos, algumas podem até ter sido totalmente extintas. Mesmo a mais próxima de nós (Alfa, do Centáuro), não a vemos como é hoje e sim como era há pouco mais de 4 anos. O que realmente vemos é o fantasma de uma estrela que emitia luz há 4 anos; se ela continua, ou não, brilhando agora, só poderemos saber dentro de mais 4 anos. Então, para descrever a posição de uma galáxia, não basta fixá-la nas três dimensões do espaço, mas também numa de tempo. Daí o dizer-se que o Universo é quadridimensional sendo a 4ª dimensão o tempo.
Mas todas essas estrelas a que nos reportamos até agora podem ser consideradas vizinhas próximas, e suas distâncias equiparam-se a centímetros, quando medidas em escala cósmica. Foi só nas últimas décadas que se percebeu que o nosso Sistema Solar é apenas uma unidade infinitesimal na borda externa de uma galáxia a que denominamos “Via Láctea”. E esta mesma não passa de uma unidade num aglomerado de galáxias ligadas pela gravitação, movendo-se ininterruptamente através do Espaço.
Essa faixa luminosa que avistamos em noites claras cortando o firmamento de norte a sul, só em tempos recentes veio a ser conhecida pelo que de fato é: um estupendo caudal de campos estelares integrando a parte visível da galáxia em que se move o nosso Sistema Solar. A dificuldade em apreender a estrutura da “Via Láctea”, é que nos achamos “dentro dela”. Só nos últimos tempos os astrônomos puderam cientificamente estabelecer que o que vemos da “Via láctea” é apenas parte do arco interno de um colossal aglomerado de estrelas, em forma de disco, similar às galáxias do espaço externo, O nosso planeta está situado a 30 mil “anos-luz” do centro da galáxia, e dele podemos divisar apenas uma pequena fração dos bilhões de estrelas que ela contém. O diâmetro da “Via Láctea” é de mais de 100 mil “anos-luz”, o que significa que a luz, à assombrosa velocidade de 300 mil quilômetros por segundo, leva mais de 100 mil anos para percorrer a galáxia de uma extremidade à outra.
A galáxia também gira, completando uma revolução a cada 200 milhões de anos, não apenas levando com ela o nosso Sistema Solar com velocidade superior a 1 milhão de km por hora, como arrastando um enxame externo de aglomerados estelares, cada um com centenas de milhares de estrelas, todas girando em volta do centro da galáxia.
Mas a “Via Láctea” não é senão um membro de um agregado cósmico infinitamente maior, denominado “Grupo Local”, composto por cerca de 20 sistemas galácticos unidos pela energia gravitacional e com um diâmetro de uns 3 milhões de “anos-luz”. Próximo a uma das extremidades desse super-sistema gira o luminoso disco da “Via Láctea”, enquanto na extremidade oposta viaja a grande espiral de sua galáxia-irmã, Andrômeda. O “Grupo Local” abrange também 6 pequenas galáxias elípticas e mais as informes “Nebulosas Magelânicas”, além de algumas distantes espirais, perdidas no imenso vácuo. Remotas como se encontram, estão todas unidas por uma ignota energia gravitacional e revolucionam ao redor de um eixo desconhecido, situado em alguma parte, entre a Via Láctea e Andrômeda.
Mas ainda não é tudo: Volvendo o telescópio para além das mais distantes nebulosas do Grupo Local, descobre-se um crescente número de enevoadas manchas luminosas, suspensas no Vácuo como tênues teias de aranha. São as chamadas “Galáxias Externas”, ou “Universos ilhas”, cada uma delas composta por bilhões e bilhões de estrelas, mas tão profundamente entranhadas no abismo do espaço que a luz que emitem leva milhões de anos para chegar até nós. Só no interior da Ursa Maior, fracos bruxuleios revelam uma concentração de mais de 300 galáxias. Junto dela o nosso Grupo Local seria um aglomerado anão.
Em geral as galáxias do espaço externo tendem a aglomerar-se em comunidades de cerca de 500 — galáxias de galáxias — unidas pela gravidade e, não raro, interpenetrando-se sem que jamais ocorra colisão, uma vez que as suas componentes estão separadas entre si por trilhões de quilômetros. Os astrônomos calculam que cerca de 1 bilhão de galáxias se encontram ao alcance dos nossos maiores telescópios, apresentando 3 tipos: Galáxias espirais (80%) Galáxias elípticas (17%) e Galáxias irregulares 3%).
Não foi senão a partir do início deste século que o foco da Astronomia se deslocou dos planetas para as estrelas e só nos últimos 40 anos ele passou a abranger as galáxias do espaço externo. Portanto, é certo que os conceitos da moderna Astronomia não eram conhecidos dos nossos avós. Então, resulta evidente que os princípios aceitos como verdade ha 100 ou 200 anos não são os mesmos princípios agora  reconhecidos como firmemente ancorados nos conhecimentos científicos.
Ora, até 100 ou 200 anos o homem se acreditava o centro do Universo, compenetrado da sua magnificência como o “Rei da Criação”. Para ele, a Terra fora criada no ano 4004 antes de Cristo, o homem formado de barro e os astros fincados como luzeiros no céu apenas para lhe proporcionar luz e deleite. Se a Terra era plana, com o céu por cima e o inferno por baixo, foi até lógica a teoria de que o Criador viesse encarnar neste mísero planeta, para salvar a Humanidade condenada pelo pecado de Adão. Ora, que o Onipotente tenha o poder de fazê-lo; quem duvida? Mas em face da lógica e com os conhecimentos científicos de que hoje dispomos, não se configura demasiado pretensiosa essa teoria?
Se Deus nunca teve princípio, é perfeitamente razoável admitir que Ele venha criando de toda a eternidade. Quantos milhões de sistemas não foram atraves de milênios sem fim, elaborados pelo seu pensamento criador? E com tantos e tantos bilhões de planetas espalhados pela imensidão do Espaço quantos não haverá palpitantes de vida com humanidades em diferentes estagios de evolução muitas delas sem dúvida mais adiantadas que a nossa? Vejamos como idealiza o caso o eminente cientista CHARLES RICHET:
“Sei que no espaço infinito milhões de planetas giram ao redor de outros tantos sóis. Conheço um desses planetas, a Terra, e vejo que é habitado por seres inteligentes. Como poderei adimitir que só ele goza essa vantagem? (se é vantagem). Eis aqui um saco contendo 1 milhão de bolas cujas cores ignoro. Tiro uma ao acaso e vejo que é vermelha. Sera lógico supor que entre as 999.999 restantes não haja mais nenhuma dessa cor?” (“ A Grande Esperança”, 2ª ed. Lake, 1976, pg. 19).
E aqui cabe a grande indagação: Por que teria o Criador do Universo de punir o “pecado” cometido pelo mais ignorante dos seres, no mais rudimentar dos mundos? Porque teria o próprio Deus de descer de sua glória para encarnar num orbe tão desprezível, a fim de, com o seu próprio sangue, “ resgatar” os “erros” de criaturas tão frágeis? Desculpem os irmãos, mas não tem lógica!
Tal idéia poderia ter sido, não diremos razoável, mas pelo menos compreensível, em épocas passadas, ao tempo em que se acreditava a Terra o centro do Universo e os seus habitantes a obra máxima do Criador; mas nos termos da Cosmogonia atual, convenhamos em que certas doutrinas estão a exigir urgente revisão, para que não resulte deslustrada a inteligência dos seus profitentes.
E é bom que essa revisão se faça logo, porque se a qualquer momento os contatos imediatos do terceiro grau comprovarem aquilo que todos já intimamente admitimos, ou seja, a existência de outras humanidades com outros tipos de civilização, como é que vão expliçar essas complicada teorias do pecado original da encarnação do Deus-Filho em nosso planeta?
Mas este é apenas um dos aspectos do problema da divindade de Cristo. Existem vários outros, que examinaremos em seguida.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Jesus

Segundo o Novo Testamento, Jesus nasceu em Belém, uma cidadezinha localizada oito quilômetros ao sul de Jerusalém, filho do carpinteiro José e de uma jovem chamada Maria, que o concebeu sem macular sua virgindade. Os evangelhos de Lucas e Mateus afirmam que Jesus nasceu "perto do fim do reino de Herodes". O texto de Lucas afirma que a anunciação aconteceu em Nazaré, onde José e Maria viviam, mas eles foram obrigados a viajar até Belém pelo censo "ordenado quando Quirino era governador da Síria".
Hoje, o que se sabe de concreto sobre Jesus é que ele nasceu na Palestina, provavelmente no ano 6 a.C., ao final do reinado de Herodes Antibas (que acabou em 4 a.C.). A diferença entre o nascimento real de Jesus e o ano zero do calendário cristão se deve a um erro de cálculo. No século VI, quando a Igreja resolveu reformular o calendário, o monge incumbido de fazer os cálculos cometeu um erro. Além disso, é praticamente certo que Jesus nasceu em Nazaré e não em Belém. A explicação que o texto de Lucas dá para a viagem de Jesus até Belém seria falsa. Os registros romanos mostram que Quirino (aquele que teria feito o censo que obrigou a viagem a Belém) só assumiu no ano 6 d.C. - 12 anos depois do ano de nascimento de Jesus. A história da viagem a Belém foi criada porque a tradição judaica considerava essa cidade o berço do rei David - e o messias deveria ser da linhagem do primeiro rei dos judeus.
A concepção imaculada de Maria é um dos dogmas mais rígidos da Igreja, mas nem sempre foi um consenso entre os cristãos. Alguns textos apócrifos dos séculos II e III sugerem que Jesus é fruto de uma relação de Maria com um soldado romano. A menina Maria teria 12 anos quando concebeu Jesus. Na rígida tradição judaica, uma mulher que engravidasse assim poderia ser condenada à morte por apedrejamento. O velho carpinteiro José, provavelmente querendo poupar a menina, casou-se com ela e escondeu sua gravidez até o nascimento do bebê. A data de 25 de dezembro não está na Bíblia. É uma criação também do século VI, quando o calendário foi alterado.
A Bíblia afirma que Jesus teve duas irmãs e quatro irmãos: Tiago, Judas, José e Simão. Mas não se sabe se esses eram filhos de Maria ou de um primeiro casamento de José. Muitos teólogos afirmam que eles eram, na verdade, primos de Jesus - em aramaico, irmão e primo são a mesma palavra. A Bíblia não fala quase nada sobre a infância e a adolescência de Jesus, com exceção de uma passagem em que, aos 12 anos, numa visita ao Templo de Jerusalém durante a Páscoa, seus pais o encontram discutindo teologia com os sábios nas escadarias do templo do monte. É quase certo, porém, que ele cresceu em Nazaré.
Jesus falava certamente o aramaico, a língua corrente da Palestina e, provavelmente, entendia o hebreu por ter tomado lições na sinagoga e por ler a Torá. Os evangelhos apócrifos o pintam como um menino Jesus travesso, capaz de dar vida a figuras de barro para impressionar os colegas e até mesmo a fulminar um menino que esbarrou em seu ombro, para ressuscitá-lo logo em seguida, depois de tomar uma bronca do pai.
Certamente José procurou iniciá-lo na arte da carpintaria e é provável que Jesus tenha trabalhado como carpinteiro durante um bom tempo. Oportunidade não lhe faltou. Escavações recentes revelaram que ao mesmo tempo em que Jesus crescia em Nazaré, bem próximo era construída a monumental cidade de Séfores, idealizada por Herodes Antibas para ser a capital da Galiléia. Séfores estava a uma hora a pé de Nazaré e é muito provável que José e Jesus tenham trabalhado ali. Em Séfores Jesus teria visto a passagem da família real de Herodes Antibas e a opulência das famílias de sacerdotes do Templo de Jerusalém. O fato de Jesus ter passado boa parte da sua vida ao lado de Séfores indicaria que ele não era um camponês rústico como já se pensou, mas tinha contato com a cultura do mundo helênico.
Aos 30 anos, Jesus se fez batizar por João Batista nas margens do rio Jordão. Segundo a Bíblia, durante o batismo João reconhece Jesus como o messias. Há registros históricos da existência de João Batista e, recentemente, arqueólogos encontraram entre o monte Nebo e Jericó, nas margens do rio Jordão, ruínas de um antigo local de peregrinação por volta do século III d.C.
Decidido a cumprir sua missão na terra, Jesus dirigiu-se então para a Galiléia, onde recrutou seus primeiros discípulos entre os pescadores do lago Tiberíades. Passou a viver com seus primeiros seguidores em Cafarnaum, cidade de pescadores próxima do lago de Tiberíades. Por dois anos Jesus pregou pela Galiléia, Judéia e em Jerusalém, proferindo sermões e contando parábolas. Segundo a Bíblia, realizou 31 milagres, incluindo 17 curas e seis exorcismos. Alguns dos mais famosos são a ressurreição de Lázaro, a transformação de água em vinho e a multiplicação dos peixes.
Cafarnaum, onde Jesus teria vivido com seus discípulos, era um povoado de cerca de 1 500 moradores naquela época. Escavações encontraram os restos da casa de um dos discípulos, provavelmente de Simão Pedro (hoje conhecido como São Pedro), além de um barco datado da mesma época da passagem de Cristo pelo lugar. Não há, porém, certeza quanto ao número de discípulos que viviam próximos de Jesus. Nos evangelhos, apenas os oito primeiros conferem - os quatro últimos têm muitas variações. A hipótese mais provável é que o número "redondo" de 12 discípulos foi uma invenção posterior para espelhar, no Novo Testamento, as 12 tribos dos hebreus descritas no Velho Testamento.
Depois de viajar por quase toda a Palestina, Jesus parte para cumprir seu destino - ou, segundo alguns especialistas, seu plano. Durante a semana da Páscoa, o principal evento religioso do calendário judeu, Jesus entra em Jerusalém montado num burro e atravessando a Porta Maravilhosa. Esse foi, certamente, um ato deliberado de provocação aos sacerdotes do Templo e à elite judaica. Jesus faz exatamente o que o profeta Zacarias afirmava na Torá que o messias faria ao chegar. Jesus estava mandando uma mensagem de provocação aos sacerdotes do Templo. No segundo dia da Páscoa, Jesus vai ao Templo e ataca os mercadores e cambistas raivosamente.
Na quinta-feira, percebendo que o cerco apertava, os apóstolos celebram com Jesus a última ceia. A imagem que ficou dessa cena, gravada por Da Vinci e outros pintores, nada tem de verdadeiro. Os judeus comiam deitados de flanco, como os romanos, e as mesas eram ordenadas em formato de U e não dispostas numa linha reta. Durante a ceia, Judas levanta-se para trair seu mestre - ou, como alguns sugerem, para cumprir uma ordem dada pelo próprio Jesus. A captura acontece no Jardim do Getsêmani, onde Jesus e seus discípulos descansavam no caminho para Betânia, onde ficariam hospedados.
Levado para o Sinédrio, o Conselho dos Sacerdotes do Templo, Jesus reafirma sua missão divina e é condenado. Existem provas da denúncia de Caifás a Pilatos. Estudiosos judeus afirmam, porém, que o julgamento perante o Sinédrio jamais ocorreu porque o Sinédrio não se reunia durante a Páscoa. Essa versão teria sido incluída tardiamente na Bíblia após a ruptura definitiva entre cristãos e judeus. Jesus foi morto pelos romanos porque era considerado um agitador político.
Na manhã de sexta-feira, na residência do prefeito Pôncio Pilatos, Jesus é condenado à morte. Ele atravessa as ruas de Jerusalém carregando sua própria cruz e é crucificado entre dois ladrões. O caminho que Jesus percorreu nada tem a ver com a Via Crúcis visitada pelos turistas hoje. Ela é uma criação do século XIV, quando a cidade esteve nas mãos dos cavaleiros cruzados. A maioria dos historiadores e arqueólogos concorda, porém, que o morro do Calvário (Gólgota), localizado ao lado de uma pedreira, foi realmente o lugar da crucificação. Concordam também que seu corpo tenha sido colocado numa das grutas próximas. O que aconteceu então depende da fé de cada um. Há varias versões: que Jesus teria sobrevivido ao martírio, que outra pessoa teria morrido em seu lugar, que seu corpo teria sido roubado ou, claro, que ele teria ressuscitado.

A Bíblia Passada a Limpo

Descobertas recentes da arqueologia indicam que a maior parte das escrituras sagradas não passam de lenda
por Vinícius Romanini
Para a Revista SuperInteressante
A disputa entre ciência e religião pela posse da verdade é antiga. No Ocidente, começou no século XVI, quando Galileu defendeu a tese de que a Terra não era o centro do Universo. Essa primeira batalha foi vencida pela Igreja, que obrigou Galileu a negar suas idéias para não ser queimado vivo. Mas o futuro dessa disputa seria diferente: pouco a pouco, a religião perdeu a autoridade para explicar o mundo. Quando, no século XIX, Darwin lançou sua teoria sobre a evolução das espécies, contra a idéia da criação divina, o fosso entre ciência e religião já era intransponível. Nas últimas décadas, a Bíblia passou a ser alvo de ciências como a filologia (o estudo da língua e dos documentos escritos), a arqueologia e a história. E o que os cientistas estão provando é que o livro mais importante da história é, em sua maior parte, uma coleção de mitos, lendas e propaganda religiosa.
Primeiro livro impresso por Guttemberg, no século XV, e o mais vendido da história, a Bíblia reúne escritos fundamentais para as três grandes religiões monoteístas - Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Na verdade, a Bíblia é uma biblioteca de 73 livros escritos em momentos históricos diferentes. O Velho Testamento, aceito como sagrado por judeus, cristãos e muçulmanos, é composto de 46 livros que pretendem resumir a história do povo hebreu desde o suposto chamamento de Abraão por Deus, que teria ocorrido por volta de 1850 a.C., até a conquista da Palestina pelos exércitos de Alexandre Magno e as revoltas do povo judeu contra o domínio grego, por volta de 300 a.C. Os 27 livros do Novo Testamento abarcam um período bem menor: cerca de 70 anos que vão do nascimento de Jesus à destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C.
O coração do Velho Testamento são os primeiros cinco livros, que compõem a Torá do Judaísmo (a palavra significa "lei", em hebraico). Em grego, o conjunto desses livros recebeu o nome de Pentateuco ("cinco livros"). São considerados os textos "históricos" da Bíblia, porque pretendem contar o que ocorreu desde o início dos tempos, inclusive a criação do homem - que, segundo alguns teólogos, teria ocorrido em 5000 a.C. O Pentateuco inclui o Gênesis (o "livro das origens", que narra a criação do mundo e do homem até o dilúvio universal), o Êxodo (que narra a saída dos judeus do Egito sob a liderança de Moisés) e os Números (que contam a longa travessia dos judeus pelo deserto até a chegada a Canaã, a terra prometida).
Das três ciências que estudam a Bíblia, a arqueologia tem se mostrado a mais promissora. "Ela é a única que fornece dados novos", diz o arqueólogo israelense Israel Finkelstein, diretor do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv e autor do livro The Bible Unearthed (A Bíblia desenterrada, inédito no Brasil), publicado no ano passado. A obra causou um choque em estudiosos de arqueologia bíblica, porque reduz os relatos do Antigo Testamento a uma coleção de lendas inventadas a partir do século VII a.C.
O Gênesis, por exemplo, é visto como uma epopéia literária. O mesmo vale para as conquistas de David e as descrições do império de Salomão.
A ciência também analisa os textos do Novo Testamento, embora o campo de batalha aqui esteja muito mais na filologia. A arqueologia, nesse caso, serve mais para compor um cenário para os fatos do que para resolver contendas entre as várias teorias. O núcleo central do Novo Testamento são os quatro evangelhos. A palavra evangelho significa "boa nova" e a intenção desses textos é clara: propagandear o Cristianismo. Três deles (Mateus, Marcos e Lucas) são chamados sinóticos, o que pode ser traduzido como "com o mesmo ponto de vista". Eles contam a mesma história, o que seria uma prova de que os fatos realmente aconteceram. Não é tão simples. O problema central do Novo Testamento é que seus textos não foram escritos pelos evangelistas em pessoa, como muita gente supõe, mas por seus seguidores, entre os anos 60 e 70, décadas depois da morte de Jesus, quando as versões estavam contaminadas pela fé e por disputas religiosas.
Nessa época, os cristãos estavam sendo perseguidos e mortos pelos romanos, e alguns dos primeiros apóstolos, depois de se separarem para levar a "boa nova" ao resto do mundo, estavam velhos e doentes. Havia, portanto, o perigo de que a mensagem cristã caísse no esquecimento se não fosse colocada no papel. Marcos foi o primeiro a fazer isso, e seus textos serviram de base para os relatos de Mateus e Lucas, que aproveitaram para tirar do texto anterior algumas situações que lhes pareceram heresias. "Em Marcos, Jesus é uma figura estranha que precisa fazer rituais de magia para conseguir um milagre", afirma o historiador e arqueólogo André Chevitarese.
Para tentar enxergar o personagem histórico de Jesus através das camadas de traduções e das inúmeras deturpações aplicadas ao Novo Testamento, os pesquisadores voltaram-se para os textos que a Igreja repudiou nos primeiros séculos do Cristianismo. Ignorados, alguns desapareceram. Mas os fragmentos que nos chegaram tiveram menos intervenções da Igreja ao longo desses 2 000 anos. Parte desses evangelhos, chamados "apócrifos" (não se sabe ao certo quem os escreveu), fazem parte de uma biblioteca cristã do século IV descoberta em 1945 em cavernas do Egito. Os evangelhos estavam escritos em língua copta (povo do Egito).
O fato de esses textos terem sido comprovadamente escritos nos primeiros séculos da era cristã não quer dizer que eles sejam mais autênticos ou contenham mais verdades que os relatos que chegaram até nós como oficiais. Pelo contrário, até. Os coptas, que fundariam a Igreja cristã etíope, foram considerados hereges, porque não aceitavam a dupla natureza de Jesus (humana e divina). Para eles, Jesus era apenas divino e os textos apócrifos coptas defendem essa versão. Mesmo assim, eles trazem pistas para elucidar os fatos históricos.
A tentativa de entender o Jesus histórico buscando relacioná-lo a uma ou outra corrente religiosa judaica também foi infrutífera, como ficou demonstrado no final da tradução dos pergaminhos do Mar Morto, anunciada recentemente. Esses papéis, achados por acaso em cavernas próximas do Mar Morto, em 1947, criaram a expectativa de que pudesse haver uma ligação entre Jesus e os essênios, uma corrente religiosa asceta, cujos adeptos viviam isolados em comunidades purificando-se à espera do messias. O fim das traduções indica que não há qualquer ligação direta entre Jesus e os essênios, a não ser a revolta comum contra a dominação romana.
O resultado é que, depois de dois milênios, parece impossível separar o verdadeiro do falso no Novo Testamento. O pesquisador Paul Johnson, autor de A História do Cristianismo, afirma que, se extrairmos, de tudo o que já se escreveu sobre Jesus, só o que tem coerência histórica e é consenso, restará um acontecimento quase desprovido de significado. "Esse 'Jesus residual' contava histórias, emitiu uma série de ditos sábios, foi executado em circunstâncias pouco claras e passou a ser, depois, celebrado em cerimônia por seus seguidores."
O que sabemos com certeza é que Jesus foi um judeu sectário, um agitador político que ameaçava levantar os dois milhões de judeus da Palestina contra o exército de ocupação romano. Tudo o mais que se diz dele precisa da fé para ser tomado como verdade. Assim como aconteceu com Moisés, David e Salomão do Velho Testamento, a figura de Jesus sumiu na névoa religiosa.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Revista Espiritismo

sábado, 17 de julho de 2010

Eduardo Assad - Paz e Oração 3


01 Ária para quarta corda
02 Melodia em fá
03 Sarabande
04 Preludio - Opus 28
05 O Guarani
06 Sonata Patetica
07 Two american folk songs
08 L'amico Fritz
Baixe Aqui!
 
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